Waldomiro: uma carreira de fé
Revista Refesa, Jan-Fev 1971, p. 18-19
Refesa era uma publicação
bimestral do Dep. Relações Públicas da Rede
Ferroviária Federal S.A. (RFFSA)
Acervo: José Emílio
Buzelin (SPMT)
/ Pesquisa e digitalização: Chris R.
Waldomiro Vitorino — um nome simples que identifica o chefe da
estação ferroviária Bernardo Sayão,
em Brasília, inaugurada a 21 de abril de 1968 com a chegada
de composições simultâneas, por Minas e São
Paulo, que transportaram o ministro Mário Andreazza, dos
Transportes, e os generais Antônio Adolfo Manta, presidente
da Rede Ferroviária Federal, e Rodrigo Otávio Jordão
Ramos, um dos chefes militares que mais esforços despendeu
para a concretização do velho sonho. Havia, claro,
muita gente importante, a começar pelo marechal e ex-ministro
Juarez Távora, o diretor geral do Departamento Nacional de
Estradas de Ferro, que agora também é diretor da RFFSA,
engº Horácio Madureira, o então diretor de Vias
e de Transportes do Ministério do Exército, congressistas,
técnicos, jornalistas. E lá, à espera, orgulhoso
da condição de primeiro chefe da estação
provisória da capital da República, estava Waldomiro
Vitorino, goiano que nascera ali perto a 27 de janeiro de 1930,
em Pires do Rio, justamente o lugar em que se iniciou a fixação
dos trilhos que conduziriam ao Distrito Federal.
Uma carreira de fé
Em 1943, com menos de13 anos, o menino Waldomiro já era
telegrafista em Araguari, na antiga Estrada de Ferro Goiás,
operando Morse e honrando a estirpe da família: do pai, Antônio
Vitorino Teixeira, conferente que trabalhou 34 anos naquela estrada
e do avô materno, Juventino Bernardes, mestre de linha. A
perseverança, herdada do avô paterno, José Vitorino
de Navarro, espanhol naturalizado brasileiro, que chegou a coronel
da histórica Guarda Nacional, dos tempos da independência,
garantiu-lhe a promoção a ajudante de movimento, ainda
adolescente, com 17 anos. Aos 20, Waldomiro ganhava "sua"
primeira estação — Silvânia, chefe [cidade]
importante, cheia de educandários, situada a duas horas de
rodovia de Goiás, a antiga capital do Estado e que até
Seminário tinha. Mais um triênio e o nosso jovem era
transferido para Goiandira, de onde voltou a Pires do Rio, glorificado,
como chefe de estação, cargo de tanta importância
nas pequeninas comunidades do interior como os de prefeito e delegado
de polícia.
Meio sem jeito, instado a relembrar aquele dia de1955, quando grande
parte da população de 12 mil habitantes se concentrava
ao longo dos trilhos para saudar a volta do filho do "Tonico",
por sinal um dos primeiros a fazer pala com a palma da mão,
na tentativa de vislumbrar, antes dos demais, a aproximação
do trem que iria trazer o duplamente "seu" novo chefe,
Waldomiro começa a falar:
— Foi mesmo um dia e tanto, com banda de música, foguetório
e tudo o mais. Na verdade eu estava feliz e, por que não
confessar, um poquinho prosa: afinal voltava prestigiado à
minha cidade cuja importância, é bom que se diga, podia
ser medida pelos dois frigoríficos e três hospitais
que então possuía.
