Brasília e o Plano Nacional de Viação
Prolongamento da linha tronco
da Estrada de Ferro Central do Brasil
como ligação norte-sul do país
Projeto Paulo de Frontin - Sugestões
Joaquim Ayres da Silva
Revista
Ferroviária, Julho 1961, p. 43-45
Acervo: José Emílio
Buzelin (SPMT)
/ Pesquisa e digitalização: Chris R.
Este artigo ou discurso do início da década de 1960 registra as questões então colocadas em torno da Estrada de Ferro Central do Brasil, inclusive a permanência do projeto de ligação ferroviária norte-sul do País, unindo o planalto central (Brasília) a Belém do Pará. A referência ao governo JK como "o
atual governo" sugere demora na publicação,
sem revisão / atualização. Em seguida, refere-se
a sugestões do DNEF para adaptação do plano
viário à realidade da nova capital, e que teriam sido
publicadas pela Revista Ferroviária "em junho p. passado";
poderia ser de 1961, caso tenha havido atualização
nesse ponto do texto.
A mudança da sede do governo da República para o
planalto central de Goiás veio focalizar com maior intensidade
o velho problema das ligações ferroviárias
para o interior, dado que na atual situação o acesso
à nova capital se torna assaz importante.
Mui freqüentemente o pensamento dos responsáveis pela
condução da administração do país
gira em torno da preocupação de não tumultuar
o ambiente político-administrativo, relegando para um plano
secundário questões de grande interesse público,
no pressuposto de que as mesmas poderiam constituir uma aventura,
cujas conseqüências nem sempre faturariam saldos positivos
aos remanescentes de suas atuações.
Sem embargo, a atitude singular do atual presidente da República,
situando com grande coragem pessoal e objetividade os assuntos nacionais
dentro da sua real importância em grandeza e atualidade, foi
sem dúvida o fator primordial de sucesso do seu governo.
Suas metas se encontram perfeitamente integradas no equacionamento
de problemas conhecidos e preponderantes na conjuntura dos interesses
do país, pensados e estudados por outros idealistas, nem
sempre ouvidos e compreendidos pelo ambiente adverso em que se agitaram;
e não obtiveram ressonância favorável às
soluções aventadas.
Não é pequeno, todavia, o mérito do presidente
quando, tão seguramente, reagiu contra as fortes correntes
dos pessimistas e dos descrentes e encaminhou as suas realizações
no sentido da construção de Brasília e outras
obras de acentuado alcance progressista.
Cumprido esse primeiro estágio de realizações,
outros problemas decorrentes virão surgindo naturalmente,
para os quais convém sejam encaminhadas fórmulas do
mesmo alcance e dentro da perspectiva razoável, no sentido
de que, se a solução não possa ser a ideal
ou a definitiva, não venha trazer complicações
futuras, quando a oportunidade se apresente mais propícia.
O Plano Geral de Viação seria, no momento, objeto
de cogitação quanto à sua modificação
em face das contingências do momento atual.
Organizado em 1943 [1934]
por uma comissão de engenheiros de alto padrão profissional
como sejam Arlindo Luz, Francisco de Monlevade, Caetano Lopes Júnior,
José Luís
Batista, Assis Ribeiro, Moacir Silva, Arthur Castilho e Oscar
Weinschenck e que foi, a bem dizer, a resultante de várias
tentativas anteriores, das quais podem se destacar os planos Rebouças,
Bicalho, Bulhões,
Paulo de Frontin, já
de um certo modo encaminhou as soluções
acertadamente, mesmo porque era cogitação naquele
tempo a centralização da capital
da federação.
Nessas condições, as tentativas do engenheiro Edson
Passos [deputado, relator do projeto de 1956]
no sentido de reformá-lo resultaram inúteis porque
não lhe foi possível apresentar cousa melhor como
esquema de conjunto.
Certo os elaboradores do referido plano além da localização
da nova capital onde no momento se situa, admitiram também
a tendência para a formação
de rede, pela lógica de que este método concorre
para distribuição mais equitativa e uniforme das atividades
industriais e núcleos populacionais.
Considerando a necessidade das ligações diretas da
nova capital aos dois centros mais importantes do país, São
Paulo e Rio de Janeiro, não há menor dúvida
que as iniciativas mais indicadas serão o prolongamento da
Central do Brasil de Pirapora, com bitola larga, conforme já
está sendo providenciado, e o prolongamento da estrada de
ferro Paulista, de Colômbia a Brasília, passando por
Goiânia. O prosseguimento da Estrada de Ferro Goiás
até Brasília será uma realização
derivativa do seu avançamento até a cidade de Anápolis,
a 150 quilômetros da nova capital.
Essa ferrovia, tanto quanto a estrada de ferro Mogiana da qual
é uma complementação, como ligação
de São Paulo àquele estino, necessitarão, uma
e outra, já no que se refere às retificações
dos seus traçados e condições técnicas,
melhoramentos nas suas superestruturas, ampliações
tais como pátios de manobras e de cruzamentos; e mesmo quanto
ao estado de conservação de suas vias permanentes
de uma completa remodelação.
