Hipólito
Brasil
(Planos de colonização e de catequese e dificuldades
do Rio como Capital)
CB vol. X, p. 373-377, março de 1813
Na gazeta do Rio de Janeiro de 2 de dezembro do ano passado, achamos
o seguinte anúncio.
"Saiu à luz Carta Régia de 5 de setembro
de 1811, para o governador e capitão general de Goiás, aprovando
o plano do estabelecimento de uma sociedade de comércio entre a
dita capitania e o Pará; concedendo vários privilégios
aos acionistas; e dando várias providências sobre a civilização
dos índios mansos e a respeito das nações Carajá,
Apinagé, Chavante, Cherente e Canoeiro; como também sobre
a navegação dos rios Tocantins e Maranhão, etc. (...).
Persuadidos como nós estamos de que o comércio externo
do Brasil não pode ter bases mais seguras do que o mesmo comércio
interno daquele país; e que os inumeráveis rios que banham
aquele fértil território oferecem as maiores facilidades
à exportação dos produtos do interior; não
podemos deixar de alegrar-nos com todas as medidas tendentes a estes fins;
e tal consideramos a que achamos anunciada neste extrato da gazeta do
Rio de Janeiro, que acabamos de copiar.
A gazeta da mesma cidade, de 16 de dezembro passado, noticia também
que tanto a navegação do rio Belmonte como a nova estrada
aberta pela sua margem, vão sendo mui freqüentadas, e que
no mês de outubro subira para Minas-novas o capital José
da Silva Mariz e descera para Mugiquicaba o capitão José
Pacheco Rolim, conduzindo um grande comboio de cargas de algodão;
e além disto, que aquela navegação cada dia se torna
mais segura, fácil e cômoda.
Os brasileiros nos permitirão lembrar-lhe, ao mesmo tempo que
louvamos estes seus esforços para o melhoramento do Brasil; que
eles conservam obstáculos à sua prosperidade, que retardarão
infinitamente os progressos da civilização e da agricultura
e comércio interno. E, por ora, faremos menção de
dois. Um é a má escolha da sede do governo; outro, a falta
de população própria e conveniente ao estado atual
do Brasil.
O Rio de Janeiro não possui nenhuma das qualidades que se requerem
na cidade que se destina a ser a capital do império do Brasil,
e se os cortesãos que para ali foram de Lisboa tivessem assaz patriotismo
e agradecimento pelo país, que os acolheu, nos tempos de seus trabalhos,
fariam um generoso sacrifício das comodidades e tal qual luxo,
que podiam gozar no Rio de Janeiro, e se iriam estabelecer em um país
do interior, central e imediato às cabeceiras dos grandes rios;
edificariam ali uma nova cidade, começariam por abrir estradas
que se dirigissem a todos os portos de mar e removeriam os obstáculos
naturais que tem os diferentes rios navegáveis e lançariam
assim os fundamentos ao mais extenso, ligado, bem defendido e poderoso
império, que é possível que exista na superfície
do globo, no estado atual das nações que o povoam.
Este ponto central se acha nas cabeceiras do famoso rio de São
Francisco. Em suas vizinhanças estão vertentes de caudalosos
rios, que se dirigem ao norte, ao sul, ao nordeste e ao sueste, vastas
campinas para criações de gados, pedra em abundância
para toda sorte de edifícios, madeiras de construção
para todo o necessário e minas riquíssimas de toda a qualidade
de metais; em uma palavra, uma situação que se pode comparar
com a descrição que temos do paraíso terreal.
Desprezou-se tudo isto pela cidade do Rio de Janeiro; porque já
ali havia algumas casas de habitação, comodidades para que
algumas pessoas andassem em carruagens, um mesquinho teatro, demasiado
número de cantoneiras, para o divertimento dos cortesãos;
em uma palavra; porque se evitava assim o trabalho de criar uma cidade
nova e os incômodos inerentes a novos estabelecimentos; e por estas
miseráveis considerações se roubou a S. A. R. o Príncipe
Regente a glória incomparável de ser o fundador de uma cidade,
a que afixaria o seu nome, fazendo-se imortal na criação
de uma vasta monarquia.
Não nos demoraremos nas objeções que há contra
a cidade do Rio de Janeiro, aliás mui própria ao comércio
e a outros fins; mas sumamente inadequada para ser a capital do Brasil;
basta lembrar que está a um canto do território do Brasil,
que as suas comunicações com o Pará e outros pontos
daquele Estado é de imensa dificuldade e que sendo um porto de
mar está o Governo ali sempre sujeito a uma invasão inimiga
de qualquer potência marítima.
