Cia. Mogiana e o Plano de Metas de JK
Retificação da linha tronco
Embora elaborado no âmbito da CMBEU,
início do segundo governo Vargas, o projeto de reaparelhamento
da Mogiana não chegou a ser aprovado naquele momento:
A CMBEU marcou o início do planejamento
detalhado de ações por parte do governo para implantar
projetos de superação dos limites que as deficiências
da infra-estrutura econômica impunham. Dos 41 projetos elaborados
pela Comissão Mista, 24 tinham relação com
o sistema ferroviário. Destes, os aprovados pela Comissão
até 31 de dezembro de 1952 foram os seguintes:
– Projeto nº 1 – Estrada de Ferro Jundiaí,
para substituição de freios e engates e compra de
1.100 vagões;
– Projeto nº 2 – Cia. Paulista de Estradas de Ferro,
para substituição de freios e engates e compra de
605 vagões;
– Projeto nº 3 – Estrada de Ferro Central do Brasil,
para remodelação da via permanente, novas variantes,
oficinas
de equipamento diesel e compra de 2.265 vagões;
– Projeto nº 4 – Rede de Viação Paraná–Santa
Catarina, para remodelação da via permanente e de
pontes,
aquisição
de equipamento para pedreiras e compra de 1.200 vagões e
locomotivas a diesel;
– Projeto nº 20 – Rede Mineira de Viação, para
remodelação da via permanente e aquisição
de vagões e locomotivas;
– Projeto nº 21 – Estrada de Ferro Noroeste, para remodelação
da via permanente e aquisição de vagões e locomotivas;
e
– Projeto nº 23 – Estrada de Ferro Central do Brasil, para
serviço suburbano.
O Plano de Metas, detalhando as prioridades de
investimento do governo no período 1956-60, previa para o
setor a aquisição de locomotivas, vagões, carros
de passageiros e equipamentos de sinalização e a substituição
de trilhos e outras obras, a um custo de R$ 1 bilhão. Em
1958, as metas iniciais foram ampliadas, elevando os investimentos
necessários para R$ 3,7 bilhões. Desse total, R$ 1,5
bilhão correspondia a recursos oriundos do BNDES. [Lacerda.
O transporte ferroviário
de cargas. BNDES]
Por outro lado, a dificuldade de entendimento em torno do projeto
da Mogiana fez com que as obras — e o financiamento — tivessem início,
logo nos primeiros dias do governo JK, sem uma definição
oficial do quê, exatamente, iria ocorrer. É
de se supor, apenas, que as obras (e aquisições) colocadas
em andamento de 1956 a 1957 representassem os pontos de consenso.
Os trechos "modificados"
O primeiro trecho a receber "modificação
de traçado" situava-se na área de Casa Branca,
entre Cocais [após Lagoa Branca,
km 150+] e Tambaú [km
206]. Segundo o Relatório ref. 1959, a obra começou
ainda em 1956 e três anos depois a nova via já estava
"em serviço" [o
que não significa, necessariamente, "concluída"].
Pela extensão final declarada [18
km], mesmo supondo notável redução
de trajeto, dificilmente poderia corresponder a todo o trecho,
originalmente de 50 km:
Iniciou a modificação de seu traçado,
no trecho Cocais - Tambaú, com 18 quilômetros
de extensão, onde havia rampas de mais de 2½% e curvas
com raio de 100 metros, passando agora a rampa máxima de
½% e curva mínima de 500 metros. Este trecho já
está em serviço. [Trechos
do Relatório da Mogiana ref. 1959, cf. Estradas de Ferro
do Brasil, Revista Ferroviária, 1960]
Mais provável é que essa "modificação
de traçado" já "concluída"
em 1959, e com 18 km de extensão, correspondesse apenas ao
sub-trecho final — indicado no mesmo suplemento anual da Revista
Ferroviária — de Coronel Correia [km
184,5] a Tambaú [km
206], cuja extensão original seria de 21,5 km:
|
|
|
1) Variante Cel. Corrêa - Tambaú
— 18 km em 0,5% de rampa máxima e 573 m de raio mínimo.
