... José
Bonifácio, em 1823, propõe a transferência
da Capital para Goiás e sugere o nome de BRASÍLIA.
Desejo inicialmente desculpar-me perante a direção
da Companhia Urbanizadora e a Comissão Julgadora do Concurso
pela apresentação sumária do partido aqui
sugerido para a nova Capital, e também justificar-me.
Não pretendia competir e, na verdade, não concorro
— apenas me desvencilho de uma solução possível,
que não foi procurada, mas surgiu, por assim dizer, já
pronta.
Compareço, não como técnico devidamente
aparelhado, pois nem sequer disponho de escritório, mas
como simples "maquis" do urbanismo, que não pretende
prosseguir no desenvolvimento da idéia apresentada, se
não eventualmente, na qualidade de mero consultor. E se
procedo assim candidamente, é porque me amparo num raciocínio
igualmente simplório: se a sugestão é válida,
estes dados, conquanto sumários na sua aparência,
já serão suficientes, pois revelarão que,
apesar da espontaneidade original ela foi, depois, intensamente
pensada e resolvida; se não o é, a exclusão
se fará mais facilmente e não terei perdido o meu
tempo nem tomado o tempo de ninguém.
A liberação do acesso ao concurso reduziu de certo
modo a consulta àquilo que de fato importa, ou seja, à
concepção urbanística da cidade propriamente
dita, porque esta não será, no caso, uma decorrência
do planejamento regional, mas a causa dele: a sua fundação
é que dará ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado
da região. Trata-se de um ato deliberado de posse, de um
gesto de sentido ainda desbravador, nos moldes da tradição
colonial. E o que se indaga é como, no entender de cada
concorrente, uma tal cidade deve ser concebida.
Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz
de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções
vitais próprias de UMA CIDADE MODERNA QUALQUER, não
apenas como URBS, mas como CIVITAS, possuidora dos atributos inerentes
a uma capital. E, para tanto, a condição primeira
é achar-se o urbanista imbuído de UMA CERTA DIGNIDADE
E NOBREZA DE INTENÇÃO, porquanto dessa atitude fundamental
decorrem a ordenação e o senso de conveniência
e medida capazes de conferir, ao conjunto projetado, o desejável
caráter monumental. Monumental, não no sentido de
ostentação, mas no sentido da expressão palpável,
por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa.
Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao
mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao
devaneio e à especulação intelectual, capaz
de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e
administração, num foco de cultura dos mais lúcidos
e sensíveis do país.
Dito isto, vejamos como nasceu, se definiu e resolveu a presente
solução:
1 – Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar
ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto,
ou seja, o próprio sinal da cruz (fig.
1).
2 – Procurou-se depois a adaptação à topografia
local, ao escoamento natural das águas, à melhor
orientação, arqueando-se um dos eixos a fim de contê-lo
no triângulo eqüilátero que define a área
urbanizada (fig.
2).
3 – E houve o propósito de aplicar princípios francos
da técnica rodoviária — inclusive a eliminação
dos cruzamentos — à técnica urbanística,
conferindo-se ao eixo arqueado, correspondente às vias
naturais de acesso, a função circulatória
tronco, com pistas centrais de velocidade e pistas laterais para
o tráfego local e dispondo-se ao longo desse eixo o grosso
dos setores residenciais (fig.
3).
4 – Como decorrência dessa concentração residencial,
os centros cívico e administrativo, o setor cultural, o
centro de diversões, o centro esportivo, o setor administrativo
municipal, os quartéis, as zonas destinadas a armazenagem,
ao abastecimento e às pequenas indústrias locais,
e, por fim, a estação ferroviária, foram-se
naturalmente ordenando e dispondo ao longo do eixo transversal
que passou assim a ser o eixo monumental do sistema (fig.
4). Lateralmente à intersecção dos dois
eixos, mas participando funcionalmente e em termos de composição
urbanística do eixo monumental, localizaram-se o setor
bancário e comercial, o setor dos escritórios de
empresas e profissões liberais, e ainda os amplos setores
do varejo comercial.
5 – O cruzamento desse eixo monumental, de cota inferior, com
o eixo rodoviário-residencial impôs a criação
de uma grande plataforma liberta do tráfego que não
se destine ao estacionamento ali, remanso onde se concentrou logicamente
o centro de diversões da cidade, com os cinemas, os teatros,
os restaurantes etc. (fig.
