Hipólito
População. Nova capital no Brasil
(Nova capital, novas estradas e medidas para a criação de povoados)

CB vol. XIII, p. 85-98, julho de 1816

Indicamos no nosso número passado algumas breves noções sobre a necessidade de promover a imigração de estrangeiros no Brasil e fomentar os estabelecimentos de terra dentro, edificando uma nova cidade para ser a capital e sede do governo do Brasil. O leitor nos permitirá ainda outra vez o falarmos desta matéria, que julgamos de grandíssima conseqüência para a prosperidade daquele país.

O sistema que recomendamos de favorecer a imigração de estrangeiros tem sempre em vista o facilitar-lhes todos os meios de se estabelecerem no interior do país; deixando os portos de mar, os rios e as costas sem este imediato patrocínio; porque, pela natureza das cousas, estes lugares obtêm por si mesmo concorrência de habitantes.

O grande ponto deste plano seria, depois de escolhido o lugar mais apto para a capital, abrir as estradas dali para todas as províncias; e edificar as aldeias ao longo dessas estradas, em distâncias convenientes e nos lugares fornecidos de água, madeira e pedra.

O Brasil não tem necessidade de ter mendigos; e portanto os que aparecessem se deveriam empregar na abertura dessas estradas, juntamente com os destacamentos de tropas, segundo deixamos indicado.

A residência do governo na capital deve, necessariamente, levar ali concurso de gente de todas as partes. As passagens dos rios, seja em barcos, seja em pontes, deve ministrar uma fonte de rendimento para a mesma abertura das estradas; arrematando-se estas passagens a quem por elas mais desse, e fazendo com que as pontes, caminhos, etc. sejam construídos, não por conta da Fazenda Real, mas sim por companhias de indivíduos particulares a quem se dêem os lucros provenientes do que pagam os viajantes que passam por essas pontes, estradas, etc.

(...)

Haverá porém lugares em que se não possa aplicar este método, porque requererão despesas tão consideráveis, que para elas não baste o que razoavelmente se pode exigir dos passageiros. É neste caso que o governo deve contribuir, pagando aos trabalhadores, empregando os mendigos e os soldados licenciados; fazendo também isto por meio da arrematação a indivíduos, em hasta pública.

É ordinariamente junto aos rios aonde se acham as melhores situações para edificar povoações; e um destacamento de tropas, junto com os trabalhadores na estrada; e as pequenas datas de terras aos que as quiserem cultivar, formarão em breve outras tantas aldeias nos lugares em que se empreenderem tais obras.

Porém, em todos os casos, é necessário evitar cuidadosamente as administrações por conta da Fazenda Real e a ingerência do governo, exceto nas cousas que forem de absoluta necessidade. Se uma companhia de particulares empreende a abertura de alguma estrada junto a um rio, como no exemplo que temos figurado, não é preciso outra ingerência da parte do governo, senão que o seu engenheiro marque o rumo da estrada e suas dimensões, que tire um mapa topográfico dos corredores; que nele designe as datas aos indivíduos, sempre com a condição de as perderem se as não cultivarem dentro do tempo limitado; e que estes mapas, datas e confrontações sejam registradas e depositadas nos arquivos competentes, para segurar os títulos das propriedades a seus legítimos donos.

Julgamos que seria de suma utilidade empregar o governo todas as somas que lhe pudessem restar de outras repartições, em comprar instrumentos de agricultura que se repartissem pelos novos colonos, sendo estes obrigados a pagá-los dentro em certo número de anos, a pagamentos anuais. Estes pagamentos se poderiam receber em gêneros, como os dízimos; e serviriam para o mantimento das tropas e dos trabalhadores empregados nas obras públicas. Assim, o governo não perderia cousa alguma das despesas feitas nestes avanços; e o pagamento não se faria oneroso ao novo colono.

Quanto aos trabalhos da capital, parece-nos que ali se deveriam empregar exclusivamente os criminosos condenados a galés em toda a parte do Brasil; porque com facilidade se podiam fechar durante a noite na prisão destinada a este serviço; quando que nas estradas públicas, principalmente as distantes de povoações, o custo de guardar os presos e o perigo de sua fuga são muito maiores que o proveito de seu trabalho.

  

Referências

Planos de colonização | Nova capital, novas estradas | Programa para o desenvolvimento | O Brasil como ponto central da monarquia portuguesa | Revolução no Rio de Janeiro | Apontamentos para um plano... | A idéia de Brasília em Hipólito
A idéia mudancista | Hipólito | Bonifácio | Independência | Império | Varnhagen | República | Cruls | Café-com-leite | Marcha para oeste | Constitucionalismo | Mineiros | Goianos | Projetos de Brasil | Ferrovias para o Planalto Central
 

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