Hipólito
Revolução no Rio de Janeiro
(Do Fico ao embarque da tropa de Avilez)
CB vol. XXVIII, p. 266-269, março de 1822
Recebemos em Londres notícias do Rio de Janeiro, até a
data de 19 de janeiro, e de Pernambuco, até 12 de fevereiro; e
importantes são sem dúvida, em todo o sentido, essas notícias.
Chegou ao Rio de Janeiro a ordem das Cortes para que o príncipe
real regressasse a Lisboa; e aquela medida causou logo o maior descontentamento
em todas as classes de pessoas. A Câmara foi com grande aparato
representar a S. A. R. as perniciosas conseqüências de sua
retirada e requereu-lhe que não deixasse o Brasil; o príncipe
aquiesceu a isso, como não podia deixar de o fazer, e o júbilo
do povo mostrou-se universal, iluminando-se toda a cidade por três
noites consecutivas. As tropas de Portugal não deram sinais do
mesmo prazer; pelo contrário, ameaçaram violência
e, como eram em número de 1.500 ou 2.000 homens, foi necessário
ajuntar as milícias do país para se lhes opor. Com isso
se retiraram aquelas tropas ao Castelo, aonde se fizeram fortes; mas como
viessem para a cidade também as milícias dos contornos,
julgaram essas tropas mais prudente entrar em capitulação
e foram logo passadas para a outra parte da baía, até estarem
prontos os vasos que as devem conduzir a Portugal; naquele sítio
foram essas tropas européias cercadas por um cordão das
milícias do país e, pela parte do mar, por três navios
de guerra que se achavam no porto; mas, no entanto, desertavam muitos
soldados que, como é natural, preferem ficar livres no Brasil a
virem viver na penúria em que seus camaradas se acham em Portugal.
Em Pernambuco sucedeu semelhante cena; porque aos 28 de janeiro, quando
ainda se não sabia do que havia passado no Rio de Janeiro, houve
um ajuntamento dos chefes da tropa, clero e principais habitantes, aonde
se resolveu que as tropas portuguesas eram ali desnecessárias e
requereram à junta que as fizesse embarcar sem demora. A Junta
conveio nisso e faziam-se preparativos para o embarque dessas tropas européias.
Que dirão agora a isto os fautores do sistema de mandar tropas
de Lisboa para o Brasil? Incorreram as Cortes em despesas com que a nação
não podia, para mandarem ao Brasil armamentos inúteis; porque
com um assopro os brazilienses os deitavam fora; e prejudiciais; porque
só eram tendentes a inspirar idéias de sujeição
com que se irritavam os ânimos daqueles povos, já assaz dispostos
a isso por tantos erros que as Cortes têm cometido.
Uma provocação mais, e os brazilienses darão seu
último passo para a independência; é natural que,
quando lá chegar ao Brasil, pela Constituição que
estão fazendo, o caso chegue a essa extremidade, que será
bem lamentável para Portugal.
Este fato de se encurralarem tão facilmente os 1.500 ou 2.000
homens de tropas européias que havia no Rio de Janeiro e ficarem
de quarentena na praia grande até as fazerem embarcar prova bem
o que nós dissemos, que a ameaça de mandar tropas de Portugal
para sujeitar o Brasil é o ronco do cágado-guarte lage,
que te parto.
Mas, isto provado, é preciso que no Brasil obrem com moderação,
que só lembrem desses erros que as Cortes têm cometido para
não os imitarem e, sobretudo, é preciso que se lembrem no
Brasil que uma independência intempestiva lhes pode fazer mais mal
do que bem.
A medida de requererem ao príncipe que ficasse no Brasil e a aquiescência
de S. A. R. a este requerimento traz consigo conseqüências
importantes, a que é necessário atender com muita reflexão
e madureza.
Está claro que este passo é uma formal resistência
ao decreto das Cortes, que mandavam retirar o príncipe real; esse
decreto era impolítico em mais de um sentido; e por não
considerarem isso, se expuseram as Cortes ao dizer de se verem desobedecidas,
o que será um golpe fatal a seu poder moral no Brasil.
