O exemplo americano:
Terra para dividir
« Sempre que num país há terras
devolutas e pobres desempregados, é claro que as leis sobre a
propriedade foram ampliadas a ponto de violar o direito natural. A terra
foi dada aos homens como um bem comum para nela trabalharem e dela tirarem
seu sustento. Se, por incitação à esperteza, permitimos
que dela se apossem, devemos ter o cuidado de encontrar ocupação
para aqueles que dela foram excluídos. Se não agirmos
dessa maneira, o direito fundamental de trabalhar a terra retorna ao
desempregado. » [Thomas Jefferson,
carta a Madison, cf. Aptheker]
A independência dos Estados Unidos, sua revolução
política, o rápido povoamento e desenvolvimento tornaram
o país uma referência em todo o mundo. É impossível
situar os principais projetos para o Brasil de Hipólito,
Bonifácio, Varnhagen,
Rebouças
e Governo Provisório
da República sem considerar o exemplo prático
da América do Norte.
Liberdade (para os brancos), direitos assegurados pela Constituição,
julgamentos pelo júri dos próprios cidadãos, limitação
do poder das autoridades numa época em que a maior parte da Europa
se sujeitava ao arbítrio dos governantes e aos privilégios
da aristocracia latifundiária fizeram dos Estados Unidos o objetivo
de milhões de trabalhadores do velho mundo, desde a independência,
ainda no século XVIII.
Uma política consistente de divisão da terra para neutralizar
a aristocracia feudal e desenvolver o país fez da
América a terra da promissão, diante de um mundo
praticamente fechado à possibilidade de crescimento pelo trabalho.
Baixa visibilidade
A questão do acesso à terra comparece pouco, e com baixa
nitidez, na maioria das histórias dos Estados Unidos.
Documentos específicos nem sempre são muito difundidos
o Estatuto da Terra de 1785, p.ex., não se encontra entre
os Primary
Documents in American History, da The
Library of Congress; nem entre os 100
Milestone Documents disponibilizados pelo governo; nem no programa
virtual Teaching
With Documents, também do governo. Um segundo Estatuto da
Terra de 1796, que corrigiu várias falhas do primeiro, é
ainda menos difundido [Google].
No entanto, o tema esteve no centro dos debates, desde antes da formação
dos Estados Unidos; e foi mantido de forma consistente, por mais de 100
anos. Nas palavras de Glicério,
em 1891:
O sistema americano funda-se em um regímen de
terras públicas que vem desde o século passado [XVIII],
sabiamente instituído e pacientemente praticado, pelo qual, não
só se discriminam o domínio público e a propriedade
particular como ainda é sobre ele que se levantam a medição,
demarcação e numeração dos lotes.
Federalização da terra
A Declaração
de Independência (1776) refere a crescente restrição
do acesso à terra por parte do rei da Inglaterra entre os motivos
que tornavam inevitável a separação das colônias.
Os Artigos
da Confederação (1777) colocaram sob controle federal
as terras a oeste das 13 colônias questão que opôs
estados pequenos e estados da fronteira:
"Os artigos foram debatidos intermitentemente,
desde novembro de 1777, como o tinha sido antes para a ratificação
dos estados; mas a ratificação final foi protelada devido
à recusa de Maryland de ratificá-los até que os estados
que reclamavam as terras do Oeste as cedessem ao governo federal. Com
a cessão feita pela Virgínia em 1781, Maryland assinou os
artigos" [Richard B. Morris].
Nenhum estado (ou oligarquia estadual), portanto, deveria crescer às
custas da guerra de independência empreendida pela União
dos estados.
Loteamento radical
Cedidas à União as terras do oeste pretendidas pela
Virgínia (1781) e ratificada a confederação por Maryland,
o passo seguinte foi a aprovação da Lei
de Terras, ou Estatuto da Terra, que já vinha sendo
elaborada por Jefferson, à frente de uma comissão do Congresso,
havia alguns anos, sem muito alarde [Land
Ordinance of 1785. Ver também:
Draft
of "An ordinance establishing a Land Office for the United States"].
Esse estatuto, na prática, definia a divisão e destinação
de toda a terra a oeste das 13 colônias iniciais. Quando
fossem criados, os novos estados já deparariam uma situação
de fato e de direito lotes estaduais, lotes da União, e até
lotes para manutenção de escolas públicas:
"Marcou época a prescrição
relativa à educação, inspirada por Jefferson, no
Estatuto da Terra, aprovado pelo Congresso da Confederação
em 20 de maio de 1785. Esse Estatuto (...) lançou a fundação
do sistema de terras públicas que continuou por mais de oitenta
anos" [Aptheker].
Sem a Lei de Terras, é impossível
compreender o Estatuto do Noroeste [Northwest
Ordinance (1787)], aprovado dois anos depois, que regulamentava
a ocupação do oeste, as leis desses territórios
e a criação dos futuros estados.
Também ficariam sem sentido o Compromisso do Missouri [Missouri
Compromise (1820)]; o Compromisso de 1850, que precedeu a guerra
civil [Compromise
of 1850]; e a Reconstrução com base em
uma lei decretada pelo Norte, no início da guerra da secessão,
visando enfraquecer a oligarquia separatista [Homestead
Act (1862)].
Por que pagar pela terra do governo?
Huberman resume alguns avanços da legislação
sobre a terra nessa seqüência de leis, em sintonia com o avanço
para o oeste:
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A terra no começo foi oferecida pelo governo
por 2 dólares o acre, em lotes de 640 acres (...). Isso não
deu muito certo porque os pioneiros eram pobres (...).
-
Os fronteiriços protestaram e o governo fez
uma nova oferta. No começo, lotes de 320 acres; depois, de
160, sempre a 2 dólares o acre. Agora, entretanto, o governo
facilitava o pagamento; o pioneiro teria que pagar somente ¼
do preço de sua fazenda para começar (...).
-
Durante todo o começo do século 19 o
preço das terras do governo foi assunto de discussão
no Congresso dos Estados Unidos. Não demorou e o fronteiriço
queria saber por que tinha que pagar qualquer quantia ao governo.
-
Em 1820 o preço foi reduzido a 1 dólar
e ¼ o acre, pagamento a vista (...).
-
(...) Depois de 1860 (...) uma nova lei de terras,
dando 150 acres de terra no oeste, absolutamente de graça,
para qualquer um que se estabelecesse durante 5 anos nela, e a cultivasse.
Não 2 dólares, nem 1 dólar e ¼. De graça.
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Referências
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Leo Huberman, Histσria da riqueza dos EUA
(Nσs, o povo), Brasiliense, Sγo Paulo, 1978
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Herbert Aptheker - Uma nova história
dos Estados Unidos - vol. 2 - A revolução
americana - Ed. Civilização Brasileira S/A, Rio
de Janeiro, 1969
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Richard B. Morris - Documentos básicos
da história dos Estados Unidos - Editora Fundo de
Cultura, Rio de Janeiro, 1964
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William Miller - Nova história dos
Estados Unidos - Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1962
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