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Agenda do Samba e Choro
  

Gordon, Flashes

Em Agosto de 1966, o jornal O Globo e toda imprensa brasileira estamparam uma notícia distribuída pela agência UPI com afirmações do ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, de que a construção de Brasília “foi financiada pela impressão de papel-moeda”, e que “foi paga por todo o povo brasileiro, que sofre os efeitos desta inflação”.

Lincoln Gordon foi ainda mais longe, calculando que a construção de Brasília teria custado “aos cofres do governo brasileiroU$ 1,6 bilhão — equivalentes, na época, a Cr$ 3,5 trilhões.

A notícia repercutiu no mundo inteiro. No Brasil, — segundo o Autor, — “longe de merecer o repúdio unânime, em nome da verdade, teve eco o mais esdrúxulo, recebido até com aplausos calorosos, que acobertavam sentimentos políticos mesquinhos de gente que pensa que pode reescrever a História, como no espantoso mundo de George Orwell”.

Quem ligava?

Olhando em retrospecto, não seria mesmo de esperar que grandes jornais, revistas e TVs se erguessem em um “repúdio unânime” às afirmações do ex-embaixador, muito menos “em nome da verdade”.

Em 1966, a ditadura implantada no Brasil pelo golpe de 1964 já entrara no terceiro ano; e esse golpe militar fôra “pedido” — todos os dias, durante 10 anos — pelos mais ferozes adversários de Juscelino Kubitschek: Carlos Lacerda, a UDN, O Globo, O Estado de S. Paulo (entre outros jornais) e a ala mais anti-JK da alta hierarquia militar da época.

O ex-presidente estava por baixo. Não conseguia, sequer, permanecer no Brasil, sem ser intimado a responder, todos os dias, aos mais humilhantes interrogatórios, que chegavam a durar 10 horas, em vários inquéritos policiais-militares (IPMs) instaurados pela ditadura.

Maurício Vaitsman — que assumiu a tarefa de desmontar o absurdo das declarações de Lincoln Gordon — não teve qualquer dificuldade em escrever a reportagem, no prazo de dois meses (Set. / Out. 1966), consultando relatórios e documentos que se encontravam à disposição de quem quisesse examiná-los.

Já a publicação, em livro, não foi tão fácil, nem rápida. Os primeiros editores em potencial, segundo ele, apenas demonstraram “falso interesse” — na realidade, “retiveram os respectivos originais durante longos meses”. O livro só veio a ser publicado quase dois anos mais tarde, em Maio de 1968, por uma obscura “Editora Posto de Serviço”.

Índice

• O livro e a verdade
   — Fernando Leite Mendes
• Ao leitor
• Os equívocos do
  ex-embaixador
• Dinheiro do Brasil
• Caso único no mundo
• Custo real de Brasília
  até 31 Dez. 1961
(Relatórios da Subcomissão de Contadores da Câmara dos Deputados)
  • 1 — Caixas Econômicas
     Federais do Rio de
     Janeiro e de São Paulo
  • 2 — Companhia
     Urbanizadora da Nova
     Capital (Novacap)
  • 3 — Fundação da Casa
     Popular
  • 4 — Grupo de Trabalho
     de Brasília (GTB)
  • 5 — Banco do Brasil
  • 6 — IPASE
  • 7 — IAPI
  • 8 — IAPFESP
  • 9 — IAPB
  • 10 — IAPETC
  • 11 — IAPC
  • 12 — Conclusões
• Sindicâncias Ordenadas pelo presidente Jânio Quadros
• Custo real de Brasília
   até 31 Dez. 1961
• Falácia da inflação
• Redescoberta do Brasil
• Pró-Brasília
• Constrói o Brasil sua
   nova capital
• Presença de Brasília
• Alma de Brasília
• Abrir estradas é por
   si só colonizar
• Capital da esperança
• Estrada das onças
• Duas lições
• Interpelação insolente
• Dois pioneiros

Bibliografia
braziliense

Conterrâneos Velhos de Guerra - roteiro e crítica - 7 Nov. 2014

Como se faz um presidente: a campanha de JK - 21 Ago. 2014

Brasília: o mito na trajetória da Nação - 9 Ago. 2014

Luiz Cruls: o homem que marcou o lugar - 30 Jul. 2014

Quanto custou Brasília - 25 Set. 2013

   

Livros sobre Brasília
Quanto custou Brasília
Maurício Vaitsman


 
Flavio R. Cavalcanti - Set. 2013

Quanto custou Brasília
Maurício Vaitsman
Editora PS, Rio de Janeiro, 1968
192 páginas

Reportagem escrita em 1966 para rebater as declarações de Lincoln Gordon, — ex-embaixador dos EUA no Brasil, — sobre custos fabulosos da construção de Brasília.

