Será um pássaro?
Um avião?
Uma idéia que pousa aqui e ali
Flavio R. Cavalcanti
A idéia de mudança da capital é tão
velha quanto a instituição do Estado — ou talvez
anterior — e é de admirar que livros de história
de Brasília não comecem pelo batido lugar comum:
"Já na antiga Mesopotâmia..."
[Exceção foi o livro Quando
mudam as capitais. Penna, J. O. de Meira. Rio de Janeiro,
IBGE, 1958].
Limitam-se, em geral, a pontuar registros da idéia
mudancista a partir do governo português do Marquês
de Pombal — que teria planejado interiorizar a capital do Brasil
—, sem abordar os diferentes contextos em que ocorreram, e sem
outro fio condutor além do estabelecimento de uma espécie
de pedigree legitimador. Uma vez que a idéia
se associa a uma seqüência de grandes figuras
da história, adquiriria respeitabilidade. E a defesa da
idéia, inversamente, torna a confirmar a grandeza
dessas figuras, fechando o círculo.
O ambiente inicial dessas resenhas da idéia teve
como contraponto as resistências à mudança
da capital do Rio de Janeiro para Brasília — em grande
parte, disputas político-partidárias, onde a mudança
entrava como um tópico a mais, embora com destaque proporcional
à sua visibilidade [Ver
Brasília:
a construção da nacionalidade. Um meio para muitos
fins]. Tratava-se, portanto, de defender a idéia.
E a tarefa foi facilitada pelo levantamento historiográfico
da Presidência da República [ver
ao lado], colocado à disposição de
defensores de todos os tipos e matizes — inclusive autores "apolíticos",
ou mais próximos ao pensamento militar nacionalista. Até
para simplificar, a maioria das resenhas concentraram-se em um
número reduzido de ocorrências da idéia,
que parecessem mais significativas e auto-defensáveis.
Ao darem cria, nos anos e décadas seguintes, tenderam a
uma simplificação maior, apenas reincorporando,
aqui e ali, algumas das ocorrências esquecidas.
Isoladas dos contextos históricos, as ocorrências
da idéia formam uma série às vezes
confusa (e sem indicação das fontes), onde se misturam
questões de diferentes ordens: (a) a escolha de uma cidade
para dirigir a colônia, inicialmente Salvador; (b) a necessidade
de um abrigo no interior contra o risco das invasões e
ataques estrangeiros ao litoral; (c) o interesse de ocupar e explorar
economicamente o interior da colônia; (d) a eventual necessidade
de a família real deixar Lisboa para se pôr a salvo
de inimigos europeus.
Fica, em geral, escamoteada uma questão de outra ordem,
bem diferente: — Projetos de criação de um Estado
("império") na América, com vida e força
próprias; e mais tarde uma Nação,
no sentido moderno do termo. Por incrível que possa parecer,
os primeiros projetos partiram de Portugal e da Inglaterra
[A conferir: Lyra, Maria de Lourdes Viana. A Utopia do Poderoso
Império. Rio de Janeiro, Sette Letras, 1994]. À
medida em que foram sendo apropriados por brasileiros, passaram
a envolver não apenas a idéia de interiorizar
a capital, abrir caminhos e implantar empreendimentos econômicos
destinados a sustentar um Estado, mas também questões
de cidadania, direitos civis, educação, liberdade
de religião, de empreendimento e de comércio, divisão
da terra, desenvolvimento das minas (tecnologia), das "artes"
(ofícios mecânicos) e das "manufaturas"
(indústria).
Pequena Holanda, pequeno Portugal
Mauritsstad, quase capital do reino lusitano
Em 1652 e 1654 registra-se a idéia de interiorizar
os habitantes (quais?) do Pernambuco [AH1:016].
Não se trata de protegê-los de uma invasão.
Os holandeses dominavam (e desenvolviam) o Pernambuco de longa
data, e a população e os senhores vinham convivendo
e produzindo normalmente — até que a Holanda manda cobrar,
de súbito, todos os financiamentos feitos à indústria
açucareira. Nassau discorda, retira-se, e a colônia
empreende a guerra pela expulsão dos holandeses. O contexto
é, portanto, complexo. Oficialmente, Portugal não
apoiava a rebelião — era parceiro da Holanda —, mas as
duas propostas de mudança (de quem?), para o sertão,
são feitas em relatórios a Lisboa.
