Prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil
Precursor da
Estrada de Ferro de D. Pedro II
Antes de existir como empreendimento, a EF D. Pedro II / EF Central
do Brasil foi proposta como espinha dorsal de um projeto de rede
de comunicações internas, unindo a Côrte
às províncias do oeste, do norte e do sul.
Mesmo sem uma exposição detalhada, o projeto de Bernardo
Pereira de Vasconcelos, em 1835, e o Plano
Rebelo, de 1838, deixam patente seu caráter administrativo-político-estratégico:
Possibilitar o intercâmbio entre as províncias, tornar
o Estado imperial mais presente em todas as regiões (a salvo
de interceptação costeira), e facilitar o envio de
tropas em casos de emergência.
Foi, aliás, a interpretação dada, desde então,
ao chamado Decreto Feijó.
O desmembramento da Província
Cisplatina, o afastamento do primeiro imperador (1831)
e as revoltas que solicitavam a refundação do Brasil
recolocavam em pauta a necessidade do pacto
entre as províncias,
que havia sido truncado
logo após a independência.
É significativo que o primeiro
projeto tenha partido de representantes de Minas Gerais, Bahia
e Rio Grande do Sul; e que o Plano
Rebelo tenha estendido seu alcance às demais províncias
do Pernambuco ao Pará, Goiás e Mato Grosso.
Pouco antes do assim chamado Decreto Feijó,
a mudança da capital para o interior do Brasil havia sido
novamente defendida no Parlamento:
-
Em 1831, o deputado João Cândido
de Deos e Silva (Pará) apresentou projeto de mudança
da capital para um ponto central, eqüidistante dos dois
extremos do Império, e às margens de um grande
rio navegável.
-
Em 1933, os deputados Ernesto Ferreira
França (Pernambuco) e Antônio Ferreira França
(Bahia) apresentaram projeto determinando a mudança.
Nenhum dos dois projetos chegou a tramitar no
Congresso mas provocaram a publicação, pela Câmara,
do antigo projeto de José
Bonifácio, com sua defesa de estradas para o coração
do País.
Menos claro, talvez seja o caráter econômico dos
projetos viários de 1835
e 1838.
O retorno à pauta do projeto de José Bonifácio
truncado no início do império, após abordar
as questões da terra
e da escravidão
sugere um possível reavivamento de idéias americanas
de colonização em massa.
A denominação Linha do Centro, e o próprio
nome republicano Central do Brasil parecem refletir essa
perspectiva curiosamente, nunca oficializada de prolongamento
da ferrovia para o coração do país.
A proposta de carris de ferro ligando a uma capital no centro
do país já estava presente no projeto Hollanda
Cavalcanti, de 1852, ano em que era decretada a EF D. Pedro
II. A carta
inserida por Varnhagen nos arquivos oficiais do Império,
em 1877, voltaria a propor explicitamente a "continuaçâo
da estrada de Pedro 2º, levando-a talvez de preferencia
pelo Paraopeba, rio S. Francisco e Urucuya, cujas cabeceiras se
acham mui perto desta villa" [Formosa,
em Goiás].
As descrições do Plano
da Commissão (1890), do início da República,
em geral não mencionam um papel da Central do Brasil na ligação
com a futura capital só determinada pela Constituinte no
início de 1891. Glicério,
porém, menciona "uma linha que se dirija do tronco àquele
rio [Tocantins] pelo vale
do Paracatu" o que, de passagem, atribui à projetada
linha de Pirapora a categoria de tronco.
O prolongamento além de Pirapora só veio a ser proposta
oficialmente por Paulo de Frontin, no relatório
de 1912. A partir de então, com aval do Congresso, outros
autores passam a reivindicar a categoria de tronco
para a linha do Rio de Janeiro a Pirapora, e seu prolongamento ao
planalto central, em direção a Belém do Pará.
Ao inaugurar o primeiro trecho da primeira ferrovia brasileira,
em 1854, Mauá o industrialista deixará
clara sua intenção de reivindicar o tronco da Côrte
ao rio São Francisco:
« Esta estrada, Senhor, não deve parar
mais, senão quando tiver assentado a mais espaçosa
de suas estações na margem esquerda do rio das Velhas.
Ali se aglomerará, para ser transportada ao grande mercado
da Côrte, a enorme massa de produção com que
devem concorrer para a riqueza pública os terrenos banhados
por essa imensa via fluvial, o rio S. Francisco, e seus inúmeros
tributários. É então, Senhor, (...) que o Rio
de Janeiro será um centro de comércio, indústria,
riqueza, civilização e força, que nada tenha
a invejar a ponto algum do mundo. » [Mauá,
ao imperador Pedro II, na inauguração dos primeiros
14 km da EF Mauá, 1854 (cf. Brito)]
Dez anos mais tarde, em abril de 1864, quando a EF de D. Pedro
II ainda lutava para vencer a serra do Mar, Tavares
Bastos apresentaria projeto à Câmara dos Deputados
para capitalização da empresa e seu prolongamento
até o rio São Francisco em conexão com um
claro projeto americano de divisão
das terras e atração de colonos
europeus para o desenvolvimento do oeste.
A capitalização da EFDPII, afinal, transformou-se
em dissolução da empresa, a ser encampada pelo Estado
imperial [10 de Julho de 1865],
e na última reunião da Assembléia Geral dos
acionistas [25 de Julho] seu
presidente, Christiano
Ottoni, deixava clara a reivindicação do tronco
central, em direção ao rio São Francisco.