5)
6 – O tráfego destinado aos demais setores prossegue,
ordenado em mão única, na área térrea
interior coberta pela plataforma e entalada nos dois topos mas
aberta nas faces maiores, área utilizada em grande parte
para o estacionamento de veículos e onde se localizou a
estação rodoviária interurbana, acessível
aos passageiros pelo nível superior da plataforma (fig.
6). Apenas as pistas de velocidade mergulham, já então
subterrâneas, na parte central desse piso inferior que se
espraia em declive até nivelar-se com a esplanada do setor
dos ministérios.
7 – Desse modo e com a introdução de três
trevos completos em cada ramo do eixo rodoviário e outras
tantas passagens de nível inferior, o tráfego de
automóveis e ônibus se processa tanto na parte central
quanto nos setores residenciais sem qualquer cruzamento. Para
o tráfego de caminhões estabeleceu-se um sistema
secundário autônomo com cruzamentos sinalizados mas
sem cruzamento ou interferência alguma com o sistema anterior,
salvo acima do setor esportivo e que acede aos edifícios
do setor comercial ao nível do subsolo, contornando o centro
cívico em cota inferior, com galerias de acesso previstas
no terrapleno (fig.
7).
8 – Fixada assim a rede geral do tráfego automóvel,
estabeleceram-se, tanto nos setores centrais como nos residenciais,
tramas autônomas para o trânsito local dos pedestres
a fim de garantir-lhes o uso livre do chão, (fig.
8) sem contudo levar tal separação a extremos
sistemáticos e anti-naturais pois não se deve esquecer
que o automóvel, hoje em dia, deixou de ser o inimigo inconciliável
do homem, domesticou-se, já faz, por assim dizer, parte
da família Ele só se "desumaniza", readquirindo
vis-à-vis do pedestre feição ameaçadora
e hostil quando incorporado à massa anônima do tráfego.
Há então que separá-los, mas sem perder de
vista que em determinadas condições e para comodidade
recíproca, a coexistência se impõe.
9 – Veja-se agora como nesse arcabouço de circulação
ordenada se integram e articulam os vários setores. Destacam-se
no conjunto os edifícios destinados aos poderes fundamentais
que, sendo em número de três e autônomos, encontraram
no triângulo eqüilátero, vinculado à
arquitetura da mais remota antiguidade, forma elementar apropriada
para contá-los. Criou-se então um terrapleno triangular,
com arrimo de pedra à vista, sobrelevado na campina circunvizinha
a que se tem acesso pela própria rampa da auto-estrada
que conduz à residência e ao aeroporto (fig.
9). Em cada ângulo dessa praça — PRAÇA
DOS TRÊS PODERES — localizou-se uma das casas, ficando as
do Governo e do Supremo Tribunal na base e a do Congresso no vértice,
com frente igualmente para uma ampla esplanada disposta num segundo
terrapleno, de forma retangular e nível mais alto, de acordo
com a topografia local, igualmente arrimado de pedras em todo
o seu perímetro. A aplicação em termos atuais,
dessa técnica oriental milenar dos terraplenos, garante
a coesão do conjunto e lhe confere uma ênfase monumental
imprevista (fig.
9). Ao longo dessa esplanada — o Mall dos ingleses —, extenso
gramado destinado a pedestres, a paradas e a desfiles, foram dispostos
os ministérios e autarquias (fig.
10). Os das Relações Exteriores e Justiça
ocupando os cantos inferiores, contíguos ao edifício
do Congresso e com enquadramento condigno, os ministérios
militares constituindo uma praça autônoma, e os demais
ordenados em seqüência — todos com área privativa
de estacionamento, sendo o último o da Educação,
a fim de ficar vizinho do setor cultural, tratado á maneira
de parque para melhor ambientação dos museus, da
biblioteca, do planetário, das academias dos institutos,
etc., setor este também contíguo à ampla
área destinada à Cidade Universitária com
o respectivo Hospital de Clínicas, e onde também
se prevê a instalação do Observatório.