Em 1656, D. João IV (o Restaurador de Portugal como reino
independente da Espanha) já havia elaborado um Roteiro
de transferência da família real — ameaçada
na Europa — para o Recife, nada menos [AH1:017-019,
099]. Pode soar estranho: a expulsão dos
holandeses ainda não estava resolvida. Não eram
vistos, portanto, como um perigo, embora Portugal estivesse desprovido
de navios de guerra. Pelo contrário, a luta dos pernambucanos
cria, na Europa, a fama do Recife como rochedo (rochela)
inexpugnável. Em 1660, Lisboa envia novo governador para
o Pernambuco, com instruções de preparar a residência
da família real; e o padre Vieira recebe ordem de passar
do Maranhão para o Recife, a fim de colaborar nos preparativos.
Só em 1661 a Holanda reconheceria a perda do Nordeste do
Brasil; e em 1669 se acertaria o preço.
A historiografia tradicional — enfatizando o "nativismo"
pernambucano, com vistas ao futuro conceito de nacionalidade —
responde pela aparente incoerência de uma família
real européia buscar segurança numa colônia
"sob ameaça". Falta lembrar que o ciclo econômico
do açúcar havia sido aparelhado com capitais holandeses,
que controlavam o refino e a distribuição. Só
a absorção de Portugal pela Espanha (1580) tornou
imperativo o domínio holandês sobre o Pernambuco;
e a Restauração de Portugal (1640) dissolvia essa
condição — aliás, a Holanda já providenciava
outras colônias açucareiras, de maior produtividade
[ver Furtado, Celso. Formação
econômica do Brasil].
Um imenso Portugal
Entre 1700 e 1713, a mudança da família real portuguesa
para o Brasil volta a ser considerada em caráter de emergência.
Passado o susto, porém, ainda será considerada inevitável
a longo prazo [AH1:018-019]:
« Tão profunda era a dependência
em relação ao Brasil que D. Luís da Cunha
anteviu a transferência da Côrte para o Rio. O rei
assumiria o título de "Imperador do Ocidente"
e indicaria um vice-rei para governar Lisboa. Na recomendação,
redigida em 1736 para uso do tio de Carvalho de Melo — Marco Antônio
de Azevedo Coutinho — quando nomeado ministro do Exterior, D.
Luís da Cunha vislumbrou um império português
na América, do Prata e do Paraguai até o Amazonas,
ao norte: "... que he mais commodo e mais seguro estar onde
se tem o que sobeja; que se esperar o de que se carece"
[Academia de Sciências de Lisboa.
Instruções inéditas de D. Luis da Cunha a
Marco Antonio de Azevedo Coutinho, revistas por Pedro de Azevedo
e prefaciadas por Antônio Baião. Coimbra, 1929],
escreveu ele » [Maxwell,
Kenneth. A devassa da devassa. A inconfidência mineira:
Brasil-Portugal - 1750-1808. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1978].
Trata-se de D. Luís da Cunha (1662-1740), diplomata português
de projeção na Europa, correspondente de Alexandre
de Gusmão (o secretário paulista do rei), e considerado
"mestre" pelo futuro Marquês de Pombal — que ele
recomenda ao futuro rei D. José I:
« (...) as suas Memorias, que o
celebre diplomata ofereceu à Biblioteca Real, as quais
são a história política da Europa durante
meio século, que, se conservam inéditas, e das quais
dizem existir um exemplar na Torre de Tombo, além de outras
cópias que ainda ficaram. É curioso, porém,
que de três cópias que se conhecem, uma é
em 3 volumes, outra em 4, outra em 6, significando não
o diverso tamanho do volume, mas o serem versões diversas,
muitas mais resumidas que outras. Entre várias cartas
de D. Luís da Cunha entre as quais algumas podem ser taxadas
de apócrifas, torna-se célebre uma que dirigiu a
D. José I, sendo ainda príncipe, em que lhe dá
conselhos muito proveitosos para o governo do país, e indicando-lhe
para ministro Sebastião José de Carvalho e Melo.
Esta carta judiciosa recomenda a reforma do exército, da
marinha e da magistratura, a criação da polícia
da corte, o fomento da indústria, a abertura de rios e
canais e a tolerância religiosa. Foi impressa em 1820, com
o título de: Testamento politico, ou carta escripta
pelo grande D. Luiz da Cunha ao senhor rei D. José I antes
do seu governo; Este documento havia sido publicado no Investigador
portuguez, e foi depois publicado por António Lourenço
Caminha, em 1821, no seu livro: Obras ineditas do grande exemplar
da sciencia do Estado, D. Luiz da Cunha a quem o marquez de Pombal
Sebastião José de Carvalho e Mello chamava seu mestre
etc. commentadas e consagradas ao muito alto e poderoso senhor
D. João VI rei do reino unido, etc., tomo 1º.
» [Portugal
- Dicionário histórico].