Quanto as dificuldades da criação de uma nova capital estamos
convencidos que todas elas não são mais do que meros subterfúgios.
A facilidade com que nos Estados Unidos da América Setentrional
se edificam novas cidades; o plano que os americanos executaram de fundar
a sua nova capital, Washington, aonde não havia uma só casa,
mas no centro de seu território, é um argumento tirado da
experiência de nossos tempos que nada pode contradizer.
O segundo obstáculo que desejamos lembrar, sobre os progressos
de melhoramentos do Brasil, é a falta de população
conveniente às suas circunstâncias. Os únicos estrangeiros
que freqüentam agora o Brasil são negociantes, a pior sorte
de população que ali pode entrar; porque o negociante estrangeiro
que ali chega não possui outra pátria senão a sua
carteira e o seu escritório; chega, enriquece-se e vai-se embora
morar no seu país natal, ou aonde lhe faz mais conta. Durante a
sua residência temporária, conforma-se, por prudência,
com os usos estabelecidos, sejam bons, sejam maus, tira todo o partido
que pode, até da ignorância dos naturais do país,
e faz o que ele chama o seu ofício, que é comprar por menos
e vender por mais.
A população estrangeira de que o Brasil necessita é
aquela que não recebe ao presente nenhum convite eficaz, para ali
entrar, e se estabelecer no país; e vem a ser agricultores, artistas,
mineiros, pescadores, homens de letras, etc. Tudo isto se podia obter,
com uma facilidade, de diferentes países do mundo, com tanto que
se lhes assegurasse a liberdade de suas pessoas e o gozo imperturbável
de suas propriedades; não com meras promessas em papel; mas por
leis fixas e invariáveis, cuja observância fosse demonstrada
com fatos.
Mas a diferença das religiões? Até quando reinarão
as máximas de perseguição e tirania da Inquisição?
Não bastam os rios de sangue que até aqui têm corrido,
em nome da mais branda e suave religião que jamais se pregou aos
homens? O espírito de tolerância, se é o mais útil
à prosperidade dos Estados; é inquestionavelmente o mais
conforme ao verdadeiro sistema do cristianismo. Adote-se uma bem entendida
tolerância e todas as dificuldades a este respeito se desvanecerão.
Da Irlanda, Escócia e Holanda se podem obter excelentes agricultores;
da Inglaterra e França, artistas; da Alemanha, mineiros; dos Estados
Unidos, colônias inteiras de pescadores, principalmente dos estados
de Conecticut, Rhode Island e Massachussets; homens sábios de todo
o mundo; e este grande e precioso aumento de população se
pode obter sem a menor despesa da parte do governo.
Sem dúvida que a formação de planos para estes objetos
requer, além de conhecimentos e um espírito desabusado e
sem prejuízos, assiduidade e grande trabalho; sem dúvida
a execução em todos os seus ramos e circunstâncias
particulares requer ainda maiores trabalhos; mas nisso está o merecimento
dos que governam. Que louvor merecem eles, que agradecimentos esperam
da posteridade, se não fazem mais do que aplicar-se à rotina
ordinária do despacho de gabinete, que pode ser também ou
melhor executada por qualquer oficial da secretaria?
Tais homens são comparáveis ao barqueiro que conduz o barco
segundo a corrente da maré, movendo unicamente o leme com quase
nenhum trabalho; e ainda assim encabaca o seu vaso, ao menor encontro
de uma revessa inesperada.
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Referências
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Antologia do Correio Braziliense - Barbosa
Lima Sobrinho - Livraria Editora Cátedra, Rio de Janeiro
/ INL, 1977
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Hipolito da Costa e o Correio Braziliense
- Mecenas Dourado, Rio de Janeiro, F. Bastos, 1957
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Hipolito da Costa e o Correio Braziliense
- Carlos de Andrade Rizzini, São Paulo, Cia. Ed. Nacional,
1957
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Diario da minha viagem para Filadélfia:
1798-1799 - Hipólito José da Costa, Rio de
Janeiro, ABL, 1955
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Narrativa da perseguição
- Hipólito José da Costa, Porto Alegre, UFRGS,
1974
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O senhor do tempo - Luiz Egypto: Entrevista
com Sergio Goes de Paula, autor de Hipólito de
Costa (Editora 34, Rio, 2001)
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