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1835 - Planos Ferroviários
Decreto Feijó
ou Plano Vasconcelos, Veloso & Rocha

Quase sempre atribuído ao regente Feijó — como lei, decreto, e até como plano viário — o primeiro projeto de ligação ferroviária da Côrte às províncias foi proposto, de fato, por seu adversário político Bernardo Pereira de Vasconcelos, deputado pela província de Minas Gerais, em conjunto com Manuel Paranhos da Silva Veloso, deputado pelo Rio Grande do Sul, e José Florindo de Figueiredo Rocha, deputado pela Bahia.

Vasconcelos, Veloso e Rocha

"apresentaram à Câmara, na sessão de 3 de outubro de 1835, um projeto autorizando o governo a conceder privilégio para a construção de uma estrada de ferro ligando a capital do Império às das províncias que representavam 1[Anais do Parlamento Brasileiro, Câmara dos Deputados, Segundo ano da Terceira Legislatura, Sessão de 1835, Tomo II, Tipografia da Viúva Pinto & Filho, R. do Ouvidor nº 31, 1887, pág. 351]. | Sem despertar interesse e merecer discussão, o projeto transitou, rapidamente, nas sessões de 10 e 13, sendo aprovado na de 15 e assinada a lei pelo regente Feijó, no último dia do mês" [Brito].

Era, com efeito, o esboço de um plano viário de âmbito nacional — e permaneceu presente, por mais de 120 anos, no projeto de longo prazo da EF de D. Pedro II / EF Central do Brasil (embora parcialmente desmembrado na Cia. EF de São Paulo ao Rio Grande do Sul e na Viação Férrea Federal do Leste Brasileiro).

« Decreto nº 100, de 31 de Outubro de 1835
["100, e não 101, é o número do decreto, como se vê: (a) Original do decreto guardado no Arquivo Nacional; (b) Coleção das Leis do império do Brasil, desde a sua Independência, 1835. Vol. VI, Parte XIV, Ouro Preto. Tipografia de Silva, 1836, págs. 412 e 413; (c) Coleção das Leis e Decretos do Império do Brasil. Desde a Feliz Época de sua Independência, Sessão de 1835. Décimo Volume, Rio de Jqaneiro. Tipografia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve e Comp., R. do Ouvidor nº 65, 1836, pág. 287; (d) Índice cronológico, explicativo e remissivo da legislação brasileira desde 1822 até 1848 pelo bacharel Antônio Manoel Fernandes Júnior, Rio de Janeiro, Tipografia do Diário de N. L. Viana, 1850, pág. 10; (e) A primeira vez que vem com o número 101 é na Coleção das leis do Império da Tipografia Nacional do Rio de Janeiro, edição de 1864, pág. 118. Daí em diante todas as publicações lhe dão este número" (Brito)]

O Regente em nome do Imperador Senhor D. Pedro II há por bem sancionar e mandar que se execute a resolução seguinte da Assembléia Legislativa:

Artigo 1º - O Governo fica autorizado a conceder a uma ou mais companhias, que fizerem uma estrada de ferro da capital do Rio de Janeiro para as de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia, carta de privilégio exclusivo por espaço de quarenta anos, para uso de carros de transporte de gêneros e passageiros.

Artigo 2º - Nos lugares em que a estrada cortar as estradas existentes, ou sobre elas for construída, fica a empresa obrigada a construir outras em tudo iguais às que existiam.

Artigo 3º - O Governo poderá conceder a estas companhias os privilégios concedidos à do Rio Doce, nos artigos 5º, 6º, 8º, 9º e 13º do decreto de 17 de setembro do corrente ano, em tudo quanto for aplicável.

Artigo 4º - As companhias deverão preencher as seguintes obrigações:

(...)

§ 2º - Dirigir a estrada pelas cidades e vilas que o Governo designar, podendo em tudo o mais dar-lhe a direção que melhor lhe parecer.

§ 3º - Começar a estrada no prazo de dois anos, a contar do dia em que concluírem o contrato com o Governo e a fazer cada ano, pelo menos cinco léguas de estrada.

(...) »

A exposição dos aspectos econômicos, políticos, administrativos e estratégicos talvez só possa ser inferida a partir de propostas que, posteriormente, retomaram esse projeto, como o Plano Rebelo, ou documentos relativos à EF de D. Pedro II / EF Central do Brasil:

« Alguns historiadores atribuem à lei o intento de dar ao governo um meio fácil de enviar tropas ao Rio Grande do Sul, a fim de debelar a revolução Farroupilha, que pouco antes estalara e estava em plena efervescência. Seria mal julgar os homens daquela época, irrogar-lhes a ingenuidade de pensar que dois mil e tantos quilômetros de estrada de ferro se construíam de um dia para outro. (...) É de presumir que os autores do projeto tivessem em mira unir, com ligações fáceis e rápidas, as várias regiões do Império à sua capital. No entanto não se encontram nos Anais da Assembléia legislativa nenhuma exposição de motivos, nem quaisquer considerações sobre a utilidade e o benefício que o caminho de ferro traria ao desenvolvimento do país. » [Brito]

  

Papagaio come milho,
periquito leva fama

O assim chamado Decreto Feijó abre a história das ferrovias, de seu planejamento — pela abrangência, inclusive prevendo múltiplas empresas, — e de seus mitos.

