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A República Velha e a mudança da capital
Média: café-com-leite

Flávio R. Cavalcanti

A consolidação da oligarquia cafeeira no controle da velha República — conhecida como "política do café-com-leite", revezando presidentes paulistas e mineiros "eleitos" no papel ("voto de pena") — relegou ao esquecimento a decisão de mudança da capital do país para o planalto central, incluída na Constituição de 1891.

O terceiro presidente civil, Rodrigues Alves, definiu como prioridade de seu governo o saneamento e reurbanização do Rio de Janeiro, no estilo da reforma parisiense do Barão Haussmann. Para a oligarquia, uma capital nada tinha a discutir ou decidir; as decisões vinham dos Estados — especificamente, de São Paulo e, com menos freqüência, de Minas Gerais. A capital era uma vitrine, e a belle époque, o modelo a exibir.

O desdém de Rodrigues Alves para com os "centralistas" sugere um paralelo interessante do tema da capital federal com as tendências políticas que começariam a se manifestar, de forma crescente, duas décadas mais tarde:

  

"A realização da velha e archaica chapa:
A Pátria entra firme na via do progresso".
Novo Scenario
Caricatura de Gil (Carlos Lenoir)
A Avenida, 12-3-1904
(Reproduzida por Nelson Bravo)
[Lima Barreto e o fim do sonho republicano,
Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo,
Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1995]

Em que pese os centralistas, o verdadeiro público que forma a opinião e imprime direção ao sentimento nacional é o que está nos Estados. É de lá que se governa a República por cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da Capital da União.

Opinião que — considerando o potencial de uma nova capital, no interior, para perturbar o status quo — pouco difere da visão de oligarcas aparentemente excluídos do café-com-leite, na avaliação de Neil Macaulay:

Na virada do século, o Estado de Goiás era o feudo do senador Leopoldo Bulhões (...). Julgou melhor que Goiás e o agrupamento de fazendeiros despóticos que forneciam os votos necessários (...) fossem deixados sozinhos. (...) Opôs-se ao avanço de rodovias para o interior de Goiás porque "aventureiros poderiam começar a entrar e, então, haveria oposição" à sua máquina política [Neill Macaulay].

Não que nas cidades — mesmo no Rio de Janeiro — a República Velha fosse muito mais democrática. Uma vez que cabia aos políticos da situação escolher os mesários e decidir quais candidatos teriam sua eleição reconhecida ou rejeitada, poucos eleitores se dispunham a enfrentar a violência organizada nos postos de votação.


Lauro: — Você já reparou, Frontin, temos o Passos ao nosso lado e os passos das moças na retaguarda...
Frontin: — Tudo isso porque demos um passo à frente com esta Avenida...
Passos: — Um passo?! Um passão, digo eu! E quando for inaugurada a Avenida Beira-mar!... Isso então é que vai ser uma senhora passada de sete léguas...
R. Alves: — ... De espantar peixinhos e... peixes grandes... Decididamente, desliza tudo num mar de rosas, na praia do progresso. Tomamos um banho de glória, pela certa.
Flanando pela Avenida
Caricatura de J. Carlos (José Carlos de Brito e Cunha)
O Malho, 2-12-1905
(Reproduzida por Nelson Bravo)
[Lima Barreto e o fim do sonho republicano,
Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo,
Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1995]
  

A modernização do Rio de Janeiro, tocada de modo autoritário, assumiu o aspecto de expulsão da pobreza para longe da área saneada, e desembocou na Revolta da Vacina, em 1904.

A proposta de interiorizar a capital ressurgiu quase ao mesmo tempo do movimento modernista e as revoltas que levariam à Revolução de 30. Ao meio-dia de 7 de setembro de 1922, centenário da Independência, foi lançada a pedra fundamental da futura capital da República — em área próxima ao atual Colégio Agrícola, em Planaltina.

Nada significou, na prática. Mas a iniciativa — do Congresso — exigiu, do presidente Epitácio Pessoa, subscrever decreto lembrando que a capital federal seria "oportunamente" estabelecida no Planalto Central, onde já se encontrava demarcada área de 14.400 km²; e comprometendo-se a comunicar ao Legislativo, dentro de um ano, o resultado de estudos para estender uma ferrovia até o retângulo Cruls e os planos para a construção da nova cidade.

   

  
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