Mas se os brazilienses, imitando esse comportamento inconsiderado das
Cortes, derem também o passo inconsiderado de se declararem independentes,
expor-se-ão a que achem resistência em algumas províncias
aonde não há força de Portugal, porque essa está
claro que a não há, mas a intriga e o espírito de
partido podem causar fatais desuniões.
Em conseqüência do decreto das Cortes para se criarem Juntas
governativas no Brasil, muitas das províncias já formaram
suas juntas e é natural que no Rio de Janeiro se execute o mesmo.
É pois sumamente indecoroso que o príncipe real continue
a residir no Brasil sujeito a uma Junta governativa ou, pelo menos, sem
ter algum comando geral no Brasil consistente com sua alta dignidade.
Parece-nos, pois, que o modo mais prudente de conciliar as cousas, no
presente estado dos negócios, é formar-se no Brasil um governo
central provisório, a cuja frente esteja o príncipe real,
a quem prestem obediência as juntas provinciais.
Este governo central não se pode formar a aprazimento dos povos,
sem que S. A. R. convoque deputados das diversas províncias, principalmente
das mais próximas, que os quiserem mandar: o local desse governo
provisório não deve ser o Rio de Janeiro, mas algum no interior;
e formado assim esse governo central a aprazimento dos povos por meio
de seus deputados; tal governo provisório deve então entrar
em correspondência com as Cortes em Lisboa e assentarem nas bases
de um governo permanente, no qual se evitem os erros em que as presentes
Cortes têm caído.
Se os povos do Brasil refletirem sossegadamente na matéria, verão
que este comportamento moderado é o que mais lhes convém;
e as Cortes em Lisboa, se se despirem dos prejuízos com que até
aqui têm olhado para o Brasil, , acharão que este meio de
conhecer a vontade dos povos é muito mais próprio do que
o seguido até agora, de dar ouvidos às representações
de governadores militares só inclinados a justificar seu despotismo;
ou crer a olhos cerrados nas vozerias de quantos mascates europeus que
fazem seu negócio nos portos de mar do Brasil.
Demonstrado como está que Portugal não tem forças
para subjugar o Brasil; que os brazilienses, todas as vezes que quiserem,
porão as tropas européias no andar da rua, é claro
que o Brasil só pode ser governado pela opinião, e acedendo
à vontade dos povos; o que nos parece se conseguirá pelo
modo que deixamos proposto.
Se outro melhor se propuser embora se adote; mas seguros estamos que
nenhum será bem sucedido se for fundado no princípio errado,
sobre que se tem obrado até aqui, de que o Brasil se pode sujeitar
com os poucos soldados que para ali se mandem de Portugal; e muito menos
com a suposição de que os brazilienses são tão
estúpidos que se contentarão com chamar-lhes irmãos,
quando tudo quanto haja de empregos, grandeza e consideração
seja só para os irmãos de Portugal; o tempo desses ópios,
na verdade, está passado; é preciso que as Cortes se convençam
disto.
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Referências
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Antologia do Correio Braziliense - Barbosa
Lima Sobrinho - Livraria Editora Cátedra, Rio de Janeiro
/ INL, 1977
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Hipolito da Costa e o Correio Braziliense
- Mecenas Dourado, Rio de Janeiro, F. Bastos, 1957
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Hipolito da Costa e o Correio Braziliense
- Carlos de Andrade Rizzini, São Paulo, Cia. Ed. Nacional,
1957
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Diario da minha viagem para Filadélfia:
1798-1799 - Hipólito José da Costa, Rio de
Janeiro, ABL, 1955
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Narrativa da perseguição
- Hipólito José da Costa, Porto Alegre, UFRGS,
1974
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O senhor do tempo - Luiz Egypto: Entrevista
com Sergio Goes de Paula, autor de Hipólito de
Costa (Editora 34, Rio, 2001)
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