Hipólito
Vinda d'El Rei para Portugal
(O Brasil como ponto central da monarquia portuguesa)
CB vol. XX, p. 611-616, maio de 1818
O Investigador, nº 84, começou com uma dissertação
intitulada "Considerações sobre a sede da monarquia
portuguesa", questão que confessa interessar "a todos
os indivíduos" e portanto ser-nos-á também lícito
dizer a nossa opinião sobre tão interessante matéria.
Deixando o que se diz, nesta dissertação, sobre os governos
em geral, consideraremos os argumentos relativos à questão
em particular; e porque D. Luiz da Cunha era de opinião que El
Rei de Portugal devia ter a sua Corte no Brasil, para assim se pôr
ao abrigo contra o poder de Espanha, o autor desta dissertação
dirige os seus argumentos a refutar a opinião daquele político
que, pelo respeito que lhe prestam os portugueses como diplomático,
deve ter grande influência entre as pessoas, que mais respeitam
a autoridade do que o raciocínio.
O autor desta dissertação toma como provada a proposição
de Vegécio, que "nenhuma nação unida pode deixar
de defender-se, ainda contra o maior poder". Concordamos no princípio,
só por argumento, para ver até que ponto se verifica a conclusão
do autor.
Se o princípio é verdadeiro pelo que respeita a Portugal,
por que o não será também pelo que respeita a Espanha?
Se supomos em Portugal aquela união e aqueles princípios
de patriotismo que farão com que todos os indivíduos pelejem
até exaurir as forças físicas, não há
motivo para que não suponhamos o mesmo de Espanha; e, no caso de
suas nações beligerantes animadas do mesmo patriotismo e
força moral, é claro que a vantagem deve estar da parte
daquela cujas forças físicas sejam superiores.
Diz o A. p. 431, aludindo à exageração de D. Luiz
da Cunha, que a conquista de Portugal por Espanha é obra de uma
campanha, "que se Portugal se defendia uma campanha, isto é,
um ano, que dúvida em restar a Corte até esse fim e abandonar
então o país conquistado?" Se o A. julga que, em último
recurso, se deve adotar tal medida da mudança da Corte para o Brasil,
é preciso que convenha que, quando a família real portuguesa
foi para o Brasil tinha, com efeito, chegado o momento em que o Reino
se devia supor conquistado; porque nenhuma prudência humana podia
então prever os sucessos que, ao depois, favoreceram a libertação
de Portugal.
O A., para provar a invencibilidade de uma nação que se
quer defender, cita o exemplo de Tyro. Mas não foi essa mesma Tyro
conquistada? A Palestina foi conquistada pelos Hebreus ou Israelitas;
estes foram conquistados pelos Caldeus, pelos Persas, pelos Gregos, pelos
Romanos; enfim, não mostra a história uma só nação
que não tenha sido conquistada por outra mais poderosa, quaisquer
que tenham sido os seus princípios de patriotismo.
Convimos que a força de uma nação não é
resultado somente da extensão do território, nem da riqueza
de suas produções, como mui bem observa o A. a p. 431; mas
se o Brasil possui essas vantagens físicas, que um governo sábio
pode nele conseguir o que, em paridade de outras circunstâncias,
não poderia conseguir num país que tais vantagens não
possui.
Mas consideremos agora os argumentos de pequenos Estados, que fizeram
notáveis proezas em defender-se e em atacar seus inimigos, sem
precisarmos dos exemplos de Esparta e outros países, achamos assaz
provas mesmo dentro em Portugal. O argumento, porém, é este:
se Portugal, conforme o raciocínio do A., pôde não
só defender-se, mas obrar grandes feitos, tendo o patriotismo que
lhe resulte de um bom governo, muito mais fará esse mesmo bom governo
se souber no Brasil aproveitar-se das maiores vantagens físicas
que tem à sua disposição.
A pouca povoação do Brasil é, sem dúvida,
a maior desvantagem que o seu governo tem de encontrar; em sua mão
está remediar este mal, como tão exemplarmente têm
feito os Estados Unidos. Mas tomemos as cousas mesmo no Estado em que
se acham. Suponhamos que Espanha quer mandar uma expedição
de 10.000 homens contra Portugal e uma de igual número contra o
Brasil, quão fácil lhe é a primeira operação,
comparada com as dificuldades da segunda? A diferença, pois, de
povoação não equivale de nenhum modo às vantagens
da situação local, distância da Europa, recursos internos
etc. que se acharão no Brasil para resistir aos supostos 10.000
homens.
Do princípio de que a população de Portugal é
mais compacta que a do Brasil e que portanto tem as suas forças
mais concentradas, conclui o A. que é ali, e não no Brasil,
aonde deve ser situada a cabeça do Império.
A p. 334 diz o A. "que tem considerado tão importante objeto
mui erradamente"; e a razão é por supor, nesta questão,
a monarquia portuguesa composta só de Portugal e do Brasil, quando
os seus domínios se estendem a muitas ilhas e várias possessões
na África e na Ásia, e conclui assim:
"Debaixo desta idéia, a capital e cabeça de
um semelhante Império deve ser, não tanto no lugar de
mais extenso terreno, mas sim no que guarde e sirva ao melhor governo
e direção de todas as suas partes, situadas e dispersas
pelas quatro partes do mundo"
Convimos nisto perfeitamente com o A. e com as autoridades que ele cita;
mas agora convém examinar se, deste princípio, se segue
que Portugal seja quem deva ter a preferência nesta questão.