Um surto de novos caminhos, fortificações e geógrafos
— subestimandolongitudes,
minimizando avanços a oeste — percorre o Brasil
e o país das Amazonas, modelando os tratados de Madrid
(1750) e de Santo Ildefonso (1777), que viriam triplicar o território
português na América [Telles,
46-47].
Parece ser o caso do padre Diogo Soares, matemático, enviado
pela Côrte — não para pregar, mas fazer levantamentos
e (pelo contrário) manter a boca bem fechada. Os resultados
falam por si:
Relato das "Notícias practicas das
Minas do Cuyabá e Guyazes na Capitania de São Paulo",
"Notícias practicas das Minas Gerais do ouro e diamantes"
e "Notícias practicas da costa e povoações
do mar do sul", descrevendo caminhos fluviais e terrestres,
e ataque de tribos indígenas a monções, datadas
de 1722-1738. Biblioteca Pública de Evora, Coleção
Padre Diogo Soares. Divisão de Documentação
da Reitoria da USP. (cópia microfilme / 337p.) [Unicamp:
Pesquisa: Documentos reproduzidos].
Relato das "Notícias practicas das
minas do Cuyabá e Guyazes na Capitania de São Paulo",
da Coleção Padre Diogo Soares referente a monções
empreendidas a Cuiabá, descrevendo caminhos fluviais e
terrestres da região, as tribos indígenas existentes,
os ataques indígenas a roças e monções.
Datas compreeendidas entre 1727 e 1734. Biblioteca de Evora. cod.
116 (2-15, 1 vol., 4º). (Incluso um bilhete explicativo de
Affonso de E. Taunay, entregando a documentação
a SBH, por ocasião da transmissão de cargo na Diretoria
do Museu Paulista em 25 jan.1951. (cd / 136p) [Unicamp:
Pesquisa: Documentos reproduzidos].
Dessa excessiva discrição do padre Diogo reclamará
o geógrafo e cartógrafo Francesco Tosi Colombina,
enviado a seguir, aparentemente também em missão
oficial, e que se ressente dos dados que o padre "não
tinha comunicado nestas partes". Mas será igualmente
discreto. Refere-se a uma cópia do "Mapa geral do
interior da nossa América", feita pelo sargento-mor
engenheiro da Baía de Todos os Santos "com as explicações
algum tanto modificadas e diminutas". De volta à
Europa, elaborou um conjunto de cinco cartas em 1756 — três
das quais pertencem à Mapoteca do Itamarati (encontram-se
desaparecidas) — com os caminhos de Goiás para os quatro
pontos cardeais: Mato Grosso, Amazonas, Tocantins, Bahia, Minas
Gerais, São Paulo e o Sul.
Em Goiás — para onde havia seguido com o governador, Conde
dos Arcos —, Francesco Tosi Colombina teria cogitado da interiorização
da capital do Brasil, cf. relato verbal de Capistrano de Abreu
a respeito de escritos e mapas adquiridos pela Biblioteca Nacional
e pelo Arquivo Público Mineiro no leilão da biblioteca
do Conde de Linhares [Antônio
Martins de Azevedo Pimentel. Histórico da mudança
da capital federal, in Revista do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, tomo LXXIII, parte
1, 1910, p. 280, cf. AH1].
Mais bem documentada está a concessão que solicitou
e obteve — mas não concretizou — para abrir uma estrada
carroçável de São Paulo a Goiás e
Cuiabá, com direito a sesmarias de três em três
léguas.
Pombal, colocando em prática os conselhos de seu "mestre"
(na verdade, toda
uma equipe), teria um projeto delineado, por trás dessa
atividade surda no Brasil:
« O marquês de Pombal, no reinado
de D. José I, teve as mesmas idéias de transferência,
e compreendia a magnitude do plano de estabelecer a côrte
portuguesa no continente do Brasil: e por isso tomou grandes medidas,
e estava pronto a levar a efeito, se uma crise política
viesse a aparecer (...). » [A.
J. de Melo Moraes. História da trasladação
da côrte portuguesa para o Brasil em 1807-1808. Rio de Janeiro,
1872, p. 20-21, cf. AH1].
Quanto à interiorização da capital no
Brasil, os planos de Pombal podem não ter sido o que algumas
citações sugerem. Tratar-se-ia talvez do vale amazônico,
e não do planalto central. Aliás, o Brasil tinha
uma administração, o Grão-Pará e Maranhão,
outra. De imediato, seu irmão — governador do norte, com
instruções detalhadas — tratou de urbanizar as principais
povoações, dando a Belém um porte desproporcional
às necessidades de governo e de negócios da época.
[Obs.: reunificou a administração do Brasil?]
