José Bonifácio
Memória à Assembléia Constituinte
(1823)
Memória de José Bonifácio apresentada
à Assembléia Constituinte e Legislativa do Brasil pelo
deputado França, lida na sessão de 9 de junho de 1823
mas não transcrita nos Anais. In J. B. de Andrada e Silva, O
Patriarca da Independência, Rio de Janeiro, s. d., p. 117
Parece muito útil, até necessário, que se edifique
uma nova capital do Império no interior do Brasil para assento
da corte, da assembléia legislativa e dos tribunais superiores,
que a Constituição determinar. Esta capital poderá
chamar-se Petrópole ou Brasília.
Disse que esta cidade era não só útil, mas necessária,
e vou desenvolver as razões em que me fundo. Sendo ela central
e interior, fica o assento do governo e da legislatura livre de qualquer
assalto ou surpresa feito por inimigos externos. Chama-se para as províncias
do sertão o excesso da povoação sem emprego das cidades
marítimas e mercantis. Como esta cidade deve ficar, quanto possível,
eqüidistante dos limites do Império, tanto em latitude como
em longitude, vai-se abrir deste modo por meio das estradas que devem
sair deste centro como raios, para as diversas províncias e suas
cidades interiores e marítimas, uma comunicação,
e de certo criará em breve giro de comércio interno da maior
magnitude, vistos a extensão do Império, seus diversos climas
e produções.
Ainda há outro objeto político que aconselha essa medida,
muito útil e necessária, e vem a ser que deste modo acabam
todas as rivalidades e pretensões que podem ter as capitais das
diversas províncias, que não querem ceder o direito da corte
ao Rio de Janeiro. Demais, sendo a comunicação marítima
entre o Rio de Janeiro ou mesmo Bahia, se esta passasse a ser a capital
do Império com os portos do Maranhão e Pará muito
longe e dificílimo por causa do lançamento e situação
das costas e pelas monções, todos esses embaraços
e dificuldades cessarão pelas comunicações internas
da nova capital por meio das estradas já montadas, por onde circulariam
em toda a prontidão e regularidade as ordens do governo.
Mas onde acharemos nós este ponto central que corresponda a todos
os fins propostos? Examinando-se a costa geral do Brasil, recolhidas todas
as notícias topográficas que puderem alcançar, eu
julgo que a natureza já assinalou o distrito em que ela se deve
edificar. A comarca de Paracatu é aquela que a natureza indica
pela sua latitude e posição geográfica, pela fertilidade
do seu torrão, pela salubridade do seu clima e pelas mais vantagens
que oferece ao comércio e à comunicação recíproca
das diversas províncias com a corte. Pelos muitos rios que ali
nasceu ou se cruzam e engrossam, pode ela ter comunicação
fluvial com as províncias de Goiás, Pará, Maranhão,
Pernambuco, Bahia, Porto Seguro e Espírito Santo. Pelos rios Preto,
Santa Maria e Paraná [Paranã]
pode-se passar ao Tocantins e vai-se ao Amazonas. Pelo rio S. Francisco
faz-se a comunicação com Pernambuco. Pelos rios Jequitinhonha
e Aruaçuaí [Araçuaí]
(os quais reunidos formam o chamado rio Belmonte), abre-se a comunicação
com a província da Bahia e do Rio de Janeiro.
Mas em que parte do distrito de Paracatu deve ser edificada esta nova
capital do grande Império do Brasil? A escolha final do local só
pode decidir-se exatamente depois de trabalhos geodésicos e sanitários
de uma comissão composta de engenheiros, médicos e arquitetos
que levante a planta do terreno e examine as circunstâncias locais
que o devem fazer digno de tal categoria.
Todavia seja-me permitido apontar desde já algumas posições
particulares por onde devem começar este exame. Os sítios
que me parecem mais apropriados são: 1º, as vizinhanças
da confluência do rio das Velhas com o de S. Francisco; 2º,
as vizinhanças em que o rio Preto se reúne ao de Paracatu;
3º, finalmente, um local qualquer da península que formam
os rios de S. Francisco, do Ouro e de Paracatu.
Apesar da utilidade desta nova capital, nada teríamos conseguido
se não indicássemos os meios necessários para a realização
deste projeto; assinalar os bairros que cada província deve edificar,
ficando-se então livre de vender ou arrematar esses prédios
urbanos conforme lhe parecer mais conveniente ou lucrativo. E como esta
cidade não se pode nem se deve edificar toda de repente, mas progressivamente,
os cabedais necessários vão também progressivamente
aparecendo e facilitando-se. Há um princípio de economia
que logo que se oferecem vantagens certas aos especuladores, nunca faltam
os cabedais precisos para semelhantes empresas. Igualmente me lembro que
sejam convidadas para edificar as ordens religiosas que possuem fundos
e as irmandades ricas que acharão um emprego útil aos seus
capitais.
Em suma, nunca faltam meios quando um povo rico e generoso, como o brasileiro,
toma a peito empresas de honra e utilidade nacional.
Pelas razões políticas e mercantis acima apontadas, julgo
que esta minha lembrança não desmerecerá o benigno
acolhimento das luzes e sabedoria da nossa Assembléia Geral Constituinte
e Legislativa do Brasil, mormente em um tempo em que os espíritos,
pela exaltação em que se acham, desejam e precisam ser ocupados
em empresas grandiosas e utilíssimas.
Rio de Janeiro, 8 de junho de 1823
José Bonifácio de Andrada e Silva
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Referências
-
Projetos para o Brasil – José
Bonifácio de Andrada e Silva – org. Miriam Dolhnikoff
– Cia. das Letras, 1998
"(...) esse Bonifácio
permanece praticamente desconhecido, obscurecido pela pobre
imagem oficial do 'Patriarca da Independência'. A imensa
quantidade de anotações que deixou permanece,
na sua maior parte, inédita nos arquivos. (...) Até
hoje, os textos de Bonifácio vieram a público
apenas através de três coletâneas (...).
Mas, nos três casos, apenas os textos oficiais foram reproduzidos.
No entanto, é somente pela leitura das suas anotações
pessoais, transcritas neste volume, que se pode vislumbrar todo
o alcance do pensamento político e social de José
Bonifácio (...)".
-
Patriarca da Independência -
José Bonifácio de Andrada e Silva - org. Otávio
Tarquínio de Souza - Nacional, 1939 [reeditada
em 1994 pela prefeitura de Santos: "A rebeldia do
patriarca"]
-
Obras científicas, políticas
e sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva
- org. Edgard de Cerqueira Falcão, Revista dos Tribunais,
1965
-
Obra política de José Bonifácio
- org. Octaciano Nogueira, Senado Federal, 1973
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