O Universal, Ouro Preto, MG, 15 de agosto
de 1825, p. 51-52 [cf. AH1:52,131-134]
Trata-se do transcrição parcial do Programa
para o desenvolvimento do Brasil,
de Hipólito [CB vol. XVI, p. 623-631, ano: 1816]. Diferenças
em negrito / tachado.
O Brasil é agora, sem dúvida, a mais importante
parte [da monarquia portuguesa]do Universo e, ao mesmo tempo, aquela que tem menor população.
Este ponto é demasiado importante para que deixemos de
tornar a falar nele uma vez mais.
Duas cousas desejamos aqui recomendar: uma, a introdução
de emigrados em geral; outra, a edificação de uma
cidade no interior, que venha pelo tempo adiante a servir de capital
do Brasil.
E quanto à primeira: convém lembrar o exemplo de
outros países: para desabusar as pessoas que ainda hesitam
sobre as utilidades do expediente de favorecer a imigração
em um país aonde a população é proporcionalmente
tão diminuta; as ciências e as artes tão atrasadas.
[Abaixo verá o leitor, no artigo dos
Estados Unidos, alguma notícia do rápido aumento
de população, indústria e riqueza, que tem
procurado àquele país o prudente conselho de favorecer,
por todos os modos possíveis, a introdução
de estrangeiros.]
Porém não é somente a prática moderna
dos Estados Unidos que temos a favor desta política; inumeráveis
outros países têm favorecido, adotando a mesma máxima
de introduzir população estrangeira.
O prodigioso melhoramento na agricultura, nas artes, na edificação
das cidades, vilas e lugares; a afluência de povo e, enfim,
a indústria de todo o gênero que se observava nos
Países Baixos foi mui principalmente devida às guerras
civis, calamidades, perseguições, opressões
e descontentamento que foram mui fatais a seus vizinhos.
As perseguições religiosas na Alemanha, em tempo
de Carlos V; em França, sob Henrique II; e em Inglaterra,
no tempo da rainha Maria, forçaram muita gente para fora
destes países, que se foram acolher às Províncias
Unidas; aonde as antigas liberdades do país e os privilégios
das cidades tinham sido invioláveis sob o governo de uma
longa sucessão de príncipes; dando proteção
a estes oprimidos estrangeiros, que encheram as suas cidades de
gente e de comércio; e levantaram Antuérpia ao cúmulo
de elevação e grandeza, em que se conservou até
que as perseguições do Duque d'Alva a arruinaram,
afugentando o povo, que se não tornou a ajuntar ali senão
depois de terem com a força de armas sacudido o tiraníssimo
jugo dos espanhóis.
As guerras civis e as perseguições religiosas em
França, na Alemanha e na Inglaterra não somente
levaram para as Províncias Unidas os que se escapavam da
opressão imediata, mas também muitos homens pacatos
que procuravam ir viver ali quietos e seguros, na posse de seus
bens e no tráfico de seus ofícios; bem como os pássaros
que no princípio do inverno deixam o seu país natal
aonde foram criados, buscando climas mais doces, e não
voltam para suas habitações senão depois
de passadas as tempestades.
Conhecendo estas vantagens, os governos das Províncias
Unidas admitiram como princípio ou máxima de Estado
fazer do seu país o refúgio comum de todos os homens
miseráveis; sem que nenhumas alianças, tratados
ou interesses quaisquer pudessem fazer vacilar esta proteção.
Todo o homem que obedecia às leis do país vivia
descansado e livre; cada um ia pelo seu caminho; tratando dos
seus negócios e não lhe importando com os dos outros;
cada um era juiz de sua consciência; e assim cada um vivia
satisfeito.
É pois necessário notar aqui que estas vantagens
não foram somente efeito da forma de governo republicano
que se estabeleceu na Holanda depois que aquele país foi
separado da Espanha; a máxima de Estado de tolerância
universal e proteção eficaz, de que resultou a acumulação
de tanta gente e de tanta indústria na Holanda, era adotada,
antes daquela época, pelos príncipes que governaram
aqueles países, como foram o conde de Flandres, o príncipe
de Nassau; pois foi nessa época que a sabedoria daqueles
povos se aproveitou da imprudência dos portugueses; dando
abrigo aos perseguidos judeus que o fanatismo tinha expulsado
de Portugal.
Assim, não é desta ou daquela forma de governo
que tais vantagens resultam, mas sim das máximas de Estado
e dos princípios políticos que se adotam para a
administração.
Em alguns reinos se tem buscado atrair os estrangeiros pela magnificência
da Corte; beleza dos edifícios; celebração
de festividades; instituições de feiras, etc. os
jogos olímpicos e outros entre os gregos; os triunfos e
jogos seculares entre os romanos, tanto no tempo da república
como no tempo dos imperadores; tiveram em vista esta atração
de estrangeiros; por diferentes modos, segundo as diversas formas
de governo, mas em todos pela perseverança e firmeza nestas
medidas de proteção, que inspiram a confiança
nos demais povos.