O A. cita uma passagem de Luís Mendes de Vasconcelos (Sítio
de Lisboa, p. 11) aonde Vasconcelos se estende a mostrar as vantagens
de Lisboa, e seu porto para o comércio da Europa. Com efeito, Lisboa
constituída como porto franco com os regulamentos e facilidades
convenientes a tal estabelecimento, tem vantagens superiores a todo e
qualquer porto de Portugal, e à maior parte da Europa. Mas desta
circunstância da facilidade do comércio se não segue
que Lisboa seja por isso mais própria do que o Brasil para ser
a capital de toda a monarquia portuguesa, ou lugar da Corte e residência
do monarca.
Pelo contrário, somos de opinião que a Corte não
deve residir no porto, ou lugar que se destinar a ser o empório
do comércio; porque os negociantes, iludidos com o brilhante da
Corte, desejam fazer-se cortesãos, em vez de serem comerciantes;
procuram hábitos, condecorações e títulos,
em vez de procurar sobressair em seu comércio, que é o que
lhes convém e interessa o Estado; e saindo assim aqueles indivíduos
da esfera em que tão úteis eram, de negociantes da primeira
ordem passam, talvez, a ser nobres da ínfima graduação,
no que se não utilizam a si, nem fazem bem ao Estado. É
nesta consideração, além do manifesto interesse de
ter a capital no centro da monarquia, que temos por mais de uma vez dito
que o Rio de Janeiro é impróprio para ser a residência
da Corte; e que nas campinas do rio Doce e vertentes do rio S. Francisco
se acham muitos lugares que oferecem as mais belas situações
para se estabelecer a Corte.
Considerando, porém, como o A. deseja, a monarquia portuguesa
composta de todos os seus Estados, nas quatro partes do mundo, parece-nos
claro que o Brasil é quem fica sendo o ponto central. Se as possessões
portuguesas na Índia merecem ainda a contemplação
de serem consideradas províncias componentes da monarquia, e não
como meras feitorias de comércio; então o Brasil está
em melhor situação para ser sua metrópole do que
Portugal, situado na extremidade oposta do globo.
Tomemos três pontos no mapa, Portugal, Brasil, cabo da Boa Esperança,
e tendo as colônias de África em frente do Brasil. A mera
inspeção do mapa a que o A. se refere mostra que o Brasil,
e não Lisboa, é o ponto central que, distando igualmente
das extremidades, se indica pela vista como o mais próprio para
a capital das diferentes províncias.
A p. 444, o A. estabelece a tese de que as nações só
se revolucionam pelos seus próprios governos; esta proposição
é bem desenvolvida e claramente explicada pelo A. com raciocínios
ligados e apropriada citação de exemplos. E contudo esta
consideração não adianta nada às provas da
opinião do A., porque a questão é simplesmente o
considerar em que parte dos domínios portugueses estará
a Corte mais abrigada de uma invasão dos inimigos e mais livre
da influência das potências estrangeiras, para legislar a
bem de seus súditos sem temor do ressentimento de seus rivais.
O A. supõe que a causa, ou pelo menos uma das causas, de não
voltar a Corte para Lisboa é o temor de que o Brasil se faça
então independente de Portugal.
Quanto a nós, essa consideração não entra
na linha de conta quando formamos a opinião de que a Corte se deve
conservar no Brasil. Convimos perfeitamente com o A. que tal separação
não é provável no estado atual das cousas; porém
quando o A., supondo a hipótese dessa separação,
julga que o Brasil perde mais do que Portugal; ou que, fazendo-se nessa
hipótese dois Estados separados, o de Portugal seria mais poderoso
do que o Brasil, pedimos licença para diferirmos totalmente de
tal opinião.
Parece-nos que o A., aliás comedido, cândido e atilado,
labora contudo debaixo de prejuízo [preconceito]
mui natural ao português europeu, de desejar ver o seu monarca restituído
a Lisboa; e todos sabem que os prejuízos e a inclinação
influem no modo de raciocinar dos homens ao ponto de obscurecerem ainda
os melhores entendimentos. Desta luta entre a paixão e a razão
resulta, segundo a nós, que o A., destinando-se a escrever uma
dissertação para provar que a Corte portuguesa deve voltar
para Lisboa, conclui propondo um plano de separação absoluta
dos dois Estados e que Sua Majestade dê Portugal, ilhas e possessões
de África e Ásia a um de seus filhos; e a outro o Estado
do Brasil.
Se este plano é ou não prudente no momento atual, não
o examinaremos por agora; porém o mesmo fato de o A. o haver proposto,
quando se dirigia a mostrar que o monarca devia voltar com sua Corte para
Lisboa, faz evidente que as razões alegadas não tinham para
com o mesmo A. a força que a sua inclinação lhes
supõe.
Reassumiremos esta matéria no nº seguinte.
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Referências
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Antologia do Correio Braziliense - Barbosa
Lima Sobrinho - Livraria Editora Cátedra, Rio de Janeiro
/ INL, 1977
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Hipolito da Costa e o Correio Braziliense
- Mecenas Dourado, Rio de Janeiro, F. Bastos, 1957
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Hipolito da Costa e o Correio Braziliense
- Carlos de Andrade Rizzini, São Paulo, Cia. Ed. Nacional,
1957
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Diario da minha viagem para Filadélfia:
1798-1799 - Hipólito José da Costa, Rio de
Janeiro, ABL, 1955
-
Narrativa da perseguição
- Hipólito José da Costa, Porto Alegre, UFRGS,
1974
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O senhor do tempo - Luiz Egypto: Entrevista
com Sergio Goes de Paula, autor de Hipólito de
Costa (Editora 34, Rio, 2001)
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