Nessas condições, aquelas ferrovias estarão
em ordem de atenderem eficazmente as zonas populosas e acentuadamente
desenvolvidas, atualmente bastante carecentes da regularidade dos
seus serviços.
Outras sugestões certamente aparecerão no tocante
a outras ligações para diferentes Estados, sendo que
o plano ferroviário vigorante poderá ser um poderoso
orientador para as novas obras programadas.
A Revista Ferroviária, no seu número de junho p.
passado publica sugestões apresentadas pelo Departamento
de Estradas de Ferro referentes às alterações
do Plano Geral de Viação, levando em conta a localização
da nova capital da República.
No que se refere ao tronco principal norte a sugestão é
chocante, por se tratar de uma ligação de primordial
importância, que vem a ser a ligação de Brasília
a Belém, ou o prolongamento da verdadeira linha tronco da
Central do Brasil que, no conceito de Paulo de Frontin, constitui,
com a Noroeste do Brasil, os eixos das ordenadas e abcissas do sistema
ferroviário do Brasil.
O fato de se pretender levar essa ligação a Peixe,
nas barrancas do Tocantins, não somente constitui uma medida
improfícua, para o momento, como criará uma seqüência
de dificuldades para quando se tornar necessário o seu prosseguimento.
Seja a hipótese o aproveitamento do Tocantins como rio navegável.
Ela se torna bastante precária; porquanto aquele caudal,
sob esse aspecto, depende de melhorias a serem programadas pelos
nossos técnicos no assunto. Segundo tudo indica, aquele rio,
cujo acesso representa ainda uma aventura perigosa, possui no mínimo
quatro obstáculos efetivando sérios impedimentos à
sua utilização como via natural de transporte, sendo
que um deles, a "Carreira Comprida", se encontra logo
a cerca de 180 quilômetros a jusante daquela localidade.
O que o bom senso estaria a indicar seria o encaminhamento do projeto
de Paulo de Frontim que em 1911,
no seu relatório que como diretor da EF Central do Brasil
apresentou ao ministro da Viação e Obras Públicas,
aconselhava o que nesta oportunidade está sendo parcialmente
executado.
Naquela época o ilustre engenheiro informava:
"De Pirapora, a linha atravessa, a jusante
da cachoeira do mesmo nome, o rio São Francisco, com uma
ponte de 420 metros, galga o divisor das águas deste rio
e do seu afluente o Paracatu, o qual é atravessado acima
da cachoeira Grande, segue pelo vale deste rio até a barra
do rio Preto, por cujo vale se desenvolve a fim de galgar o planalto
central, atingindo aí as proximidades da cidade de Formosa,
situada no limite leste do território demarcado para a futura
capital da República.
Perto de Formosa alcança a linha as cabeceiras
do rio Paranã e por este vale até a sua barra no Tocantins
passando na cidade de Palma [Paranã].
Em seguida acompanha o traçado a margem
direita do rio Tocantins até Imperatriz, passando em Porto
Nacional, Carolina e Porto Franco da Boa Vista.
De Imperatriz a linha vence o diisor entre o rio
Tocantins e as cabeceiras dos rios Gurupi e Capim, seguindo pelo
vale deste e do Guamá até a cidade de Belém
do Pará.
As condições técnicas fixadas
nas instruções foram de 0,5% como rampa máxima,
de 500 metros como raio mínimo e, excepcionalmente, 1% como
rampa máxima e 300 metros como raio mínimo, nas zonas
de divisa de águas.
A bitola preferível seria a normal de 1,44
m; como, porém, foi adotada entre nós a de 1,60 m,
será o projeto organizado para bitola larga, sendo assim
fácil oportunamente ser reduzida para a bitola normal, caso
não seja desde logo esta adotada.
Aceita a bitola larga ou a normal, deverá
ser alargada a bitola de Belo Horizonte a Pirapora, na extensão
de cerca de 400 quilômetros a fim de se evitar baldeações.
Na linha tronco deverá ligar-se a Estrada
de Ferro São Luís a Caxias, prolongada a Carolina
ou a Porto Franco da Boa Vista.
Deverá também ser estudado um ramal
de Palmas [Paranã]
a Barreiras, ponto terminal da navegação do rio Grande,
afluente do São Francisco, a fim de dar comunicação
com a cidade e porto da Bahia, visando outrossim ser a construção
atacada, além dos dois pontos extremos, a partir de Palma
para o norte e para o sul.
Igualmente deverá ser estudado um ramal
para Santa Filomena, ligando assim a linha tronco com a navegação
do rio Parnaíba."
Na escolha do traçado foi adotado como acesso de penetração
o divisor de águas dos rios São Francisco e Tocantins,
quer na subida do vale do rio Preto, quer na descida pelo vale do
Paranã, deixando à direita os contrafortes da serra
Geral, cujo divisor de águas principal demarca os limites
entre os Estados de Goiás e Bahia, formando o sistema em
que se encontram integradas as serras dos Veadeiros, Cavalcante,
São Domingos, Arraias, Taguatinga, São José
do Douro, Ponte Alta e Carmo.
