Conforto e segurança
na ligação ferroviária
Rio - Brasília - São Paulo
Revista "Refesa", Set-Out 1968, p. 19-20
Acervo: José Emílio Buzelin
(SPMT) / Pesquisa
e digitalização: Christoffer R.
Uma das perguntas mais comuns a quantos ouvem falar que já se
pode ir de trem, do Rio e São Paulo e Brasília, é
a do tempo a isso necessário. Ao saber que a demora, atualmente,
é de trinta e nove horas, com tendência a menos, indaga-se,
logo, o tipo de composição e a natureza da bitola. A resposta
de que, em se tratando de passageiros, cuidou-se de suavizar a longa distância
(1.547 km, do Rio), em velocidade moderada, com o máximo de conforto,
satisfaz a todos. Mas a revelação de que o trecho novo construído,
de Pires do Rio a Brasília, de 247 quilômetros de extensão,
é todo de bitola estreita, causa, sempre, profunda estranheza.
Parece-lhes, à primeira vista, que uma ferrovia moderna deveria
equivaler aos padrões usuais na Europa e Estados Unidos, onde a
bitola é larga, embora padronizada em menos de 1,60 m comum à
ligação Rio - São Paulo - Belo Horizonte.
O porquê
Uma análise mais cuidadosa, entretanto, conclui que a solução
adotada foi, realmente, a melhor. Ocorre que as maiores extensões
dos trechos intermediários, quer pela estrada de ferro Mogiana,
a partir de Campinas, quer pela Viação Férrea Centro-Oeste,
desde Barra Mansa, são de bitola métrica. Desse modo, ou
se implantaria a bitola larga a partir das referidas cidades — alternativa
inteiramente impraticável devido ao custo da obra, ao prazo exigido
e às implicações relativas ao transporte durante
o período das obras — ou se aplicaria a bitola estreita no novo
trecho, a partir de Pires do Rio (Goiás), em condições
adequadas à implantação paralela da larga a qualquer
momento, solução preferida e levada em conta nos trabalhos
de terraplenagem, lançamento de dormentes e preparo da infra-estrutura.
Tal decisão, além do mais, permitiu que se processe uma
única baldeação, via Minas ou via São Paulo,
em Barra Mansa ou Campinas, eliminando-se, em conseqüência,
os inconvenientes contratempos de freqüentes trocas de trens.
Conforto
No que se relaciona com o conforto dos passageiros, tão logo se
regularizem as viagens para a capital da República, o que se dará
antes do fim do ano, na dependência, apenas, de parecer técnico
dos engenheiros quanto à complementação das condições
de segurança, tudo foi previsto segundo os melhores padrões
internacionais. A ligação Rio - São Paulo - Brasília
se processará — a exemplo dos trens pioneiros que coincidiram com
a festa de oitavo aniversário da capital — em modernas composições
de aço e equivalentes, dotadas de carros-leito revestidos de fórmica,
com ar condicionado, restaurante e salão de estar. Os carros-poltrona
dispõem de cadeiras "pulmann" giratórias, janelas
panorâmicas, perfeita estabilidade, água filtrada e sanitários
condizentes, com iluminação fluorescente e focos individuais,
próprios para leitura. Cogita-se, ainda, nessas composições,
de estabelecer o serviço de comissárias de bordo, iniciativa
já concretizada em alguns trechos intermediários da Central
do Brasil e da Mogiana.
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A ligação Rio - São Paulo - Brasília será
feita em modernos trens dotados de carros de aço, com ar refrigerado
e tudo o mais.
Na mesma edição...
p. 31
O diretor geral do Departamento Nacional de Estradas
de Ferro, engenheiro Horácio Madureira, esteve em visita
de inspeção às obras ferroviárias do
trecho Pires do Rio - Brasília, cuja consolidação
está sendo ultimada. O tráfego de trens de passageiros
para Brasília será totalmente liberado a partir de
dezembro.
p. 30
De trem até Brasília
A história é curta: na estação
Barão de Mauá, enquanto o maquinista distraído
tomava um cafezinho e contava o seu dinheiro, um árabe descalço,
que atende pelo nome de Samy Mikhail Ibrahim, saltou para a máquina
e pôs o trem UL-83, da Leopoldina, suburbano, em pleno movimento.
O maquinista José Bernardo Pinto, percebendo
a manobra do intruso, já com a composição andando,
deu um salto para a cabina e atracou-se com Ibrahim, de 30 anos,
ajudado por um policial, dominando-o.
O árabe, que estava pensando em realizar
uma façanha de cinema, foi conduzido ao posto policial, sem
nenhum jeito de "mocinho". Bem vestido, com barbas intencionais
apesar de descalço, fez declarações à
autoridade. Chegou ao Brasil em dezembro de 1967, empregando-se
em uma fábrica de automóveis em São Paulo.
Na semana passada viera ao Rio para visitar especialmente a estátua
do Cristo Redentor, onde deixou o seu par de sapatos. Quando estava
na estação Barão de Mauá teve uma inspiração.
Apropriar-se do trem UL-83 para ir a Brasília, que não
conhecia, e na capital federal falaria com a rainha Elizabeth, secretamente.
O homem que desejava conhecer Brasília
e admirar a arquitetura brasileira foi encaminhado ao DOPS. Em seu
poder havia moeda inglesa e passaporte em francês e árabe.
Ibrahim afirmou ser um frustrado, mas insiste em que irá
a Brasília, de trem, e para tanto conta com a proteção
do Cristo Redentor, que desta vez não lhe faltará.
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