Fica por dizer que o projeto desenvolvido por Pombal, embora
ousado — "libertar" os índios da tutela jesuíta
e incentivar casamentos inter-étnicos para prover o Brasil
com a população que Portugal não podia fornecer
—, era insuficiente sob muitos aspectos. Não havia o esperado
tesouro jesuíta de que se apossar, mas um sistema de produção
que se desmantelou na tentativa. Nem havia condições
de absorção dos índios e mestiços
como "portugueses", com os mesmos direitos, na sociedade
colonial — por sinal, parca em direitos mesmo para as pessoas
ditas "livres".
Falava-se extensivamente em povoar o território — em especial,
para sua defesa (a produção vindo por conseqüência,
para suprir a defesa) — mas a mobilização da terra,
como elemento construtivo de um projeto de país, parece
não ter ido além de um cala-boca para a elite que
se desejava cooptar para que exercesse o controle sobre os demais
habitantes:
« As famílias principais deviam
ser vinculadas à metrópole mais intimamente, por
favores, cargos e doações de terras. »
[Maxwell, Kenneth. A devassa da devassa.
A inconfidência mineira: Brasil-Portugal - 1750-1808. Paz
e Terra, Rio de Janeiro, 1978].
A essa visão européia, distante da realidade
local, o projeto somava a desigualdade de tratamento: a Portugal,
exclusivamente, caberia o desenvolvimento da manufatura; e à
colônia, apenas plantar, extrair. Cooptada por favores e
privilégios, mas longe de uma vigilância direta,
nem por isso a elite da colônia se tornou mais leal — desenvolveu
consciência do conflito de interesses.
Como sede de um império lusitano forte, o Brasil desenhado
pela administração de Pombal seria fraco. Vindo
de súbito para a América — como depois se viu —,
a Côrte não poderia trazer de afogadilho suas manufaturas,
nem sua massa de técnicos, artífices e trabalhadores
treinados.
Essa fraqueza dificilmente desagradaria à Inglaterra,
a essa altura principal parceiro econômico, e já
bastante atenta à industrialização de Portugal.
Assim, não é de estranhar o apoio inglês ao
projeto de um império — sem indústria — na
América do Sul: a fuga de Lisboa deixaria o rei português
inteiramente em suas mãos. Tal império seria,
sim, um instrumento útil para prender na órbita
britânica as colônias espanholas desgarradas. É
no contexto pós-Pombal, e pós-Revolução
Francesa, que pela primeira vez surge a indicação
clara de localização da capital "no centro
do país", associada a uma rede de vias de comunicação
irradiando em todas as direções:
« "Colocado o trono de Portugal na
América, então a Grã-Bretanha, junta ao seu
antigo aliado, aumentaria o Império". (...) "Desde
esse importantíssimo momento, o Império da América
do Sul e a Grã-Bretanha ficarão ligados eternamente,
fazendo estas duas potências um comércio exclusivo".
(...) Pitt imaginava uma grande capital, Nova Lisboa, no centro
do país, ligada por estradas a Cayenna, Pará, Rio
de Janeiro, Olinda, Calláo, Lima, Santiago, etc. O folheto
fez este mesmo anúncio da divisão de possessões
espanholas no Novo Mundo, saído da boca de Pitt: "O
Imperador da América deve logo apoderar-se de todas as
possessões de Espanha". (...) Varnhagen põe
em dúvida a autenticidade desse discurso (...) não
chega a negá-la categoricamente (...). Varnhagen baseia
a sua suspeita no fato de ter esse discurso aparecido em Lisboa
no ano de 1809 (...). Ora, antes disso, em 1807, conforme se viu,
um folheto publicado em Londres e notas diplomáticas de
Strangford inspiravam-se em idéias contidas no mencionado
discurso ou quase as reproduziam. » [Tobias
Monteiro. História do Império. A elaboração
da Independência. Rio de Janeiro, 1927, p. 67. Cf. AH1:112].
Estados Unidos (do sul)
O período que se estende da Inconfidência (1788-1789)
até a derrota da Confederação do Equador
(1824) — e que marca a fundação do Estado brasileiro
— é rico em idéias sobre onde se deveria
localizar a sede do poder, quer se tratasse de um reino unido
a Portugal, ou uma federação de províncias
brasileiras, ou uma federação das câmaras
de Minas Gerais.
É nesse período que praticamente se define a localização
— e até o nome — de Brasília, embora nada tenha
ficado "decidido". Pelo contrário, o desfecho
das questões envolvidas na fundação do império
— com a supressão das malvadas idéias francesas,
e da própria federação — tornou o assunto
ocioso. A historiografia posterior, desenvolvida em função
do Estado afinal constituído, procurou esvaziar as questões
vencidas, tornando vagos os motivos, e um tanto sem sentido as
referências sobreviventes.