O acompanhamento desses contrafortes de certo modo favorece a construção
por reduzir a formação de afluentes de grande voluem
de água, diminuindo conseqüentemente o número
de obras de arte.
Nos estudos efetuados em 1911, foi verificada a necessidade das
seguintes construições:
No trecho entre Pirapora e Palma [Paranã],
quatro túneis, tendo o maior o comprimento de 160 metros,
e dois viadutos, tendo respectivamente 140 e 120 metros de vão;
sendo as pontes mais importantes sobre o rio Paracatu, com 300 metros
de vão, sobre o rio do Sono, com 170 metros, e sobre o rio
Paranã, com 60 metros;
No trecho de Palma [Paranã]
a Carolina, as obras de arte principais seriam quatro pontes: sobre
o rio Palma, com 150 metros de vão, sobre o Manoel Alves
Pequeno, com 100 metros, sobre o Manoel Alves Grande com 150 metros
e sobre o rio do Sono com 200 metros de vão.
No trecho de Carolina a Belém, as obras mais notáveis
seriam a ponte sobre o rio Guamá, com 330 metros, e quatro
pontes de 50 metros de vão sobre os rios Inhamgahi, Arraiais,
Lageado e Itaneiras. No projeto, nesse trecho há um único
túnel de 120 metros de comprimento, na serra divisória
das águas do Tocantins, Gurupi e Capim.
A manutenção do traçado estabelecido torna-se
ainda de alguma importância não somente por atravessar
uma zona realmente salubre onde já se fixou uma população
pioneira ali localizada desde tempos coloniais com as levas de exploradores
de ouro, que é de ocorrência freqüente naquelas
regiões, como também porque há abundância
de terras de cultura cujos elementos minerais férteis da
sua for[ma]ção
são permanentemente mantidos pelo trabalho erosivo na mesma
serra geral. As riquezas minerais são promissoras, havendo
já sido identificadas reservas exploráveis de produtos
minerais metálicos e não metálicos. O critério
adotado para escolha do traçado levava em conta principalmente
os fatores mencionados, bem como o de existir em todo trecho goiano
a possibilidade de obtenção de recursos não
só de mão de obra como de abastecimento para alimentação
das turmas de serviço.
Muito embora as condições de trabalho tenham se modificado
grandemente nos tempos atuais, esse critério deve prevalecer,
acrescendo ainda o beneficiamento dos habitantes da região
que hoje constituem núcleos populacionais assaz freqüentes.
A sugestão referida acima de prolongamento desta linha até
Peixe provoca um problema de futuro, visto que o seu prosseguimento,
que será um conseqüente natural, obrigaria o acompanhamento
da caudal do Tocantins num trecho onde o grande número de
seus afluentes, já bastante crescidos em seu volume de água,
acarretaria uma dispendiosa execução em obras de arte.
A solução mais indicada seria conduzir o traçado
mais ou menos afastado do leito do grande rio até as proximidades
de Porto Nacional, quando as ramificações da serra
Geral a isso obrigariam, criando todavia condições
que muito favoreceriam a sua construção; bem como
proporcionaria uma ligação de contorno nos trechos
encachoeirados do sistema Mares, lageado e Funil e no trecho de
Santo Antônio que constituem obstáculos apreciáveis
às comunicações entre o alto e baixo Tocantins.
O traçado mais conveniente até aquela cidade seria
uma linha que, partindo de Brasília, passasse por Planaltina,
Veadeiros, Cavalcante, Paranã, Natividade e Porto Nacional.
Outras modificações poderiam ser introduzidas quanto
às variantes indicadas pelas contingências locais e
recursos técnicos já agora existentes, no sentido
da obtenção de um melhor traçado.
Como plano diretor, deverá prevalecer a escolha já
feita, porquanto, citando as palavras do próprio Paulo de
Frontin, no relatório referido acima, "o alto valor
estratégico, administrativo e econômico deste prolongamento,
que constitui o grande elo das relações entre a Amazônia
e o centro e sul do Brasil é indiscutível; e quaisquer
sacrifícios que a União tenha que fazer para realizá-lo
serão largamente compensados pela segurança que dele
resultará para a defesa nacional e pela exploração
de valiosas riquezas naturais hoje desaproveitadas pela falta de
vias de transporte".
Cumpre salientar que, apesar das dificuldades da época,
os estudos definitivos da grande obra foram iniciados a 7 de setembro
de 1910, ficando concluídos em junho do ano seguinte, [em]
uma extensão total de 2.650 quilômetros.
De grande oportunidade na era em que vivemos, quarenta anos depois
e quando ainda discutimos da conveniência da realização
dessa obra de envergadura, o que dizia o mestre da engenharia brasileira,
Paulo de Frontin, na conclusão do seu relatório em
1911:
"Resolvida pelo governo a forma de construir
este grandioso prolongamento, para o qual está autorizado
pelo Congresso Nacional, convirá ser a construção
levada a efeito de modo a estar concluída a fim de ser inaugurado
o tráfego em 7 de setembro de 1922, comemorando assim a gloriosa
data do 1º centenário da independência do Brasil".
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