Concluída. [Companhia
Mogiana de Estradas de Ferro. Estradas de Ferro do Brasil, Revista
Ferroviária, 1960]
Em outubro do mesmo ano, porém, a Revista Ferroviária deu
como concluído o sub-trecho inicial — ao passo que devolvia o sub-trecho
final ao rol das obras ainda por terminar — e mais adiante dava ambos
por "ultimados". A julgar pelos números disponíveis,
o sub-trecho de 27,5 km teria dado lugar a uma variante de 30,5 km:
Realizou a Companhia vários estudos e obras de
revisão de traçado, sendo que o trecho entre Lagoa Branca,
no Km 155 *[seria a posição
de Cocais], e o Km 182,5 [27,5
km], foi completado. Entre Coronel Correa e Tambaú
estão sendo terminados 17,5 outros quilômetros. (...) Construção,
já ultimada, da variante da Lagoa Branca a Tambaú,
na extensão de 48 quilômetros, com rampa máxima de
0,5% e raio mínimo de 573 metros. [A
Companhia Mogiana de Estradas de Ferro está efetuando um grande
plano para modernizar os seus serviços. Revista Ferroviária,
Out. 1960]
Segundo Cury, a retificação desses 2 sub-trechos
teria sido feita bem antes — o que deixa em dúvida se os trabalhos
já não estavam, no mínimo, bem adiantados, ao iniciar-se
(por antecipação) o projeto aprovado (depois)
pelo BNDE:
Lagoa Branca - Tambaú - 1951. [Cury.
Trechos]
Na fronteira entre a engenharia, a burocracia e a política, não
são incomuns inexatidões. Segundo Virgilio Corrêa
Filho, não apenas aqueles 2 sub-trechos já teriam sido retificados
— antes de 1954 —, mas, sim, toda a linha de Campinas até Ribeirão
Preto:
(...) a Mojiana, ao melhorar o traçado de Campinas
a Ribeirão Prêto, reduziu as taxas de 2,6 a 0,5%, eliminando
curvas de 101, ampliadas para 573 metros [Virgilio
Corrêa Filho, Evolução ferroviária do Brasil,
in I Centenário das ferrovias brasileiras, IBGE / CNG, 1954].
Parece bastante provável que as obras desse trecho tenham começado
(e avançado bastante) no âmbito de um projeto anterior —
elaborado entre 1940 e 1944, e cuja 1ª fase seria implementada de
1945 a 1952 — com base em um empréstimo de Cr$ 120 milhões
do Banco do Brasil (1940), para nacionalizar a dívida externa
da Mogiana e reduzir os juros; um conseqüente aumento de capital;
e recursos adicionais estimados em Cr$ 270 milhões, a serem fornecidos
« pelos fundos de “Renovação” e de “Melhoramentos”
criados pelo governo federal em todas as nossas estradas com a arrecadação
de taxas de 10% sobre as tarifas em vigor ». Previa-se
iniciar as obras Guanabara-Rizza (então já estudado) e concluir
Jaguari-Guedes, da variante de Campinas a Guedes, iniciada em época
anterior. Simultaneamente, « foi iniciada a revisão
do trecho de Casa Branca a Ribeirão Preto ». [Companhia
Mogiana de Estradas de Ferro. Estradas de Ferro do Brasil, Revista
Ferroviária, 1945]
O segundo trecho atacado, com obras iniciadas
em 1959 e conclusão prevista para 1960, ia de Bento Quirino
[km 259] a Ribeirão Preto
[km 312,5], somando na época
53,5 km. Na mesma edição (suplemento) da Revista Ferroviária,
há números conflitantes quanto à redução
prevista para esse trecho:
Em 1959 foi iniciada a construção da variante
Bento Quirino a Ribeirão Preto, com 46 quilômetros.