Começava por excluir da pretensão a ferrovia de Mauá,
ao lembrar (sem citá-la) que não tinha vencido a serra
do Mar, e que não fazia parte de um plano implícito
no discurso, mas de fato apenas tácito *[Falta
conferir praticamente tudo, sobre ferrovias e política ferroviária,
nas discussões reservadas do Conselho de Estado, de que Ottoni
fez parte de 1858 até a queda da monarquia, e cujas atas
eram secretas, sendo ainda hoje pouco conhecidas, já que
não chegavam normalmente à imprensa, aos livros ou
aos discursos da época] de rede geral de communicações:
« Srs. Accionistas, de todas as estradas
de ferro decretadas com o proposito de um dia se incorporarem numa
rede geral de communicações internas, fluviaes e terrestres,
a unica a quem coube a sorte de ser inaugurada e em sua maior parte
construida por associação nacional, é a Estrada
de Ferro de D. Pedro II. »
Reiterava a exclusão da ferrovia de Mauá:
« E a unica associação brazileira
até hoje fundada para fins tão altos foi a Companhia
da Estrada de Ferro de D. Pedro II. »
Alfinetava Mauá, por seus investimentos no Uruguai, ao lamentar
que a companhia de D. Pedro II falhasse por falta de disposição
dos capitais nacionais para enfrentarem riscos, desenvolvendo-se
dentro do País:
« (...) á historia economica do Brazil
nos ultimos quinze annos compete assignalar os factos e as deliberações
que fizeram expatriar-se e ir desenvolver os recursos de uma nação
irmã os capitaes brazileiros que se recolhiam de arriscadas
especulações transatlanticas. | Capitaes brazileiros,
porque eram o producto da terra fecundada pelo suor dos incolas
que a conquistaram; capitaes que fixados na terra fixariam tambem
os homens laboriosos que os recolheram, capitaes que immobilisados
ganhariam no chão da patria novas forças como o gigante
da fabula. »
Oeste vs. Juiz de Fora
A questão era mais ampla. Tendo o contrato Price consumido
o capital da EF D. Pedro II para construir só a parte mais
fácil, na planície , o levantamento de um empréstimo
para a subida da serra foi transformado em oportunidade para questionar
a própria ferrovia, em favor da EF Mauá.
De início, questionou-se que seria tecnicamente inviável
a subida da serra (por simples aderência); ou sem viabilidade
econômica (por algum sistema mais complexo, ainda não
comprovado à época, como, p.ex., os planos inclinados
adotados pela inglesa, à qual Mauá e Pimenta
Bueno haviam vendido sua concessão Santos-Jundiaí;
ou o sistema de cremalheira, mais tarde adotado pela EF Mauá
para chegar a Petrópolis). Ottoni bateu-se pela simples aderência,
buscando nos Estados Unidos a experiência que os ingleses
não tinham nessa área. Essa alternativa, criticada
pelos adversários, só venceu (afinal) por interferência
direta do imperador, que talvez não quisesse ficar na dependência
de Mauá. Ottoni acabou empenhado [O
imperador teria comentado, mais tarde: "Deixem-n'o, si não
fizer a estrada é homem perdido"].
Em seguida, tentou-se impedir o início da 3ª seção
de Barra do Piraí a Porto Novo do Cunha, onde finalmente
a EF D. Pedro II encontraria carga (café) capaz de justificá-la
economicamente. A oposição
tornou-se bem definida: Mauá (que pretendia o tronco
até o rio São Francisco), Mariano Procópio
Ferreira Lage (da Estrada União e Indústria), banqueiro
Souto (credor da EF Cantagalo) e Visconde de Barbacena [Nem
a EF Mauá nem a EF Cantagalo haviam vencido a serra, nem
tinham privilégio reservado na área a ser atingida
pela 3ª seção. Também é questionável
que a EFDPII levasse à falência a rodovia União
de Indústria pelo contrário, lhe daria a viabilidade
que a EF Mauá tardava em proporcionar , pois a 3ª seção
terminaria em Porto Novo. Pelos projetos de Ottoni e Paula Cândido,
o prolongamento da EFDPII deveria vencer a Mantiqueira nas proximidades
de Resende (ramal de São Paulo), percorrendo as terras férteis
do oeste de Minas (para colonização), alcançando
pontos navegáveis nos rios São Francisco e Grande,
e seguindo adiante para Goiás e Mato Grosso (Cuiabá).
A opção do prolongamento por Juiz de Fora e Brabacena
ocorreu mais tarde, quando a EFDPII foi presidida por Mariano Procópio
sob a crítica
do senador Ottoni]. Mais uma vez, só a interferência
do imperador impediu que a EF D. Pedro II fosse paralisada em Barra
do Piraí.
E dissolvida a companhia reafirma a reivindicação
do tronco central, agora para a empresa do Estado:
« Se, porém, senhores, não
foi dada á nossa associação a honra e a gloria
de concluir a Estrada de Ferro de D. Pedro II, esse verdadeiro tronco
da arvore futura de communicações entre a Capital
e as Provincias do Imperio, se tendo a felicidade de dominar a grande
cordilheira e avassallar as margens do Parahyba, não pudemos
estender mais longe nossas aspiraões, em demanda das aguas
do rio Grande e do S. Francisco, façamos votos para que Deus
inspire os nossos governantes, para que da Administração
Publica receba o paiz os beneficios que em diversas circumstancias
deveria ao capital e á associação. »
|
|
|