Desta mistura de gente de diferentes opiniões políticas
e religiosas nunca se seguiu mal algum dos que supõem os
oponentes da medida de introduzir população estrangeira.
Figuram alguns que a diferença de opiniões, de linguagem
e de costumes é motivo de rixas e desconcertos no Estado.
Esta suposição nem é fundada na razão,
nem autorizada pela experiência.
Os estrangeiros que se estabelecem em um país aonde acham
proteção, principalmente vindo acossados da perseguição
em sua pátria, devem sentir gratidão ao povo que
os acolhe; a necessidade de viver com a gente do país os
obriga a imitar suas maneiras e costumes; a linguagem da terra
em que vivem é, em breve, a linguagem de seus filhos, e
se estes estrangeiros são de diversas nações
e de diversas seitas, não têm senão um sentimento
comum, que é a gratidão ao país que os tolera;
e portanto praticamente se convencem do grande benefício
da tolerância, e de que o não podem gozar sem que
todos estendam essa tolerância uns aos outros.
Isto que a razão ensina, é o que a prática
tem amplamente provado em todos os países e está
atualmente debaixo dos nossos olhos, nos Estados Unidos. Filadélfia,
por exemplo, contém 28 igrejas ou tempos de várias
comunhões de cristãos; e sinagogas de judeus; nos
dias de festa, cada um vai à igreja de seus pais; e não
há exemplo de que, depois que se admitiu aquela tolerância,
jamais houvesse uma rixa, comoção popular ou distúrbio
por causa das diferenças em opiniões religiosas;
pelo outro lado, tais rixas decerto se excitariam se as leis permitissem
que qualquer seita pudesse perseguir a outra.
[Falaremos agora da idéia de fundar
nova capital no Brasil, sobre o que já demos algumas noções
em números passados deste periódico.
As circunstâncias requisitas para a
capital de um Estado tal como o Brasil se reduzem a ter acomodações
suficientes para a Corte e mais oficiais públicos das diversas
repartições que ali houverem de residir; que seja
um ponto o mais central possível das diferentes províncias;
e que esteja em tal distância das fronteiras ou costas que
o inimigo tenha grande dificuldade em ali chegar.
É claro que o Rio de Janeiro só
possui a primeira daquelas qualidades, em algum grau; porque está
a um canto do Brasil; e porque está na beira-mar, sujeito
a um ataque de qualquer potência que seja superior em forças
marítimas. A Bahia, que é ponto mais central, tem
este inconveniente de ser exposta às forças navais
de um inimigo, ainda em maior grau do que o Rio de Janeiro. Pernambuco
está no mesmo caso.
Na situação, pois, do Brasil,
o remédio mais óbvio para isto é edificar
uma cidade de novo, como já fizeram os Estados Unidos:
empresa que, se é difícil, trará por isso
mesmo mais glória a quem a empreender; e se seus benefícios
são remotos, nem por isso deixam de ser de mui extensas
conseqüências para a nação.
O distrito das Minas é como uma espécie
de reservatório; aonde nascem rios que se dirigem para
todos os pontos da costa do Brasil; e além das campinas
do rio Doce se encontram braços do rio de S. Francisco;
aonde há situações as mais belas para se
edificar a capital do Brasil; porque dali se pode abrir com facilidade
a navegação interior para todos os pontos das costas;
e estradas diretas, para todas as cidades das províncias,
com iguais distâncias de uma extremidade à outra
do Brasil.
Além disto, na capitania do Espírito
Santo se pode formar um dos principais estaleiros e depósitos
de esquadras; cujas disposições podem ser comunicadas
ao governo na capital por uma linha de telégrafos em mui
breve espaço de tempo.
Depois, a capital, remota das praças
de comércio, deixa os comerciantes, em seu tráfico,
separados dos embaraços e luxo da Corte; ao mesmo tempo
que os recursos ao governo são igualmente fáceis
de todos os lados, pelas razões que deixamos apontadas.
Os inconvenientes contra este plano são
o incômodo de ir habitar num deserto; e as despesas que
o Estado deve incorrer na edificação de uma cidade;
e nos edifícios necessários para as diversas repartições
públicas.
O incômodo de habitar um deserto cessa
logo que nesse deserto se faz uma cidade: então já
não é deserto. Tendo cuidado de abrir as estradas
desde a nova cidade até as povoações principais
que lhe ficarem mais próximas, o interesse dos indivíduos
trará desses lugares tudo quanto se precisar na nova capital.