Papel-moeda

No capítulo “Dinheiro do Brasil”, Vaitsman parte do pronunciamento do deputado gaúcho Matheus Schmidt, de 5 Ago. 1966, para expor o delírio do ex-embaixador Lincoln Gordon a respeito de custos fabulosos e de fantásticas emissões de papel-moeda.

Mostra que o total acumulado de emissões de papel-moeda, em toda a história do Brasil — desde a Independência, — não passou de Cr$ 0,2 trilhão, até o penúltimo mês do governo JK.

Os dados utilizados por Vaitsman são do livro “Dinheiro no Brasil”, de F. dos Santos Trigueiros, publicado em 1966, com prefácio de Dênio Nogueira, — então, primeiro presidente [12 Abr. 1965 a 31 Mar. 1967] do Banco Central do Brasil, criado já na ditadura.

Gráfico: emissão de papel-moeda no Brasil até 1967

Hoje, esses dados podem ser conferidos com os do IBGE em “Estatísticas do século XX” — segundo os quais, aquele volume de emissão de papel-moeda citado por Lincoln Gordon em Abril de 1966, só viria a ser atingido pela ditadura, ao final de seu terceiro ano, em 31 Dez. 1967. Mas, não seriam “trilhões” pois, com a maquiagem do “Cruzeiro Novo”, retirando três zeros, ficou sendo de NCr$ 3,598 “bilhões”.

Capa do livro "Quanto custou Brasília", de Maurício Vaitsman, publicado em 1968

Contabilidade detalhada

No capítulo “Caso único no mundo”, Vaitsman resgata um fato que vinha sendo afogado sob uma avalanche de denúncias de caráter meramente político — denúncias impressionantes, recheadas de adjetivos sonoros, e implantadas no imaginário coletivo pela repetição, martelada diariamente, durante anos, por grandes jornais, revistas e TVs:

“Brasília (…) é a única cidade do mundo cuja construção pôde ser apurada sob todos os aspectos — jurídicos, políticos, técnicos, econômicos, financeiros e sociais — com o maior rigor, não só por determinação do sr. Jânio da Silva Quadros, logo que assumiu a Presidência da República, em 31 Jan. 1961, como também, e bem antes dele, por decisão da Câmara dos Deputados (…) Resolução nº 37, em Set. 1960, uma Comissão Parlamentar de Inquérito para Investigar as Condições de Construção de Brasília, Organização e Regulamentação de seus Serviços Públicos”.

O principal “conteúdo” do livro de Vaitsman, hoje, é documentar o que as investigações tinham para mostrar naquele momento — no caso específico da CPI, cuja Subcomissão de Contadores realizou um trabalho minucioso, reconstituindo até o último centavo gasto nas obras de Brasília, casa por casa, metro quadrado por metro quadrado.

Vaitsman não aborda os relatórios das outras duas subcomissões — de Engenheiros, e de Juristas — por não serem o foco do livro; mas fica registrado: — Esperam quem os pesquise.

Deixa também um rastreamento dos resultados das Comissões de Sindicância instauradas pelo governo Jânio Quadros — as recomendações, e as últimas pistas de cada relatório. Ainda aguardam que, um dia, os pesquisadores vão atrás.

Além da CPI e das Comissões de Sindicância do governo Jânio Quadros, a construção de Brasília também foi investigada por um ou vários Inquéritos Policiais Militares (IPM) do governo militar, a partir de 1964.

Dessess IPMs, no entanto, provavelmente ainda não havia resultados a registrar, em 1966.

Relatórios da Subcomissão de Contadores

Em Set. 1960 — ainda nos últimos meses do governo JK, portanto, — foi instituída na Câmara dos Deputados uma “Comissão Parlamentar de Inquérito para Investigar as Condições de Construção de Brasília, Organização e Regulamentação de seus Serviços Públicos”.

Os trabalhos da CPI prosseguiram pelos últimos cinco meses do governo JK, atravessaram os sete meses do governo Jânio Quadros e se estenderam até o governo João Goulart.

A CPI instituiu três subcomissões — de Juristas, de Engenheiros, e de Contadores — para assessorá-la nessas áreas.

A Subcomissão de Contadores — formada por Orlando Travancas, Hugo Brasil Cantanhede e Newton dos Santos Pinto (coord.) — apresentou 14 relatórios, o primeiro datado de 23 Mar. 1961 e o último de 18 Out. 1962.

