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Ferrovias para Brasília - 1968
Conforto e segurança na ligação ferroviária Rio - Brasília - São Paulo

Revista "Refesa", Set.-Out. 1968, p. 19-20
Acervo: José Emílio Buzelin (SPMT) / Pesquisa e digitalização: Christoffer R.

A reportagem oficial (abaixo) começa por sugerir que “já se pode ir de trem a Brasília”, em franca contradição com as informações publicadas pelo prof. Délio Araújo naquele mesmo momento, em outra revista. Uma pequena nota (à direita) confirma que, de fato, só para Dezembro de 1968 estava previsto o início dos trens regulares até Brasília. Maior destaque, porém, dava-se a um episódio anedótico, cujo título também sugeria a existência de trem para Brasília.

“Uma das perguntas mais comuns a quantos ouvem falar que já se pode ir de trem, do Rio e São Paulo e Brasília, é a do tempo a isso necessário. Ao saber que a demora, atualmente, é de trinta e nove horas, com tendência a menos, indaga-se, logo, o tipo de composição e a natureza da bitola. A resposta de que, em se tratando de passageiros, cuidou-se de suavizar a longa distância (1.547 km, do Rio), em velocidade moderada, com o máximo de conforto, satisfaz a todos. Mas a revelação de que o trecho novo construído, de Pires do Rio a Brasília, de 247 quilômetros de extensão, é todo de bitola estreita, causa, sempre, profunda estranheza. Parece-lhes, à primeira vista, que uma ferrovia moderna deveria equivaler aos padrões usuais na Europa e Estados Unidos, onde a bitola é larga, embora padronizada em menos de 1,60 m comum à ligação Rio - São Paulo - Belo Horizonte.

Trem de aço inox da bitola métrica para Brasília
A ligação Rio - São Paulo - Brasília será feita em modernos trens dotados de carros de aço, com ar refrigerado e tudo o mais.

“O porquê

“Uma análise mais cuidadosa, entretanto, conclui que a solução adotada foi, realmente, a melhor. Ocorre que as maiores extensões dos trechos intermediários, quer pela estrada de ferro Mogiana, a partir de Campinas, quer pela Viação Férrea Centro-Oeste, desde Barra Mansa, são de bitola métrica. Desse modo, ou se implantaria a bitola larga a partir das referidas cidades — alternativa inteiramente impraticável devido ao custo da obra, ao prazo exigido e às implicações relativas ao transporte durante o período das obras — ou se aplicaria a bitola estreita no novo trecho, a partir de Pires do Rio (Goiás), em condições adequadas à implantação paralela da larga a qualquer momento, solução preferida e levada em conta nos trabalhos de terraplenagem, lançamento de dormentes e preparo da infra-estrutura. Tal decisão, além do mais, permitiu que se processe uma única baldeação, via Minas ou via São Paulo, em Barra Mansa ou Campinas, eliminando-se, em conseqüência, os inconvenientes contratempos de freqüentes trocas de trens.

“Conforto

“No que se relaciona com o conforto dos passageiros, tão logo se regularizem as viagens para a capital da República, o que se dará antes do fim do ano, na dependência, apenas, de parecer técnico dos engenheiros quanto à complementação das condições de segurança, tudo foi previsto segundo os melhores padrões internacionais. A ligação Rio - São Paulo - Brasília se processará — a exemplo dos trens pioneiros que coincidiram com a festa de oitavo aniversário da capital — em modernas composições de aço e equivalentes, dotadas de carros-leito revestidos de fórmica, com ar condicionado, restaurante e salão de estar. Os carros-poltrona dispõem de cadeiras "pulmann" giratórias, janelas panorâmicas, perfeita estabilidade, água filtrada e sanitários condizentes, com iluminação fluorescente e focos individuais, próprios para leitura. Cogita-se, ainda, nessas composições, de estabelecer o serviço de comissárias de bordo, iniciativa já concretizada em alguns trechos intermediários da Central do Brasil e da Mogiana.”

 

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Ferrovias concedidas do plano de 1890 | EF Tocantins | Cia. Mogiana | Ferrovia Angra-Catalão | EF Goiás | Ferrovia Santos - Brasília
O prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil | A ferrovia da Cia. Paulista | Ferrovias para o Planalto Central | Documentação
   

Na mesma edição...

p. 31

“O diretor geral do Departamento Nacional de Estradas de Ferro, engenheiro Horácio Madureira, esteve em visita de inspeção às obras ferroviárias do trecho Pires do Rio - Brasília, cuja consolidação está sendo ultimada. O tráfego de trens de passageiros para Brasília será totalmente liberado a partir de dezembro.”

p. 30

“De trem até Brasília

“A história é curta: na estação Barão de Mauá, enquanto o maquinista distraído tomava um cafezinho e contava o seu dinheiro, um árabe descalço, que atende pelo nome de Samy Mikhail Ibrahim, saltou para a máquina e pôs o trem UL-83, da Leopoldina, suburbano, em pleno movimento.

“O maquinista José Bernardo Pinto, percebendo a manobra do intruso, já com a composição andando, deu um salto para a cabina e atracou-se com Ibrahim, de 30 anos, ajudado por um policial, dominando-o.

“O árabe, que estava pensando em realizar uma façanha de cinema, foi conduzido ao posto policial, sem nenhum jeito de "mocinho". Bem vestido, com barbas intencionais apesar de descalço, fez declarações à autoridade. Chegou ao Brasil em dezembro de 1967, empregando-se em uma fábrica de automóveis em São Paulo. Na semana passada viera ao Rio para visitar especialmente a estátua do Cristo Redentor, onde deixou o seu par de sapatos. Quando estava na estação Barão de Mauá teve uma inspiração. Apropriar-se do trem UL-83 para ir a Brasília, que não conhecia, e na capital federal falaria com a rainha Elizabeth, secretamente.

“O homem que desejava conhecer Brasília e admirar a arquitetura brasileira foi encaminhado ao DOPS. Em seu poder havia moeda inglesa e passaporte em francês e árabe. Ibrahim afirmou ser um frustrado, mas insiste em que irá a Brasília, de trem, e para tanto conta com a proteção do Cristo Redentor, que desta vez não lhe faltará.”

     

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