Encruzilhada dos Emboabas
A interiorização dos inconfidentes, à primeira
vista soa forçada — tratava-se, afinal, da capital de Minas
Gerais, não do Brasil — mas não faltou a defesa
dessa linhagem da idéia, e que explicaria certo
favoritismo em relação ao Pernambuco: o regionalismo
da interiorização mineira seria apenas tático,
provisório, até que as demais capitanias aderissem
ao movimento, o que seria — segundo essa linha de argumento —
inevitável:
« A revolução de Minas, inspirada
na revolução americana, tencionava libertar o país.
Seguindo, porém, ainda aí, o modelo americano, pretendia
fazer de início uma sublevação local, a que
depois seriam convidadas a "aderir" as outras capitanias
**[A revolução dos
Alfaiates, na Bahia (1798), como as revoluções de
Pernambuco de 1817 e de 1824, se assemelha à Inconfidência
nesse particular: a idéia é sempre formar um núcleo
livre que sirva de miolo à confederação do
resto]. » [BHI:040].
A rigor, a capital das Minas Gerais, Vila Rica (Ouro Preto),
já era mais do que "interior" — como,
de resto, a capitania inteira. Mas a pretendida capital São
João del Rei, no rio das Mortes — palco da guerra dos Emboabas
— era melhor suprida de gêneros de produção
local, distanciava-se (para oeste) do alcance das tropas do vice-rei,
e situava-se numa encruzilhada
de caminhos interiores — difíceis de interceptar a
partir do litoral — para regiões igualmente inacessíveis
ao adversário, em São Paulo, Goiás, Mato
Grosso e o interior da Bahia e Pernambuco:
« (...) um outro ponto, não menos
importante, tinha sido lembrado na conversa entre [Thomas]
Jefferson
e José Joaquim Maia, nas ruínas de Nîmes:
a vantagem militar de dirigir a revolta de um ponto recuado no
sertão. Ora, nenhuma topografia mais favorável à
luta de guerrilhas que as montanhas de Minas Gerais; os inconfidentes
julgavam mesmo que a capitania seria inexpugnável, uma
vez que lá se pusessem, em quantidade suficiente, ferro,
sal e pólvora. » [BHI:041].
O plano inconfidente interiorizava, portanto, mais do que a capital.
Apoiava-se em interesses comerciais do interior, tradicionalmente
refratários ao governo-geral litorâneo — cultivos,
engenhos e tecelagens proibidos, quilombos, garimpos, contrabando,
criação de gado do vale do São Francisco,
comércio de tropas de mulas realizado pelos paulistas desde
o planalto do Paraná. Reunia em sua base social, dessa
forma, os agrupamentos marginalizados no interior; e sob esse
aspecto talvez tivesse mais chances de efetivamente alavancar
o povoamento dessas regiões e o desenvolvimento do mercado
interno, sobre uma base de equilíbrio de trocas interior
/ litoral. Exceto pela localização exata, portanto,
correspondia — até mais do que outras propostas de interiorização
— à construção de uma (ainda não-conceituada)
nacionalidade.
É importante observar, enfim, que o projeto inconfidente
previa a implantação de uma universidade, fundição
de ferro, fábrica de pólvora, tecelagens, liberação
do comércio de diamantes, abertura dos portos. Escravos
mulatos e crioulos seriam libertados; as forças militares
seriam substituídas por milícias populares. Ao contrário
do que sugere parte da historiografia, o movimento abrangia mais
do que a elite colonial: participavam membros de todos os níveis
da hierarquia civil e militar, e de toda escala econômica,
social, étnica, religiosa e intelectual. As Minas Gerais,
aliás, eram uma sociedade bastante complexa, com associações
religiosas brancas, mulatas e negras; uma pequena burguesia
de comerciantes, profissionais, artesãos e artistas
— sem a qual, não se poderia compreender o grau de desenvolvimento
de sua arte e arquitetura — e crescente aglomeração
urbana de mão-de-obra marginalizada [FTS:147,
163].
A proposta inconfidente distanciava-se bastante, portanto, dos
projetos portugueses e ingleses de criar um império no
Brasil. Ao invés da natureza morta do "territorialismo"
— pretexto de tantos comportamentos condicionados pela unidade
e integridade territorial a qualquer custo, acima da sociedade
—, privilegiava o caminho das 13 colônias da América
do Norte, de cuidar primeiro da independência política
e econômica, da organização social e dos direitos
dos cidadãos, e só
depois pensar na extensão territorial.