A Catedral ficou igualmente localizada nessa esplanada, mas numa
praça autônoma disposta lateralmente, não
só por questão de protocolo, uma vez que a Igreja
é separada do Estado, como por uma questão de escala,
tendo-se em vista valorizar o monumento, e ainda, principalmente,
por outra razão de ordem arquitetônica: a perspectiva
de conjunto da esplanada deve prosseguir desimpedida até
além da plataforma, onde os dois eixos urbanísticos
se cruzam.
10 – Nesta plataforma onde, como se via anteriormente, o tráfego
é apenas local, situou-se então o centro de diversões
da cidade (mistura em termos adequados de Piccadilly Circus, Times
Square e Champs Elysées). A face da plataforma debruçada
sobre o setor cultural e a esplanada dos ministérios, não
foi edificada com exceção de uma eventual casa de
chá e da ópera, cujo acesso tanto se faz pelo próprio
setor de diversões, como pelo setor cultural contíguo,
em plano inferior. Na face fronteira foram concentrados os cinemas
e teatros, cujo gabarito se fez baixo e uniforme, constituindo
assim o conjunto deles um corpo arquitetônico contínuo
com galeria, amplas calçadas, terraços e cafés,
servindo as respectivas fachadas em toda a altura de campo livre
para a instalação de painéis luminosos de
reclame (fig.
11) As várias casas de espetáculo estarão
ligadas entre si por travessas no gênero tradicional da
rua do Ouvidor, das vielas venezianas ou de galerias cobertas
(arcades) e articuladas a pequenos pátios com bares e cafés,
e "loggias" na parte dos fundos com vista para o parque,
tudo no propósito de propiciar ambiente adequado ao convívio
e à expansão (fig.
11). O pavimento térreo do setor central desse conjunto
de teatros e cinemas manteve-se vazado em toda a sua extensão,
salvo os núcleos de acesso aos pavimentos superiores, a
fim de garantir continuidade à perspectiva, e os andares
se previram envidraçados nas duas faces para que os restaurantes,
clubes, casas de chá etc., tenham vista, de um lado para
a esplanada inferior, e do outro para o aclive do parque no prolongamento
do eixo monumental e onde ficaram localizados os hotéis
comerciais e de turismo e, mais acima, para a torre monumental
das estações radioemissoras e de televisão,
tratada como elemento plástico integrado na composição
geral (Figs.
9, 11,
12). Na parte central da plataforma, porém disposto
lateralmente, acha-se o saguão da estação
rodoviária com bilheteria, bares, restaurantes, etc., construção
baixa, ligada por escadas rolantes ao "hall" inferior
de embarque separado por envidraçamento do cais propriamente
dito. O sistema de mão única obriga os ônibus
na saída a uma volta, num ou noutro sentido, fora da área
coberta pela plataforma, o que permite ao viajante uma última
vista do eixo monumental da cidade antes de entrar no eixo rodoviário
residencial — despedida psicologicamente desejável. Previram-se
igualmente nessa extensa plataforma destinada principalmente,
tal como no piso térreo, ao estacionamento de automóveis,
duas amplas praças privativas dos pedestres, uma fronteira
ao teatro da ópera e outra, simetricamente oposta, em frente
a um pavilhão de pouca altura debruçado sobre os
jardins do setor cultural e destinado a restaurante, bar e casa
de chá. Nestas praças, o piso das pistas de rolamento,
sempre de sentido único, foi ligeiramente sobrelevado em
larga extensão, para o livre cruzamento dos pedestres num
e noutro sentido, o que permitirá acesso franco e direto
tanto aos setores do varejo comercial quanto ao setor dos bancos
e escritórios (fig.
8).
11 – Lateralmente a esse setor central de diversões, e
articulados a ele, encontram-se dois grandes núcleos destinados
exclusivamente ao comércio — lojas e "magazins",
e dois setores distintos, o bancário-comercial, e o dos
escritórios para profissões liberais, representações
e empresas, onde foram localizados, respectivamente, o Banco do
Brasil e a sede dos Correios e Telégrafos. Estes núcleos
e setores são acessíveis aos automóveis diretamente
das respectivas pistas, e aos pedestres por calçadas sem
cruzamento (fig.
