Balanço de fim de jornada
Juarez Távora Ministro da Viação
e Obras Públicas: 15-4-1964 a 15-3-1967
[Juarez Távora. "Missão
cumprida"
(Relatório das atividades no extinto MVOP, no
triênio Abril de 1964 Março de 1967).
Rio, Gráfica do DNEF, janeiro de 1970, cf. Dinah Silveira de Queiroz
(org.).
Livro dos Transportes. Ministério dos Transportes, 1970]
Uma semana antes de consumar-se a extinção do Ministério
da Viação e Obras Públicas, e transmitir, nos termos
da Reforma Administrativa, baixada pelo Decreto-Lei nº 200, de 25-2-67
aos titulares de três novas Pastas a dos Transportes; a das Comunicações,
e a do Interior respectivamente os setores de Transporte (Hidroviário,
Ferroviário e Rodoviário); de Comunicações
(Correios e Telégrafos); e de Valorização Regional
(Obras de Saneamento e Obras contra as Secas), que integravam a alçada
administrativa do Ministério a ser extinto foram convocados representantes
da imprensa para, numa última entrevista, sumariar-lhes os esforços
para cumprir a missão recebida, três anos antes, do Governo
Revolucionário, e com que esperava ter chegado ao fim de minha
longa jornada de servidor público.
Foi feita, inicialmente, uma afirmação global de que
embora nem todos objetivos prefixados tivessem sido atingidos puderam,
contudo, ser recuperados, melhorados e ampliados os serviços, emtodos
os setores jurisdicionados pelo MVOP.
Foram em seguida, sintetizados, em ligeiros "flashs", alguns
aspectos mais dramáticos das realidades encontradas; dos esforços
feitos para enfrentá-las; e das pequenas vitórias conseguidas,
apesar dos sempre minguados meios disponíveis.
Não vamos repeti-los, aqui, porque se encontram relatados em capítulos
anteriores deste livro. Quero frisar, entretanto, que manifestei, então,
minha firme intenção de deixar concluído o assentamento
de trilhos ao longo de toda a "Ligação" ferroviária
Pires do Rio Brasília em cujo Núcleo Bandeirante pretendia
entrar, apitando numa locomotiva do Batalhão Mauá, antes
de 15 de março.
A promessa foi cumprida, à última hora, na tarde de 14
de março de 1967. Houve, entretanto, quem duvidasse que a Ligação
estivesse realmente feita já que a pequena locomotiva em que
cheguei, naquela tarde, à Estação Bernardo Sayão,
fôra conduzida, com um dia de antecedência, até cerca
de 20 km daquela estação, somente, tendo eu percorrido nela
esse pequeno trecho da Ligação.
Esqueceu-se, entretanto, o crítico suspicaz de que, acompanhando
essa locomotiva, entraram no Núcleo Bandeirante vários automóveis
de linha, que haviam partido de Pires do Rio, ponto inicial da Ligação,
na madrugada desse mesmo dia, conduzindo, além de representantes
dos ministérios da Guerra e da Viação, jornalistas
do Rio, de S. Paulo, de Belo Horizonte e de Brasília.
Não se tratava, conforme expliquei na ocasião, da inauguração
da linha; mas simplesmente da chegada da ponta dos trilhos a Brasília,
como afirmação de que a ligação da capital
federal, por via férrea, ao Centro-Sul do país, podia considerar-se
um fato irreversível.
Já na tarde de 14 de março de 1967, após assistir
a última reunião do ministério, convocada pelo presidente
Castello Branco, para despedir-se de seus ministros, enderecei-lhe a seguinte
carta, formalizando o meu pedido de exoneração do cargo
de ministro da Viação e Obras Públicas:
Brasília, 14 de março de 1967
Meu caro Presidente,
Julgo concluída, com a última inspeção
feita, esta manhã, à Ligação Ferroviária
Pires do Rio Brasília, cujos trilhos já alcançam
o Núcleo Bandeirante, nesta capital federal (e onde espero entrar,
ainda nesta tarde, numa locomotiva do Batalhão "Mauá")
a missão de que fui por V. Excia. investido, à frente do
MVOP, desde 15 de abril de 1964.
Não devo nem quero ser juiz de "se cumpri
e como cumpri" conforme impunham as circunstâncias e desejava
V. Excia., a missão recebida.
Diz-me, contudo, a consciência, que fiz quanto
pude para bem desobrigar-me dos deveres funcionais que me cabiam, zelando,
fielmente, pela defesa do bem comum, e tentando conciliar com ele, os
interesses particulares, sem quaisquer discriminações.
Agradecendo-lhe, aqui, a confiança em mim depositada
e o apoio com que sempre prestigiou as minhas decisões mais graves,
venho formalizar o pedido de exoneração do cargo de Ministro
da Viação e Obras Públicas com que V. Excia. me honrou
no concerto de sua fecunda administração.
Muito cordialmente, subscrevo-me seu velho camarada,
amigo e admirador,
Juarez Távora
E, antes de encerrar meu último expediente no gabinete de Brasília,
expedi, nesta mesma tarde de 14 de março, os Avisos B-46, ao diretor-geral
do DNEF, e B-47, ao ministro da Guerra, agradecendo-lhes, à margem
da chegada dos trilhos da Ligação Ferroviária Pires
do Rio Brasília, ao Núcleo Bandeirante da capital federal,
os extraordinários esforços realizados, para isso, respectivamente
por aquele departamento do MVOP, e pela Diretoria de Vias de Transportes
do Exército (Apêndices 8 e 9).
Chegara, assim, ao fim desses três anos de continuados esforços
e contrariedades, física e mentalmente esgotado. Mas podia, graças
a Deus, dar por encerrada, aí, com a consciência tranquila,
minha longa e acidentada caminhada pela vida pública.
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