Mas, se o êxito da união de diferentes classes sociais
na revolução americana incentivou projetos como
o da Inconfidência Mineira, "excessos" verificados
na revolução francesa — em especial a rebelião
dos negros do Haiti, apontada e amplificada pelo pensamento conservador
da época como sua conseqüência natural — introduziram
uma cunha em projetos posteriores, onde quer que a elite branca
pudesse ser assustada.
Colombina revisitado
Não se apontam registros da idéia de mudança
ou interiorização da capital na inconfidência
carioca (Conjuração do Rio de Janeiro, 1794), na
revolta dos alfaiates (Conjuração Baiana, 1798)
— esta última com forte participação da "classe
média" urbana mulata —, ou na Conspiração
dos Suassunas (1801), rapidamente reprimidas e, na medida do possível,
abafadas para que suas idéias não se difundissem.
Sucedem-se mudanças rápidas e profundas por toda
parte. Na Europa, a "ameaça" francesa ganha proporções
avassaladoras, derrubando antigos Estados absolutistas e impondo
a revolução industrial no Continente, fora do monopólio
inglês. Finalmente se cumpre a necessidade de transferir
a capital portuguesa para o Rio de Janeiro — e improvisos de desenvolvimento
local (como a fundição de ferro de Ypanema, no interior
de São Paulo) mostram-se inviáveis, diante do desmantelamento
da matriz lusitana e da absoluta submissão aos interesses
comerciais da Inglaterra.
Através do Correio Braziliense (ou Armazem Literario),
que edita em Londres de 1808 a 1822, o brasileiro Hipólito
José da Costa expõe conflitos entre a monarquia,
a Inglaterra, portugueses e brasileiros, e aos poucos vai construindo
um projeto para o Brasil — de início, associado a Portugal;
por fim, francamente dissociado.
Elementos dos antigos projetos de D. Luís da Cunha, Colombina,
Pombal e Pitt voltam à tona e são apropriados por
Hipólito, dentro de nova perspectiva. O Investigador
Portuguez — outro dos vários jornais de língua
portuguesa editados em Londres, por essa época — publica
o Testamento politico, ou carta escripta pelo grande D. Luiz
da Cunha ao senhor rei D. José I antes do seu governo.
Em 1809 surge em Portugal o livreto Reflexions, com a tradução
de um discurso atribuído a Pitt (então, já
falecido), explicitando um projeto que se entrevia na atuação
da diplomacia inglesa.
Vencessem os ingleses Napoleão, quantas vezes pudessem,
a Europa nunca mais seria a mesma. A Constituição
elaborada pelas cortes espanholas reunidas em Cádiz, promulgada
em 1812 (enquanto exércitos ingleses e franceses lutavam
pela Espanha), permanecerá um marco fundamental nas lutas
contra o absolutismo em Portugal (e até no Brasil), nos
anos seguintes. As colônias espanholas na América
declaravam-se independentes, proclamando a liberdade de imprensa
e outras "malvadas" idéias francesas —
daí o renovado interesse britânico em um "império"
no Brasil que as anexasse, uma por uma. Se Pitt de fato explicitou
tal projeto ou se foi obra de malícia portuguesa (como
sugere Varnhagen), já são outros 500.
Malvadas idéias
É nesse contexto que radicalizam pernambucanos, com a
revolução republicana de março de 1817 (criticada
pelo "moderado" Hipólito); e portugueses,
com a revolução do Porto, em agosto de 1820, exigindo
a convocação de uma assembléia constituinte
(as "Côrtes"). Duas ordens de idéia
de mudança da capital são discutidas por Hipólito:
a manutenção da família real portuguesa no
Rio de Janeiro, contra a cobrança insistente das "Côrtes"
de Lisboa, que a queriam de volta em Portugal; e a criação
de uma nova capital, especificamente brasileira (com ou sem Reino
Unido), no planalto
central de Goiás / Minas / Pernambuco [Goiás
significando, nesse contexto, São Paulo — de que era extensão].
A revolução republicana de 1817, herdeira da experiência
pernambucana de luta contra adversários marítimos,
retoma a velha idéia de uma capital no interior.
Mais uma vez, espera-se a adesão de outras capitanias —
como a Bahia, onde rápida repressão abafou o levante.
E, mais uma vez, resenhas da idéia dão pouco
destaque: levante regional, capital regional, etc.
Com a volta de D. João VI a Lisboa, o debate se desloca
para a permanência ou não do príncipe D. Pedro
como regente do Brasil. Permanece na ordem do dia a idéia
de escolher entre Rio de Janeiro e Lisboa.
A ruptura entre Brasil e Portugal agrava-se com a marginalização
dos representantes brasileiros nas "Côrtes"
de Lisboa; e torna-se irreversível quando as "Côrtes"
determinam a ocupação militar de Salvador, em 1822
— apenas uma incoerência a mais das Côrtes,
"liberais" apenas quando se tratava de portugueses "europeus".