Suas obras deverão estar concluídas em 1960. Este novo traçado
terá as mesmas características ora observadas na Mogiana,
ou seja, rampa máxima de ½% e curvas mínimas de 500
metros. [Trechos
do Relatório da Mogiana ref. 1959, cf. Estradas de Ferro do
Brasil, Revista Ferroviária, 1960]
Variante Bento Quirino - Ribeirão Preto
— 49 km em 0,5% de rampa máxima e 625 m de raio mínimo.
[também] substituindo trechos
com 2,2% de rampa e raio mínimo de 100 m. [Companhia
Mogiana de Estradas de Ferro. Estradas de Ferro do Brasil, Revista
Ferroviária, 1960]
Em Out. 1960, a extensão da variante havia aumentado mais um pouco
— sinal, talvez, de projeto de engenharia sendo finalizado a todo
vapor, já com as obras em pleno andamento:
5) Construção, em andamento, da variante
de Bento Quirino a Ribeirão Preto, na extensão de
50 quilômetros de rampa máxima de 0,6% e raio mínimo
de 625 metros. [A
Companhia Mogiana de Estradas de Ferro está efetuando um grande
plano para modernizar os seus serviços. Revista Ferroviária,
Out. 1960]
Segundo Cury, a retificação desse trecho ainda teve
mais quatro anos pela frente, atravessando os governos Quadros e Goulart:
Bento Quirino - Entroncamento - 1964. [Cury.
Trechos]
Uberlândia - Araguari
Um terceiro trecho — não citado por Dias
no projeto aprovado pelo BNDE — estava em fase final de cálculo,
para início de obra ainda em 1960. Situava-se na extremidade do
tronco:
Dentro do programa de novos traçados, estão
sendo ultimados os estudos definitivos para a construção
da variante Uberlândia - Araguari [45
km], no Estado de Minas Gerais. O início das obras dessa
variante, cuja extensão é de 63 quilômetros, é
esperado para muito breve, pois os cálculos estão praticamente
no seu término. [Trechos
do Relatório da Mogiana ref. 1959, cf. Estradas de Ferro do
Brasil, Revista Ferroviária, 1960]
N° de
ordem |
Nomes |
Nome
anterior |
Distância do
ponto inicial
(metros) |
Altitude
(metros) |
Data da
inauguração |
| 90 |
Ômega |
|
728.155 |
929 |
2-1-1945 |
| 91 |
Uberlândia (1) |
1.481 |
738.599 |
854 |
1940 |
| 92 |
Jiló (PT) |
|
747.445 |
888 |
30-3-1930 |
| 93 |
Sobradinho |
|
755.044 |
686 |
15-11-1896 |
| 94 |
Preá (PT) |
|
760.555 |
556 |
1-7-1940 |
| 95 |
Stevenson |
|
768.650 |
735 |
10-2-1927 |
| 96 |
Angá (PT) |
|
774.433 |
878 |
1-7-1948 |
| 97 |
Araguari
(v. EFG-1) (1) |
|
783.428 |
989 |
15-11-1896 |
| Fonte: Guia Geral,
1960 | Tronco Mogiana |
Linha Igarapava |
Em Out. 1960, a Revista Ferroviária voltou a citar esse terceiro
trecho, com mais detalhes. Porém, dados contraditórios deixavam
vagos os contornos da futura variante — onde começaria,
onde terminaria, e se iria alongar ou encurtar o trajeto original:
(...) no trecho entre os Kms 747 e 775 *[Jiló
a Angá: 28 km], onde se encontram rampas de mais de 3%,
com o máximo de 4,2%, e curvas de 100 metros de raio ou menos.
É nessa região que a linha desce nos dois sentidos para
atravessar o rio das Velhas [rio Araguari].
(...) Construção, em estudo, da variante de Ômega
a Araguari [55 km], na extensão
de 60 quilômetros, com rampa máxima de 1,5% e raio mínimo
de 382 metros. [A
Companhia Mogiana de Estradas de Ferro está efetuando um grande
plano para modernizar os seus serviços. Revista Ferroviária,
Out. 1960]
|
Tudo é possível — que não houvesse estudos anteriores;
e/ou que (até por isso mesmo) não houvesse consenso com
o BNDE sobre essa variante; e/ou que se tivesse decidido por um meio termo
flexível quanto a essa parte do programa. [ou
Dias não incluiu no resumo, muito simplesmente...]