8), e dispõem de auto-portos para estacionamento em
dois níveis, e de acesso de serviço pelo subsolo
correspondente ao piso inferior da plataforma central. No setor
dos bancos, tal como no dos escritórios, previram-se três
blocos altos e quatro de menor altura, ligados entre si por extensa
ala térrea com sobreloja de modo a permitir intercomunicação
coberta e amplo espaço para instalação de
agências bancárias, agências de empresas, cafés,
restaurantes, etc. Em cada núcleo comercial, propõe-se
uma seqüência ordenada de blocos baixos e alongados
e um maior, de igual altura dos anteriores, todos interligados
por um amplo corpo térreo com lojas, sobrelojas e galerias.
Dois braços elevados da pista de contorno permitem, também
aqui, acesso franco aos pedestres.
12 – O setor esportivo, com extensíssima área destinada
exclusivamente ao estacionamento de automóveis, instalou-se
entre a praça da Municipalidade e a torre radioemissora,
que se prevê de planta triangular com embasamento monumental
de concreto aparente até o piso dos "studios"
e mais instalações, e superestrutura metálica
com mirante localizado a meia altura (fig.
12). De um lado o estádio e mais dependências
tendo aos fundos o Jardim Botânico; do outro o hipódromo
com as respectivas tribunas e vila hípica e, contíguo,
o Jardim Zoológico, constituindo estas duas imensas áreas
verdes, simetricamente dispostas em relação ao eixo
monumental, como que os pulmões da nova cidade (fig.
4).
13 – Na praça Municipal, instalaram-se a Prefeitura, a
Polícia Central, o Corpo de Bombeiros e a Assistência
Pública. A penitenciária e o hospício, conquanto
afastados do centro urbanizado, fazem igualmente parte deste setor.
14 – Acima do setor municipal foram dispostas as garagens da
viação urbana, em seguida, de uma banda e de outra,
os quartéis e numa larga faixa transversal o setor destinado
ao armazenamento e à instalação das pequenas
indústrias de interesse local, com setor residencial autônomo,
zona esta rematada pela estação ferroviária
e articulada igualmente a um dos ramos da rodovia destinada aos
caminhões.
15 – Percorrido assim de ponta a ponta esse eixo dito monumental,
vê-se que a fluência e unidade do traçado (fig.
9), desde a praça do Governo até a praça
Municipal, não exclui a variedade, e cada setor, por assim
dizer, vale por si como organismo plasticamente autônomo
na composição do conjunto. Essa autonomia cria espaços
adequados à escala do homem e permite o diálogo
monumental localizado sem prejuízo do desempenho arquitetônico
de cada setor na harmoniosa integração urbanística
do todo.
16 – Quanto ao problema residencial, ocorreu a solução
de criar-se uma seqüência contínua de grandes
quadras dispostas, em ordem dupla ou singela, de ambos os lados
da faixa rodoviária, e emolduradas por uma larga cinta
densamente arborizada, árvores de porte, prevalecendo em
cada quadra determinada espécie vegetal, com chão
gramado e uma cortina suplementar intermitente de arbustos e folhagens,
a fim de resguardar melhor, qualquer que seja a posição
do observador, o conteúdo das quadras, visto sempre num
segundo plano e como que amortecido na paisagem (fig.
13). Disposição que apresenta a dupla vantagem
de garantir a ordenação urbanística mesmo
quando varie a densidade, categoria, padrão ou qualidade
arquitetônica dos edifícios, e de oferecer aos moradores
extensas faixas sombreadas para passeio e lazer, independentemente
das áreas livres previstas no interior das próprias
quadras (fig.
8).
Dentro destas "super-quadras" os blocos residenciais
podem dispor-se da maneira mais variada, obedecendo porém
a dois princípios gerais: gabarito máximo uniforme,
talvez seis pavimentos e pilotis, e separação do
tráfego de veículos do trânsito de pedestres,
mormente o acesso á escola primária e às
comodidades existentes no interior de cada quadra.
Ao fundo das quadras estende-se a via de serviço para
o tráfego de caminhões, destinando-se ao longo dela
a frente oposta às quadras, à instalação
de garagens, oficinas, depósitos do comércio em
grosso etc., e reservando-se uma faixa de terreno, equivalente
a uma terceira ordem de quadras, para floricultura, horta e pomar.
Entaladas entre essa via de serviço e as vias do eixo rodoviário,
intercalaram-se então largas e extensas faixas com acesso
alternado, ora por uma, ora por outra, e onde se localizaram a
igreja, as escolas secundárias, o cinema e o varejo do
bairro, disposto conforme a sua classe ou natureza (fig.