A resistência baiana desloca-se para o interior, instalando
sua capital em Cachoeira, no Recôncavo — outra "interiorização"
não registrada pelas resenhas da idéia.
Do lado brasileiro, os passos concretos da ruptura com Portugal
são forçados por republicanos radicais — especialmente
ativos no Rio de Janeiro — e por liberais moderados como
José Bonifácio. Os dois "partidos" tinham
projetos bastante claros para o país — mas, aparentemente,
o "diplomático" Bonifácio levou em consideração
o Pernambuco, ao elaborar sua idéia de localizar
a futura capital na comarca de Paracatu, limítrofe à
comarca pernambucana do São
Francisco.
Um "partido absolutista" pressionava D. Pedro em outras
direções, que não interessava esclarecer,
afinal não visava objetivos muito populares. Como acabou
relativamente vitorioso — e ajudou a arquivar a idéia
de mudança da capital —, pode-se supor que em sua idéia
o Rio estaria de bom tamanho.
Portugueses "europeus", que controlavam o comércio
e parte considerável dos postos importantes no Rio de Janeiro,
constituíam "partido" de peso — e a eventual
tendência de preferirem a união com Portugal (onde
prevalecia o liberalismo) não significa que vissem o Brasil
com olhos, necessariamente, liberais. Sua idéia
quanto à capital, presumivelmente, seria Lisboa. Ou o Rio,
entreposto de comércio do além-mar.
Os republicanos radicais dispuseram de pouco tempo para elaborar
com calma sua idéia quanto à localização
da capital — e, na seqüência, foram varridos (tanto
quando possível) da historiografia do Império.
Pelo que se pode deduzir dos indícios sobreviventes,
rejeitavam o Rio de Janeiro, onde o "absolutismo"
(de que D. Pedro era suspeito) dispunha de sua maior concentração
de forças — e 40% do eleitorado carioca não
hesitava em assinar embaixo.
Também repudiavam o Rio por ser uma província —
como as demais — com interesses próprios, que não
deveriam prevalecer sobre os da federação. Seria
esta a motivação do constituinte
paulista enviado às Côrtes
de Lisboa com as instruções
redigidas por José Bonifácio:
A prudencia: porque este he o unico meio de evitar
as rivalidades que se descobrem entre as Provincias.
Com o crescimento da pressão republicana — forçando
"absolutistas" e moderados a convocarem uma Constituinte,
antes que ela se organizasse fora de controle —, José Bonifácio
assina a prisão, processo e expulsão dos radicais
do Rio de Janeiro (Out. 1822).
Moderação descartada
Pensava, talvez, preparar terreno para seu projeto "moderado"
— que previa a retomada das terras não cultivadas e sua
re-divisão, melhoria técnica da agricultura, universidade,
metalurgia, abolição "gradual"
da escravidão (em 5 anos!), catequese e absorção
dos índios como cidadãos, atração
de imigrantes europeus. É curioso que a historiografia
atribuísse ao autor de tal projeto a classificação
de "conservador". O "partido absolutista",
com certeza, não incidiu nesse erro de avaliação.
A Constituinte reúne-se em maio de 1823. Em junho, Bonifácio
expõe sua idéia sobre a localização
da capital. Em julho, é apeado do poder. Em novembro
D. Pedro dissolve a Constituinte, Bonifácio é preso
e deportado com seus irmãos Martim Francisco e Antônio
Carlos — os Andradas.
O Pernambuco torna a rebelar-se, formando com outras províncias
do Nordeste a Confederação do Equador — cuja idéia,
mais uma vez, foi de uma capital no interior. No sertão
da Paraíba, para não cometer o mesmo erro que criticava:
« Nós fiados na boa fé, que
em 1822 inculcava o Rio de Janeiro, nos unimos com ele e demais
províncias, para formarmos um império, e termos
uma constituição formada em nossas cortes soberanas.
Mas sendo nós enganados do modo mais indigno, nos vimos
sem representação nacional. » [Frei
Caneca, O Typhis Pernambucano, nº XX, 3.6.1824, cf. Renato
Lopes Leite. Republicanos e libertários].
Nem por isso os confederados deixavam de ter sua idéia
sobre uma capital para todo o Brasil. Segundo o Barão do
Rio Branco:
« Em Poço Comprido, na Paraíba,
celebraram um grande Conselho e resolveram que não se admitisse
capitulação com o General Lima e Silva senão
sob a condição de evacuar o Recife e de se instalar
a Assembléia Constituinte em um ponto Central do Brasil,
fora da influência das armas do Rio de Janeiro. »
[Nota do Barão do Rio Branco.