Onze desses relatórios esmiúçam todo o investimento feito pelas “Caixas Econômicas Federais” do Rio de Janeiro e de São Paulo; Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap); Fundação da Casa Popular; Grupo de Trabalho de Brasília (GTB); Banco do Brasil; Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado (IPASE); e Institutos de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI); dos Ferroviários e Empregados em Serviços Públicos (IAPFESP); dos Bancários (IAPB); dos Empregados em Transportes e Cargas (IAPETC); e dos Comerciários (IAPC) — até o custo por metro quadrado construído, passando por materiais, aluguel de máquinas, taxas de administração, mão de obra, encargos sociais, alojamentos provisórios, cantinas de obra e juros.

Parece que, até hoje, ninguém encarou.

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Livros sobre Brasília
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A notícia da UPI

Lincoln Gordon declarou que a construção de Brasília foi financiada pela impressão de papel-moeda, segundo o relatório da Subcomissão de Dotações da Câmara dos Representantes.

Acho que podemos dizer que (Brasília) foi paga por todo o povo brasileiro, que sofre os efeitos desta inflação — afirmou o Subsecretário de Estado.

Gordon calculou, durante seu depoimento à Subcomissão, que a construção de Brasília custou aos cofres do governo brasileiro 1 bilhão e 600 milhões de dólares3 trilhões e 536 bilhões de cruzeiros.

Acrescentou que a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil tinha calculado um investimento de 600 milhões de dólares antes de 1º de Abril de 1960, e que desde a realização deste cálculo tinha sido gasto mais de 1 bilhão de dólares na nova capital [trecho reproduzido de O Globo: Vaitsman, p. 11].

Terá somado a folha de salários do governo, — que antes, se “gastava” no Rio? Seria isto um “gasto com” (ou um “gasto em”) Brasília?

Nesse meio-tempo, o governo Jânio, sabe-se, não investiu nada na nova capital. O governo João Goulart, cuja primeira metade não foi de sua responsabilidade? O governo “revolucionário” da Ditadura? Vai saber.

Lincoln Gordon

Lincoln Gordon foi nomeado embaixador no Brasil pelo presidente John F. Kennedy em Agosto de 1961, quando a política externa de Jânio Quadros — independente, não-alinhada aos Estados Unidos — já despertava inquietações entre a ala golpista do alto comando militar brasileiro, Lacerda, UDN etc.

No dia seguinte à indicação de Lincoln Gordon, Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, jogando o Brasil numa crise política “civil-militar”, com o vice-presidente João Goulart — intragável aos generais golpistas — do outro lado do planeta, em visita oficial à China comunista.

Embora rapidamente aprovado pelo Congresso norte-americano, Lincoln Gordon só entregou suas credenciais ao governo brasileiro em Outubro de 1961, — quando a crise “civil-militar” já estava provisoriamente resolvida. — E permaneceu à frente da Embaixada até Fevereiro de 1966, às vésperas do segundo aniversário da ditadura que ajudou a implantar no Brasil.

Desde 1962, Lincoln Gordon e John F. Kennedy já tinham acertado claramente as diretrizes de intervenção na política brasileira, financiando candidatos de oposição, jornais, manifestações, movimentos, institutos (IBAD, IPES), governadores contrários ao presidente João Goulart — como Carlos Lacerda, na Guanabara (ex-DF), entre outros.

Também data de 1962, por coincidência, o acordo entre o jornal O Globo e o grupo Time-Life para implantação das primeiras emissoras de TV que dariam origem à Rede Globo, e que se desenvolveu rapidamente após o golpe militar de 1964.

Juntamente com Vernon Walters, — adido militar, que conhecia muitos generais do alto comando brasileiro, como Castelo Branco, desde a campanha da FEB na Itália durante a II Guerra Mundial, — Lincoln Gordon coordenou o apoio e incentivo dos EUA aos altos oficiais envolvidos na conspiração contra o governo constitucional de João Goulart.

No momento do golpe militar, esse apoio — coordenado por Lincoln Gordon — incluiu a “Operação Brother Sam”: o envio de uma frota de guerra (com armamento nuclear) para o litoral do Espírito Santo, onde deveria, entre outras coisas, fornecer combustíveis pela Estrada de Ferro Vitória a Minas para as tropas rebeladas no interior de Minas Gerais, na eventualidade de as forças favoráveis ao governo constitucional de João Goulart bloquearem o abastecimento a partir do Rio de Janeiro.

Após dois anos de implantação da ditadura, Lincoln Gordon foi chamado de volta aos Estados Unidos e nomeado Subsecretário de Estado para Assuntos da América Latina. Nesta condição, compareceu em Abril de 1966 à Subcomissão de Dotações da Câmara dos Representantes, onde fez suas declarações a respeito da construção de Brasília.

Embora prestasse depoimento em uma sessão secreta, o relatório “vazou”, e a notícia foi distribuída pela UPI para o mundo inteiro.

Inclusive para O Globo, do Rio de Janeiro.

  

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