13).
O mercadinho, os açougues, as vendas, quitandas, casas
de ferragens, etc., na primeira metade da faixa correspondente
ao acesso de serviço; as barbearias, cabeleireiros, modistas,
confeitarias, etc., na primeira seção da faixa de
acesso privativa dos automóveis e ônibus, onde se
encontram igualmente os postos de serviço para venda de
gasolina. As lojas dispõem-se em renque com vitrinas e
passeio coberto na face fronteira às cintas arborizadas
de enquadramento dos quarteirões e privativas dos pedestres,
e o estacionamento na face oposta, contígua às vias
de acesso motorizado, prevendo-se travessas para ligação
de uma parte a outra, ficando assim as lojas geminadas duas a
duas, embora o seu conjunto constitua um corpo só (fig.
14).
Na confluência das quatro quadras localizou-se a igreja
do bairro, e aos fundos dela as escolas secundárias, ao
passo que na parte da faixa de serviço fronteira à
rodovia se previu o cinema a fim de torná-lo acessível
a quem proceda de outros bairros, ficando a extensa área
livre intermediária destinada ao clube da juventude, com
campo de jogos e recreio.
17 – A gradação social poderá ser dosada
facilmente atribuindo-se maior valor a determinadas quadras como,
por exemplo, às quadras singelas contíguas ao setor
das embaixadas, setor que se estende de ambos os lados do eixo
principal paralelamente ao eixo rodoviário, com alameda
de acesso autônomo e via de serviþo para o tráfego
de caminhões comum às quadras residenciais. Essa
alameda, por assim dizer, privativa do bairro das embaixadas e
legações, se prevê edificada apenas num dos
lados, deixando-se o outro com a vista desimpedida sobre a paisagem,
excetuando-se o hotel principal localizado nesse setor e próximo
do centro da cidade. No outro lado do eixo rodoviário-residencial,
as quadras contíguas à rodovia serão naturalmente
mais valorizadas que as quadras internas, o que permitirá
as gradações próprias do regime vigente;
contudo, o agrupamento delas, de quatro em quatro, propicia num
certo grau a coexistência social, evitando-se assim uma
indevida e indesejável estratificação. E
seja como for, as diferenças de padrão de uma quadra
a outra serão neutralizadas pelo próprio agenciamento
urbanístico proposto, e não serão de natureza
a afetar o conforto social a que todos têm direito. Elas
decorrerão apenas de uma maior ou menor densidade, do maior
ou menor espaço atribuído a cada indivíduo
e a cada família, da escolha dos materiais e do grau e
requinte do acabamento. Neste sentido deve-se impedir a enquistação
de favelas tanto na periferia urbana quanto na rural. Cabe à
Companhia Urbanizadora prover dentro do esquema proposto acomodações
decentes e econômicas para a totalidade da população.
18 – Previram-se igualmente setores ilhados, cercados de arvoredo
e de campo, destinados a loteamento para casas individuais, sugerindo-se
uma disposição dentada em cremalheira, para que
as casas construídas nos lotes de topo se destaquem na
paisagem, afastadas umas das outras, disposição
que ainda permite acesso autônomo de serviço para
todos os lotes (fig.
15). E admitiu-se igualmente a construção eventual
de casas avulsas isoladas de alto padrão arquitetônico
— o que não implica tamanho — estabelecendo-se porém
como regra, nestes casos, o afastamento mínimo de um quilômetro
de casa a casa, o que acentuará o caráter excepcional
de tais concessões.
19 – Os cemitérios localizados nos extremos do eixo rodoviário-residencial
evitam aos cortejos a travessia do centro urbano. Terão
chão de grama e serão convenientemente arborizados,
com sepulturas rasas e lápides singelas, à maneira
inglesa, tudo desprovido de qualquer ostentação.