História da Independência do Brasil, de Francisco
Adolpho Varnhagen (volume 6, página 312), cf. Ernesto
Silva].
A Confederação do Equador foi derrotada — e o Pernambuco
perdeu o território da Comarca
do São Francisco, que se estendia até a Comarca
de Paracatu, sugerida por Bonifácio para abrigar a capital
do Império.
A partir daí, projetos republicanos ou apenas liberais
passaram a ser tratados como subversivos, separatistas, e sufocados
pela força, em nome da unidade e integridade do território
brasileiro. O Rio de Janeiro passou a ser identificado, cada vez
mais, com o centralismo do Estado imperial e sua tendência
absolutista.
A origem da história
Ao fazer da interiorização
da capital uma bandeira, o governo Kubitschek providenciou
— entre outras iniciativas — um levantamento historiográfico
da idéia.
O resultado foi uma idéia
refinada e reduzida à forma de cristal, livre de
impurezas, pronta para dissolver e servir em textos de divulgação
— e, na seqüência, em obras de popularização;
depois, com o tempo, em histórias de Brasília,
resenhas etc.
O trabalho de levantamento foi realizado
por uma equipe do Serviço de Documentação
da Presidência da República, resultando numa
série de livros publicados até 1960: Brasília:
história de uma idéia (Rio de Janeiro,
1960); e Brasília: antecedentes históricos
(Rio de Janeiro, 1960, em três volumes: 1549-1896;
1897-1955; e 1956-1961). É de se notar que esse trabalho
não parece ter obedecido a qualquer intenção
consciente de isolar de seus contextos os diversos registros
da idéia de interiorização da
capital — apenas, a contextualização não
era o objetivo nem, provavelmente, havia tempo ou espaço
para isso. Tampouco parece ter havido uma seleção
crítica — algumas informações indiretas
foram conferidas em fontes anteriores, outras não
puderam ser; mas nem por isso foram omitidas.
Paralelamente também foram reunidos
e publicados em livro recortes da imprensa (Brasília
e a opinião mundial, 1958 e 1959, quatro
volumes; Brasília e a opinião estrangeira,
1960; Diário de Brasília, 1956
a 1960, em quatro volumes); e livros relacionados, como
André Malraux - Brasília - La capitale
de l'espoir (1959); Bernardo Sayão
- Bandeirante moderno (1959); Síntese
cronológica (diversos volumes, sobre o governo
JK); Discursos; etc.
A equipe do Serviço de Divulgação
da Presidência da República contou com a participação
de intelectuais e diplomatas como Donatello Grieco, Antônio
Houaiss, Raul de Sá Barbosa, Francisco de Assis Barbosa,
entre outros; e a colaboração de serviços
análogos do Senado e da Câmara, Ministério
das Relações Exteriores, Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro (IHGB), Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), Arquivo Nacional, Museu Histórico Nacional,
Fundação Casa Rui Barbosa, Ministério
da Educação e Cultura, Departamento de Correios
e Telégrafos (DCT), Fundação Brasil
Central (Fundacentro), Agência Nacional, Biblioteca
do Exército (Biblioex), Serviço Nacional de
Proteção aos Índios (SPI), Arquivo
Público de Minas Gerais, Companhia Urbanizadora da
Nova Capital (Novacap), Universidade do Recife, etc.
Desse vasto trabalho de levantamento e
documentação — direta ou indiretamente — foi
resumida a maior parte das informações encontradas
em inúmeros livros que, desde então, abordaram
a história de Brasília e de sua idéia
ao longo de épocas anteriores. Daí, provavelmente,
a característica ausência de indicação
precisa das fontes primárias, além da manutenção
de falhas e lacunas naturais aos anos 1956-1960 — como a
repetida citação de um artigo do jornal O
Universal, Ouro Preto, 1825, que na verdade transcreveu
parcialmente um artigo de Hipólito,
1816, com pequena alteração no primeiro
parágrafo e supressão de vários outros.
A redescoberta de Hipólito
era recente, e a coleção integral do Correio
Braziliense uma raridade.
Igualmente têm sido bastante utilizadas
informações da revista brasília,
publicada mensalmente pela Cia. Urbanizadora da Nova Capital
(Novacap) ao longo de toda a construção, até
1960 — a fonte do Diário de Brasília.
A coleção de recortes de
jornais e revistas da Novacap, à época da
construção — abrangendo o que não
foi reproduzido pelo governo —, infelizmente foi bastante
danificada.
Mais recentemente, foram disponibilizadas
sucessivas reedições fac-similares do Relatório
(1894) da primeira missão
Cruls.