Visão, 1959
Catetinho nasceu num bar
Artigo publicado na revista Visão, edição
de 20 dez. 1959
[cf. DB3:315-318]
Numa de suas viagens a Brasília, no mês passado, JK
presidiu a uma cerimônia que o tocou profundamente: a incrporação
do Catetinho — sua primeira residência na futura capital
do País — ao Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional. Para os homens que imaginaram e levaram a cabo a construção
do Catetinho a cerimônia foi pretexto para toda uma
cadeia de emotivas recordações. É que a casa
pioneira tem uma história, alegre e aventureira, que pouca
gente conhece.
O Catetinho nasceu em mesa de bar, de um bate-papo que foi
ganhando entusiasmo e consistência, até que um dia
demarrou do Juca's Bar, no Hotel Ambassador, as palavras transformando-se
assim na realidade de uma expedição pioneira. A mesa
onde a idéia foi gestada entre goles de uísque — a
grande mesa do fundo, no segundo andar do bar — lá está
até hoje, recordando o feito com o apelido de Catetinho.
Os donos da aventura
O engº José Ferreira de Castro Chaves — Juca — foi
o anfitrião da aventura. Há muitos anos ele imaginava
um hobby: um bar moderno e confortável, no centro
da cidade, onde pudesse beber do bom, bem servido, em companhia
dos amigos. O bar, instalado no Hotel Ambassador, com o correr do
tempo se tornou uma pequena instituição. Apesar de
Juca pertencer a tradicional família pernambucana, foi a
mineirada quem ocupou o local, desbancando, após a eleição
de JK, os políticos nordestinos que ali tinham uma espécie
de quartel-general. Na mesa de Juca, freqüentada por Oscar
Niemeyer, João Milton e César Prates, Dilermando Reis
e outros amigos, falou-se na preocupação presidencial,
após uma viagem de inspeção à zona onde
se ergueria a futura capital: o Presidente queria acompanhar os
trabalhos desde o início, mas não sabia onde ficar.
Rapidamente, a mesa concluiu que a solução era construir
uma casa. A decisão topou com a dúvida de alguns descrentes.
Mas a resistência dos céticos foi aos poucos sendo
destruída. Alguém indagou: «Caminhão
chega até lá?» «Demora, mas chega»,
foi a resposta. Chegando, estava resolvida a parada. No dia seguinte,
Oscar já aparecia com o risco daquilo que seria a
primeira residência presidencial em Brasília. Uma casa
simples, mas confortável. Hoje, esse projeto se encontra
também incorporado aos arquivos do Patrimônio Histórico
e Artístico.
Parte a caravana
A planta de Oscar era a resposta ao desafio. Havia grandes dificuldades, entre
as quais se incluía a necessidade de uma soma razoável para o financiamento
da empreitada, mas ninguém pensou em desistir. A Novacap nesse tempo praticamente
inexistia, e dela era impossível esperar apoio. César Prates e Juca
Chaves avalizaram então uma letra de João Milton, que foi descontada
na agência do Banco de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Emídio Rocha
— o Rochinha, figura boêmia, compositor bissexto, autor de um belíssimo
samba (Novos Rumos) que Sílvio Caldas gravou — foi o intermediário
responsável pela rapidez e sucesso da operação financeira.
Enquanto isso, Roberto Pena, de Araxá, aderia à idéia e propunha
que se ganhassem 1.500 quilômetros de distância, fazendo partir de
Araxá todo o material que ali pudesse ser reunido e adquirido.
Do Rio, de avião, seguiriam operários especializados
e chefes de turma. Posteriormente, caminhões transportariam
o mobiliário, utensílios, roupa de cama. Dessa tarefa
ficaram incumbidas as esposas dos expedicionários.
O local de encontro era Luziânia nas vizinhanças de
Brasília. A caravana deixou Araxá com um trator e
uma patrol, pois havia trechos de estrada por consertar e outros
até por construir. Outra providência que se revelou
das mais sensatas foi incorporar à expedição
um famoso caçador de Araxá — o velho Duca — que era
subdelegado local. Duca, emérito caçador de perdizes
(abundantes na região de Brasília), foi utilíssimo.
Também no último momento dois voluntários preciosos
se apresentaram: jovens radio-amadores de Araxá que, chegando
a Brasília, montaram uma estação. Esta, além
de orientar o comboio procedente do Rio, mantinha comunicação
com todo o Brasil. Até JK, no Catete, foi certa noite surpreendido
com o seguinte chamado: «Está falando Brasília,
a futura capital do Brasil...»