Vamos às despesas. Em qualquer parte
que resida a Corte é preciso que haja um ou mais palácios
para El Rei; edifícios para as repartições
públicas; abarracamento para tropas; etc. O Rio de Janeiro
possui estas acomodações em grau tão pequeno
que, se El Rei ficar permanecendo no Brasil (do que temos mui
pouca dúvida), por força se hão de fazer
estes edifícios; logo, não pode haver grande inconveniente
em fazê-los no lugar em que melhor convém que exista
a capital.
Persuadidos de que haverá minas de
ferro nas margens do rio S. Francisco; e sabendo que ali há
muita madeira e pedra; propomos que no lugar aonde se desejar
fazer a capital se estabeleça uma fundição;
engenhos de serrar madeira; e canteiros a lavrar pedra. Ajunte-se
a isto o postar-se naquele lugar um ou dois regimentos de soldados;
repartam-se os chãos por quem os quiser, com pena de perdimento
deles se não edificarem a casa no arruamento competente
e com as circunstâncias estipuladas; dêem-se, nas
vizinhanças da cidade e pelas bordas das estradas, datas
de terras com pequenas frentes, obrigando a certa cultura; postem-se
os destacamentos dos soldados de distância em distância
ao longo das estradas, em cuja abertura os mesmos soldados se
podem empregar, por meio de faxina ou licenciados para ganhar
como trabalhadores. Seguindo-se este plano com perseverança,
em dez anos o tal deserto se poria em estado de ter os edifícios
necessários para receber a Corte; e esta não pode
residir em um lugar por muito tempo sem criar em torno de si uma
cidade.
Quando nos Estados Unidos se resolveu edificar
a cidade Washington para ser a capital, se seguiu o plano, não
de dar os chãos aos que quisessem neles edificar, mas vendê-los
em almoeda, de tempos a tempos; e com este produto fazer os edifícios
públicos. Não aconselharíamos o mesmo no
Brasil; porque não esperamos que ali haja o mesmo espírito
de especulação que é tão dominante
nos Estados Unidos; mas pode contudo impor-se algum foro aos chãos,
que, sendo tão módico que não grave os habitantes,
sirva pelo tempo adiante de suficiente rendimento para as despesas
dos consertos de calçadas, iluminação das
ruas, etc.
Uma importante vantagem de estabelecer a capital
no interior do Brasil é atrair para ali a população,
principalmente a estrangeira. As costas do mar e beiras dos rios
são, em todos os países, as mais bem povoadas, pelas
facilidades de comunicação que oferecem; ali, portanto,
se não necessita de incitamento; este deve dirigir-se ao
interior com preferência; e a edificação da
capital no lugar que mencionamos produzirá este efeito,
servindo de ponto de reunião por meio de novas estradas
entre as partes mais distantes do Império e facilitando
o acesso por terra até ao Mato Grosso, que apenas tem agora
uma saída, que é a do Pará.
A dificuldade de abrir essas estradas não
deve assustar ninguém; porque, além de outros exemplos,
desde Maranhão até a Bahia se tem aberto uma comunicação
por terra, donde tem já brotado ramificações
para outras partes; e se os povos, por si mesmos, ajudados somente
da indústria de alguns índios e negros, tem descoberto
aquelas vias de comunicação, quanto mais fácil
não seria isso auxiliado pelo governo, as estradas determinadas
por engenheiros, e seguindo os rumos mais curtos; barcos de passagem
estabelecidos nos rios que se houvessem de cruzar; piquetes de
tropas postados aonde a segurança dos viajantes o exigisse,
e correios estabelecidos para facilitar a comunicação
e correspondência de uns lugares a outros.
As despesas que o Estado fizer com esta concorrência
de população para o interior e com a facilidade
dos meios de comunicação será repaga em quádrupla
vantagem.
A única cautela que deve haver consiste
em não tomar o governo sobre si, senão a direção
geral, evitando monopólios de toda e qualquer sorte e cuidando
em que a administração da Fazenda Real seja exposta
aos olhos de todos, a fim de que todos possam notar os pontos
em que pode haver abusos; porque sem esta circunstância
nunca eles chegam a ser conhecidos. Com estas cautelas, o plano
que sugerimos nem pode ser de despesas além das forças
do governo do Brasil, nem as despesas demasiadas, comparadas com
os benefícios que dali devem resultar.
Mas segundo a forma atual da administração
da Fazenda Real, não podem nunca os rendimentos luzir,
nem ainda chegar para as despesas ordinárias. (...)]
Convem pois, que o Brasil imite paizes tão illustrados,
e que tem a seu favor longa, e feliz experiencia. Não quer
isto dizer, que se deve pagar aos Estrangeiros para virem habitar
entre nos; basta admiti-los, e assegura-los, que acharão
entre nós a protecção das Leis, e dar-lhes
algum terreno devoluto, aonde o houver, e não haja pretendentes
Nacionaes, que em todo o caso devem preferir. Já no citado
Nº escrevi que de todos os Estrangeiros erão os Inglezes
os melhores.