20 – Evitou-se a localização dos bairros residenciais
na orla da lagoa, a fim de preservá-la intacta, tratada
com bosques e campos de feição naturalista e rústica
para os passeios e amenidades bucólicas de toda a população
urbana. Apenas os clubes esportivos, os restaurantes, os lugares
de recreio, os balneários e núcleos de pesca poderão
chegar à beira d'água. O clube de Golf situou-se
na extremidade leste, contíguo à Residência
e ao hotel, ambos em construção, e o Yatch Club
na enseada vizinha, entremeados por denso bosque que se estende
até à margem da represa, bordejada nesse trecho
pela alameda de contorno que intermitentemente se desprende da
sua orla para embrenhar-se pelo campo que se pretende eventualmente
florido e manchado de arvoredo. Essa estrada se articula ao eixo
rodoviário e também à pista autônoma
de acesso direto do aeroporto ao centro cívico, por onde
entrarão na cidade os visitantes ilustres, podendo a respectiva
saída processar-se, com vantagem, pelo próprio eixo
rodoviário-residencial. Propõe-se, ainda, a localização
do aeroporto definitivo na área interna da represa, a fim
de evitar-lhe a travessia ou o contorno.
21 – Quanto à numeração urbana, a referência
deve ser o eixo monumental, distribuindo-se a cidade em metades
NORTE e SUL; as quadras seriam assinaladas por números,
os blocos residenciais por letras, e finalmente o número
do apartamento na forma usual, assim por exemplo, N-Q3 – L – ap.
201. A designação dos blocos em relação
à entrada da quadra deve seguir da esquerda para a direita,
de acordo com a norma.
22 – Resta o problema de como dispor do terreno e torná-lo
acessível ao capital particular. Entendo que as quadras
não devem ser loteadas, sugerindo, em vez da venda de lotes,
a venda de quotas de terreno, cujo valor dependerá do setor
em causa e do gabarito, a fim de não entravar o planejamento
atual e possíveis remodelações futuras no
delineamento interno das quadras. Entendo também que esse
planejamento deveria de preferência anteceder a venda das
quotas, mas nada impede que compradores de um número substancial
de quotas submetam à aprovação da Companhia
projeto próprio de urbanização de uma determinada
quadra, e que, além de facilitar aos incorporadores a aquisição
de quotas, a própria Companhia funcione, em grande parte,
como incorporadora. E entendo igualmente que o preço das
quotas, oscilável conforme a procura, deveria incluir uma
parcela com taxa fixa, destinada a cobrir as despesas do projeto,
no intuito de facilitar tanto o convite a determinados arquitetos
como a abertura de concursos para a urbanização
e edificação das quadras que não fossem projetadas
pela Divisão de Arquitetura da própria Companhia.
E sugiro ainda que a aprovação dos projetos se processe
em duas etapas, anteprojeto e projeto definitivo, no intuito de
permitir seleção prévia e melhor controle
da qualidade das construções.
Da mesma forma quanto ao setor do varejo comercial e aos setores
bancário e dos escritórios das empresas e profissões
liberais, que deveriam ser projetados previamente de modo a se
poderem fracionar em sub-setores e unidades autônomas, sem
prejuízo da integridade arquitetônica, e assim se
submeterem parceladamente à venda no mercado imobiliário,
podendo a construção propriamente dita, ou parte
dela, correr por conta dos interessados ou da Companhia, ou ainda,
conjuntamente.
23 – Resumindo, a solução apresentada é
de fácil apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade
e clareza do risco original, o que não exclui, conforme
se viu, a variedade no tratamento das partes, cada qual concebida
segundo a natureza peculiar da respectiva função,
resultando daí a harmonia de exigências de aparência
contraditória. E assim que, sendo monumental é também
cômoda, eficiente, acolhedora e íntima. E ao mesmo
tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica
e funcional. O tráfego de automóveis se processa
sem cruzamentos, e se restitui o chão, na justa medida,
ao pedestre. E por ter o arcabouço tão claramente
definido, é de fácil execução: dois
eixos, dois terraplenos, uma plataforma, duas pistas largas num
sentido, uma rodovia no outro, rodovia que poderá ser construída
por partes — primeiro as faixas centrais como um trevo de cada
lado, depois as pistas laterais, que avançariam com o desenvolvimento
normal da cidade. As instalações teriam sempre campo
livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamento.
As quadras seriam apenas niveladas e paisagisticamente definidas,
com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas,
mas sem calçamento de qualquer espécie, nem meios-fios.
De uma parte, técnica rodoviária; de outra, técnica
paisagística de parques e jardins.
Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade
parque. Sonho arqui-secular do Patriarca.