Desde o momento em que atingiu o sítio escolhido para construir
o Catetinho — um lugar delicioso junto a um olho d'água
— a caravana contou com a ajuda do pioneiro Bernardo Sayão,
já contagiado pela aventura. O saudoso Sayão, muitas
vezes, providenciou pão, cerveja e gelo para o pessoal. O
gelo, principalmente, era sempre muito bem recebido, pois a turminha
do Juca's não abria mão dos seus hábitos —
bebericando o uísque cotidiano.
Palacinho nasceu em dez dias
O trabalho não foi brincadeira, mas em dez dias, com o aproveitamento
de madeiras existentes na zona, a obra estava concluída.
Também um campo de aviação, encascalhado, foi
aberto, e no dia 1º de novembro onze aviões nele pousaram.
O banheiro de JK foi instalado com água fria e quente, esta
fornecida por um fogão caipira, de serpentina. No topo de
uma árvore gigantesca, que funcionou à guisa de torre,
foi instalado o reservatório de água. As noites, durante
o período de construção, foram animadas: logo
no segundo dia uma onça visitou a barraca de alguns operários,
tendo sido corrida a tiros, coisa que não podia ser feita
com os mosquitos, infelizmente. Mas havia o violão do mestre
Dilermando, artista e compositor de renome, cineminha e até
champanha. E como Juca Chaves frisou no discurso pronunciado por
ocasião da solenidade de tombamento da construção,
«o Catetinho foi, sobretudo, uma obra de alegria daqueles
que acreditam no Brasil.»
A alegria era o ingrediente indispensável à vitória
da dura iniciativa. Agostinho Montandon, mais tarde falecido num
desastre aéreo, contava sempre que chegara ao local sem camisa,
pois esta se despedaçara durante a viagem, não resistindo
ao continuado e violento atrito contra o encosto do assento do jipe.
Esse espírito também ganhou os operários, muitos
dos quais, após a conclusão do Catetinho, se
incorporaram às obras de Brasília.
Com a chegada do comboio que conduzia o mobiliário e petrechos,
a casa foi guarnecida. Os móveis, modernos e bonitos, eram
da Oca, uma galeria de Ipanema; as louças de Brennand do
Recife; a roupa de cama e os colchões de molas foram também
adquiridos no Rio; e havia ainda rádio e geladeira. Até
um mordomo foi improvisado — o Tião, de Araxá, que
hoje é dono do elegantíssimo King's Bar, de Brasília.
O cozinheiro — no carregamento não faltou o equipamento todo
de cozinha — chamava-se Batista, e fôra, durante vários
anos, palhaço de circo de interior. Não teve muita
sorte ao chegar: foi picado por uma jararaca, tendo estreado o soro
da enfermaria de campanha da expedição.
Surpresa de JK
O Presidente tinha conhecimento do trabalho, mas jamais imaginara
o que iria encontrar. Sempre pensara que se tratasse de uma espécie
de acampamento confortável, no meio da mata. No dia 10 de
novembro, chegou num avião Douglas, e os construtores o surpreenderam
com o requinte de fazer com que o aparelho estacionasse ao lado
da casa. Com o Presidente, viajaram Renato Azeredo, o coronel Lino
Teixeira, o coronel Dilermando Silva, o jornalista José Moraes
e vários assessores do Catete.
JK não acreditou que a casa estivesse dotada de água quente,
e foi preciso que César Prates o forçasse a colocar sua mão
sob uma torneira para disso se convencer. Um almoço bem brasileiro — frango
ao molho pardo e angu — aguardava o Presidente. À noite, após escutar
o Repórter Esso, JK foi homenageado com uma serenata, com a apresentação
por Dilermando Reis da primeira música composta em Brasília: Exaltação
a Brasília. Era um samba: letra de Bastos Tigre (foi sua última
produção) que Dilermando musicara durante a construção
do Catetinho. César Prates, que escreveu um diário desses
acontecimentos, cita a frase que ouviu do Presidente nessa noite: «Considero
uma dádiva de Deus ter a oportunidade de construir Brasília.»
***
Construída meses antes do advento do plano piloto, a residência
que hospedou JK em suas idas a Brasília e foi morada oficial
de Israel Pinheiro até junho de 1958, tendo sido posteriormente
residência dos diretores da Companhia, ganhou da boca do povo
o apelido com que entrou para a história: Catetinho.
Um apelido carinhoso e simpático que sublinha a importância
da aventura pioneira que a modéstia de seus personagens prefere
narrar apenas pelo lado alegre e pitoresco.
Assim, foi a decisão de um punhado de homens que permitiu
ao entusiasmo de JK encontrar, desde a primeira hora, um local confortável
de onde pudesse inspecionar o nascimento e crescimento de Brasília.

Os dois Catetinhos, junto ao campo de pouso. Foto do livro História
de Brasília
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