O que aparece, sempre, é a aquisição e montagem
de uma nova ponte sobre o rio Araguari, outrora conhecido como "das
Velhas":
O programa compreendia (...) a construção
de uma ponte metálica sobre o rio Araguari (...). [Dias.
O BNDES e o Plano de Metas. Rio
de Janeiro, BNDES, Jun. 1996]
Ponte sobre o rio Araguari (ou das Velhas) no km 677,390
da Linha Tronco, com 2 vãos de 21 m em alma cheia e 1 vão
de 42 m em treliça, de aço de alta resistência, para
suportar o trem-tipo TB.27 [Companhia
Mogiana de Estradas de Ferro. Estradas de Ferro do Brasil, Revista
Ferroviária, 1960]
No decorrer de 1956, pôde a Mogiana obter um empréstimo
do Banco de Desenvolvimento Econômico e com ele iniciou, praticamente,
a sua recuperação, adquirindo na Alemanha uma ponte grande,
metálica, de 84 metros de vão, que foi montada sobre o rio
Araguari (antigo rio das Velhas), substituindo a antiga, que já
não oferecia nem mesmo condições para reforço.
[Trechos
do Relatório da Mogiana ref. 1959, cf. Estradas de Ferro do
Brasil, Revista Ferroviária, 1960]
Segundo Cury, a retificação desse trecho atravessou os
governos Quadros, Goulart, Castelo Branco, Costa e Silva, sendo concluído
já no governo Medici, quando afinal se decidiu consolidar, em definitivo,
a mudança da capital — transferência
de órgãos, regularização de transportes
e do abastecimento, construção
da esplanada ferroviária,
estação de passageiros,
etc.:
Ômega - Araguari - 1971. [Cury.
Trechos]
De todo o tronco da Mogiana, portanto — agora pelo caminho mais
direto e curto, 717 km —, o projeto aprovado previa a "remodelação"
de 276 km:
- Mato Seco - Urupês (237,5 km)
- Delta [MG]
- Uberaba (40 km)
Desses 276 km, foram priorizados os 3 trechos descritos acima, totalizando
cerca de 133 ~ 168 km. Ao aproximar-se o final do governo JK — e com a
capital já transferida para o planalto central —, os trabalhos
de remodelação encontravam-se na seguinte situação:
- Cocais [km 155]
a Tambaú [km 206], originalmente
51 km: — Pronta, ou quase
- Bento Quirino [km
259] a Ribeirão Preto [km
312,5], originalmente 53,5 km: — Obra iniciada, projeto em finalização
- Variante de 28 ~ 63 km no vale do rio Araguari: —
Estudo em andamento, intenção de iniciar obra
Ao contrário das 2 frentes tocadas simultaneamente
por uma empresa sem infraestrutura nem experiência no ramo — como
a Novacap, no sertão de Minas
Gerais e Goiás —, aqui tratava-se da abertura de variantes por
uma empresa ferroviária com tradição, pessoal experiente,
equipamentos adequados, apoio de uma via consolidada nas duas pontas de
cada trecho, material rodante, oficinas e almoxarifados distribuídos
ao longo da linha, escritórios em São Paulo e Campinas,
agentes por toda parte, e construindo sobre terreno conhecido, em regiões
de razoável desenvolvimento econômico e densidade populacional.
O período Medici concluiu a retificação mais
um trecho, que não havia sido atacado no período JK:
Tambaú - Bento Quirino - 1971 [Cury.
Trechos]
Outros 2 trechos — que também não haviam sido iniciados
no período JK — foram concluídos no período Geisel,
entre o 1º (1973) e o 2º (1980) "choque do petróleo":
Guedes - Mato Seco - 1979
Entroncamento - Amoroso Costa - 1979 [Cury.
Trechos]
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