Prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil: 1912
O Plano da Borracha
Maria Lígia Coelho Prado e Maria Helena Rolim Capelato
(USP).
A borracha na economia brasileira da primeira República.
in História Geral da Civilização Brasileira,
Boris Fausto (org.), tomo III — O Brasil republicano, vol. 1 —
Estrutura de poder e economia (1889-1930), 4ª ed., São
Paulo, Difel, 1985
« Em 1912, o governo idealizou um Plano de Defesa da Borracha,
preconizando transformações fundamentais para a região.
Este plano, organizado pelo Poder Executivo, seguindo sugestões
dos governos do Pará e do Amazonas, foi submetido à
apreciação do Congresso Nacional em setembro de 1911,
quando se nomeou uma comissão especial para estudar a questão.
O projeto elaborado foi apresentado à Câmara em dezembro
de 1911, com um longo histórico da situação
da borracha e dos problemas por ela enfrentados. A concorrência
da Ásia foi o dado mais salientado, advertindo-se que dentro
de poucos anos não haveria mais solução para
a produção brasileira, se medidas enérgicas
não fossem tomadas.
A comissão observou que não se tratava de uma tentativa
de valorização do produto — a borracha não
tinha até aquele momento causas naturais de depreciação
— e sim de um plano de defesa, já que a borracha vinha sendo
objeto de audaciosa especulação dentro e fora do país,
em prejuízo do produtor e do comerciante da Amazônia.
o que o plano pretendia era obter nos mercados mundiais cotações
que fossem ditadas pelas necessidades do consumo [Congresso
Nacional, Anais da Câmara dos Deputados, vol. IX, 1911, Rio
de Janeiro, Tipografia do Jornal do Comércio, 1915].
O decreto nº 1543A de 5 de janeiro de 1912 estabeleceu medidas
destinadas a facilitar e desenvolver a cultura da seringueira, do
caucho, da maniçoba e da mangabeira e a colheita e o beneficiamento
da borracha extraída dessas árvores, ficando o Poder
Executivo autorizado não só a abrir os créditos
necessários à execução de tais medidas,
mas ainda a fazer as operações de crédito que
para isso fossem necessárias [Documentos
Parlamentares — Política Econômica — Defesa da Borracha
— 1906-1914, Rio de Janeiro, 1915].
Resumidamente, eis as medidas preconizadas:
-
Isenção de impostos de importação
a todo material destinado à cultura das seringueiras.
-
Instituição de prêmios aos
plantadores de seringueiras, caucho, maniçoba e mangabeira.
-
Criação de sete estações
experimentais de seringueiras (Acre, Mato Grosso, Amazonas,
Pará, Maranhão, Piauí e Bahia) e nove estações
para a maniçoba e a mangabeira (Piauí, Ceará,
Rio Grande do Norte ou Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, São
Paulo, Goiás, Paraná e Mato Grosso).
-
Subvenção a 9 usinas de refinamento
e 5 manufaturas de borracha.
-
Construção de 3 hospedarias de
emigrantes (Belém, Manaus e Acre) e de colônias
agrícolas e hospitais.
-
Construção de estradas
de ferro de bitola estreita ao longo dos rios Xingu, Tapajós
e outros (Pará, Mato Grosso) e rios Negro, Branco e outros
(Amazonas).
-
Construção de uma via
férrea central, ligando a estrada de ferro Madeira-Mamoré
às fronteiras do Peru.
-
Construção de uma estrada
de ferro de Belém a Pirapora, no Estado de Minas,
com ramificações diversas.
-
Execução de trabalhos para tornar
navegáveis, em todas as estações, os rios
Negro, Branco, Purus e Acre.
-
Isenção de todos os impostos às
embarcações de qualquer gênero destinadas
à navegação fluvial.
-
Criação de depósitos de
carvão de pedra em diversos portos do vale do Amazonas
(para o abastecimento dos vapores e lanchas).
-
Promoção e auxílio à
criação de centros produtores de gêneros
alimentícios no vale do Amazonas: criação
de gado, cultura de cereais, estabelecimento de charqueadas,
fábricas de lacticínios, engenhos de beneficiar
arroz, fábricas de farinha de mandioca.
-
Criação de uma empresa de pesca,
salga e conserva de peixe.
-
Revisão das leis relativas à concessão
e venda de terras.
-
Organização, a cada três
anos, de exposições de borracha no Rio de Janeiro.
-
Redução das taxas de exportação
da borracha do Pará, Amazonas, Acre e Mato Grosso.
-
Estabelecimento das mesmas vantagens em relação
à borracha do Acre.
-
Abertura dos créditos necessários,
a cada ano, para inteira execução da lei [Paul
Le Cointe faz comentários interessantes sobre o assunto
em sua obra L'Amazonie Brésilienne — Le pays — Ses habitants
— Ses resources — 2 vol., Paris, Librairie Maritime et Coloniale,
1922].
O projeto foi aprovado por unanimidade, sem discussões.
Entretanto, alguns meses depois, em julho de 1912, o senador paulista
Francisco Glicério pronunciou um discurso na Câmara
dos Deputados contra o plano de defesa, alegando que as despesas
seriam muito elevadas.
O deputado amazonense Luciano Pereira refutou calorosamente tais
argumentações, procurando mostrar o motivo pelo qual
se tentava impedir a realização do plano. Denunciou
a força política dos representantes dos Estados do
Sul, que defendiam principalmente os interesses do café.
Apontou para a atitude
incoerente de Glicério, que, após ter votado a
lei de proteção à borracha, sem restrições,
vinha depois criticá-la.
Afirmava: "... se em vez de beneficiar o Norte a lei fosse
em benefício do Sul, estou certo que o nobre senador nada
tinha a opor-lhe, achando talvez s. exª ainda poucas as medidas
nela configuradas... é por motivos iguais a este que se diz
ter sido até hoje a União mãe para o Sul e
madrasta para o Norte... o governo quis fazer exceção
a esta praxe odiosa e s. exª acha que ela ainda deve perdurar
por mais tempo [Congresso Nacional,
Anais da Câmara dos Deputados, vol. V, 1912, Rio de Janeiro,
Tipografia do Jornal do Comércio, 1915].
O deputado amazonense indignava-se contra o fato de que Francisco
Glicério, representante de um dos mais poderosos Estados
do Sul, criava embaraços a uma lei, de cuja execução
dependia a vida econômica do Norte. Lembrava, ainda, que por
ocasião da crise do café, os deputados do Norte votaram
a lei que autorizou o governo federal a endossar o empréstimo
de 15 milhões de libras esterlinas para amparar essa lavoura;
indagava por que a borracha, na situação difícil
em que se encontrava, não devia merecer a mesma proteção
que fora dispensada ao café.
Apesar das queixas, quando a borracha deixou de alcançar
altos preços no mercado internacional e surgiram as primeiras
dificuldades na exploração da goma, não se
despenderam esforços para uma tentativa de salvá-la,
pois o café, nesse período, representava o núcleo
da economia brasileira e atraía para si todas as atenções;
aos representantes dos Estados cafeeiros era fácil fazer
com que os favores da União para eles convergissem, deixando
de lado as necessidades dos distantes e inexpressivos Estados do
Norte. »
|
|
|