Além da numeração — aparentemente em todos os livros desde 1864 — carrega o nome do autor errado. Segundo Brito, colocar sua assinatura é tudo quanto Feijó teria feito nessa área. Seu emissário a Londres desincumbiu-se bem das demais missões (assim como em dois grandes empréstimos anteriores), mas não quanto às ferrovias.

Bernardo Pereira de Vasconcelos, pelo contrário, ficou conhecido como inimigo das estradas de ferro — por opôr-se a que o Estado adquirisse 2.000 ações da empresa que Thomas Cochrane não conseguia levar adiante, nos anos 1840. Opunha-se, em suas palavras, ao uso de dinheiro público para financiar um aventureiro:

« Quando precisamos de espírito de associação é que vamos, precipitadamente, animar o espírito de especulação, o espírito aventureiro (...). » [cf. Brito]

Cristinano B. Ottoni, em sua Autobiografia [Rio de Janeiro, Tipografia Leuzinger, 1908], parece ter sido um dos primeiros a pintar Vasconcelos como inimigo das ferrovias:

« Esta descrença era geral entre os nossos estadistas. Vasconcelos que ainda vivia em 1849, quando se falava do projeto, dizia zombando: — "Construam, os trens carregarão no primeiro dia do mês tudo que há no interior para transportar e ficarão ociosos vinte e nove dias". » [Ottoni]

No entanto, o próprio Ottoni afirma que Cochrane não era para ser levado a sério:

« [antes de 1852] não houve projecto serio: ninguem tal considerou um privilegio dado annos antes ao dr. Cochrane e que só não foi letra morta para se lhe pagar mais tarde uma valiosa indemnisação. » [Ottoni]

A virada política radical de Bernardo Pereira de Vasconcelos, certamente, não contribui para simplifcar a compreensão dos fatos. Após deixar a direção da EF D. Pedro II, Ottoni criticará a escolha de um rumo estéril para seu prolongamento — tal como Rebouças irá criticar o monopólio da terra, que esterilizava a ferrovia. Na juventude, o próprio Bernardo Pereira de Vasconcelos havia defendido a divisão da terra, a colonização, a proteção das leis, e a abertura de vias de comunicação, como medidas integradas de desenvolvimento — e é de se supor que, em sua fase regressista, não ignorasse o ônus que o monopólio da terra contraporia ao investimento em ferrovias.

Referências

  • Brasil. Conselho Nacional de Transportes. Planos de Viação. Evolução histórica (1808-1973). Rio de Janeiro, 1973.
  • Vianna, Hélio. História da República. Transportes na República - Ferrovias, rodovias e aviação. in Queiroz, Dinah Silveira de. Livro dos Transportes. Ministério dos Transportes, 2ª ed., Rio de Janeiro, 1970.
  • Brasil. Geipot. Empresa Brasileira de Planejamento dos Transportes. Transportes no Brasil: história e reflexões. Brasília, Geipot / Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2001.
  • Telles, Pedro da Silva. História da engenharia no Brasil, vol. I (séculos XVI a XIX). Livros Técnicos e Científicos Editora, 1984.
  • Nascimento Brito, José de. Meio século de estradas de ferro. Rio de Janeiro, 1961.
  • Ferreira Neto, Francisco - 150 anos de transportes no Brasil. Ministério dos Transportes, 1974.
  • Centro Industrial do Brasil. O Brasil - Suas riquezas naturaes - Suas industrias. Tomo III: Industria de Transportes - Industria Fabril. Rio de Janeiro, 1909. Reedição fac-similar: "Séries Estatísticas Retrospectivas", Volume 2 - IBGE, 1986.
Planos ferroviários
1835: Plano Vasconcelos | 1838: Plano Rebelo | 1869: Plano Morais | 1871: Carta itinerária
1874: Plano Ramos de Queiroz | 1874: Plano Rebouças | 1881: Plano Bicalho | 1882: Plano Bulhões
1882: Plano Ramos de Queiroz (II) | 1886: Plano Rodrigo Silva | 1890: Plano da Commissão | 1912: Plano da Borracha
1926: Plano Baptista | 1926: Plano Pandiá Calógeras | 1927: Plano Paulo de Frontin | 1932: Plano Souza Brandão
1934: Plano Geral de Viação Nacional | 1951: Plano Nacional de Viação | 1955: Comissão Pessoa
1956: Plano Ferroviário Nacional | 1964: Plano Nacional de Viação (Sul e Sudeste) (DF)
1973: Plano Nacional de Viação (Sul e Sudeste) | PNLT | PAC (Mar. 2009) | As ferrovias construídas (Dez. 2004)
Obs.: Os mapas dos planos viários são, em geral, recentes, e muito provavelmente incompletos e/ou inexatos.
Ainda sem exame dos textos e/ou mapas originais (11-Jul-2005 ). Lembrar que o Acre só foi incorporado no século XX;
Belo Horizonte só foi construída no início da República; e Goiânia, no primeiro período Vargas.
Evolução da rede de estradas de ferro no Brasil
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