Sílvio Romero, 1910
O reverso do embelezamento

in Provocações e debates, Rio de Janeiro, 1910, p. 179
[cf. AH2:90]

Os afamados embelezamentos do Rio têm o seu reverso: ajudaram a montar os nossos compromissos estrangeiros a cerca de 120 milhões esterlinos, soma formidável, e encalacraram o município sob o despotismo duma dívida de que se não libertará em 150 ou 200 anos. Não é só. Reduzistes a cidade a um monstrengo, a uma espécie de lanterna de duas cores, na frase de chistoso escritor — uma para as largas ruas e outra para as travessas e ruelas mais feias e lôbregas que é dado imaginar.

Era, além disto, cedo para o fausto de obras de luxo num país mergulhado em negra miséria, cheio de velhas aldeias e pequenas cidades de leproso estilo colonial.

Com as avultadíssimas quantias gastas tínheis levantado no planalto a capital brasileira, a que sois obrigados pela Constituição da República.

Ainda há mais.

Não tivestes tempo de olhar para um mapa, estudar as zonas produtoras do país e ver os escoadoiros fatais das riquezas dessas zonas.

Se o tivésseis feito, haveríeis notado quais os portos de nossa costa destinados a largo desenvolvimento.

Cada um deles tem atrás de si vasta região produtora, de que é e será, cada vez a mais, a saída natural.

Não é a nós que incumbe o dever de dar-vos lições; procurai inteirar-vos por vós mesmos. Mas vêde bem que a produção de todo São Paulo, a que já se liga a de Goiás, a do triângulo mineiro e se ligará em breve a de Mato Grosso, demanda o porto de Santos, destinado a extraordinário futuro. A da mata mineira, a de todo o leste do grande Estado e das regiões circunvizinhas do próprio Estado do Rio de Janeiro, com o desenvolvimento das estradas de ferro iniciadas, escorrerá fatalmente para Vitória.

A nossa bela capital, sem recôncavo, encravada num pequeno e decadente Estado, que se estende em forma de arco, geograficamente o mais desgracioso e desarticulado de todo o Brasil, comprimido pelos dois colossos de São Paulo e Minas e pelo feracíssimo Espírito Santo, a nossa capital, desprotegida numa vasta zona agrícola que lhe guarde, por assim dizer, as costas, encurralada na satrapia devastada pelas correrias do Sr. Nilo Pessanha, ficará mera cidade oficial, espécie de medalhão decorativo para gáudio de basbaques.

 

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Café com leite | Ordem do dia | O reverso do embelezamento | A onça e a Avenida
Brasília nos planos ferroviários (DF)
Ferrovias concedidas do plano de 1890 | EF Tocantins | Cia. Mogiana | Ferrovia Angra-Catalão | EF Goiás | Ferrovia Santos - Brasília
O prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil | A ferrovia da Cia. Paulista | Ferrovias para o Planalto Central | Documentação
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