Amável disciplinador
Desde então Waldomiro, de 41 anos, foi sucessivamente chamado
a ocupar postos difíceis e a desempenhar missões para
as quais era recomendável e necessária a sua qualidade
(e fama) de "disciplinador férreo", o que realmente
consegue ser, sem arrogância ou prepotência e até
com muita amabilidade. Chefe de estação de Goiânia,
aos 27 anos, voltou a Goiandira, onde havia algo a corrigir e de
lá foi para Ipameri, retornando à capital do Estado
e, logo após, a Pires do Rio. Em abril de 1968 a Rede Ferroviária
Federal precisava de um homem como ele para assumir a estação
provisória de Bernardo Sayão. Demorou-se seis meses
por lá, justamente os mais espinhosos, de implantação
do serviço. Mais uma vez removeram-no premiando-o com nova
estadia em Pires do Rio, sua terra natal, onde cada morador é
um amigo. Dois fiscais, José Antônio do Nascimento
(outubro de 68 a maio de 69) e Valter Rocha (junho de 69 a junho
de 70), sucederam-lhe com uma única diferença: ambos
moravam no centro urbano, no chamado Plano Piloto, em casa paga
pela estrada, nos termos do Regulamento. Mas com Waldomiro, não.
Ele sabe que tem direito igual. Mas, ao reassumir a chefia da estação
de Bernardo Sayão, em julho deste ano, comandando uma equipe
de 23 servidores, a maioria pessoal cedido pela União à
RFFSA, além dos seis guardas da Polícia Ferroviária,
impôs uma condição: queria morar ali mesmo,
ao lado da agência, numa daquelas casas de madeira, bem junto
às linhas. Dessa maneira podia ver a partida e a chegada
de todos os trens, mesmo nos dias de folga, porque isso ainda lhe
desperta frêmitos de entusiasmo:
— Sabe, doutor — proclama entre sorrisos —, muita gente não
acredita e até me chama de bobo. Mas gosto de ver um trem
chegar ou partir, cada largada, cada arrancada, com os passageiros
acenando das janelas. Isso mexe comigo, toca lá dentro. Eu
não viveria bem, longe dos trilhos. E quando o trem dobra
na curva, cá pra nós, é bonito mesmo. Não
é?
Waldomiro Vitorino, chefe da estação de Bernardo
Sayão, da 5ª Divisão - Centro-Oeste da Rede Ferroviária
Federal. Pai de quatro filhos — Rosely, de 19 anos, Ricardo, de
17, Ana Maria, de 7 e Rosemary, de 4, os dois últimos adotados,
órfãos muito cedo. Rosely está no 1º ano
de Medicina e Ricardo, que faz um curso de madureza, já é
um "tenorzinho" que ainda há pouco interpretou
no Canal 3 a música tema do filme Romeu e Julieta. Ambos
poderiam morar na cidade mas compreendem o pai, do qual se envaidecem.
Por isso vencem, diária e galhardamente, cerca de 34 quilômetros
[provavelmente ida + volta] entre a casa e a escola, cônscios
da cota de participação que sobrou para os dois. Sabem
que poderiam viver numa super-quadra, mas jamais insinuaram isso
ao "velho". Que — diga-se como corolário — vê
na esposa, dª Racy de França Vitorino, a "melhor
mulher do mundo" e uma espécie de Amélia, já
que outra, igual, "não há mesmo, doutor".
Waldomiro Vitorino desta vez — conforme ele próprio assegura
— chegou para ficar. E, às escondidas, para sonhar com a
chefia da estação de Brasília, no extremo oeste,
do lado oposto à praça dos Três Poderes, a 6
quilômetros da Rodoviária e [na extremidade] do eixo
monumental. Sonho que, sem dúvida, se transformará
em realidade muito mais cedo do que ele imagina. Porque na RFFSA
de hoje — está provado — quem porfia e confia triunfa. Que
o diga o atual chefe da 6ª Divisão - Central, engº
Francisco Cruz, antigo e modesto telegrafisca da Rede de Viação
Paraná - Santa Catarina, que por duas vezes, antes de ocupar
o cargo atual, chegou a diretor-superintendente da ferrovia em que
se iniciara.
Um espetáculo
Como é óbvio, a vida de Waldomiro tem sido pontilhada
de episódios curiosos e de situações aflitivas,
com as quais se defronta qualquer ferroviário que atinge
as funções que ele exerce. Talvez o mais pitoresco
e sem dúvida o mais encantador aconteceu-lhe aos 15 anos.
Era tempo dos postes de madeira das linhas telegráficas.
Qualquer fagulha de "maria-fumaça" costumava deixar
as estações isoladas, criando a obrigação
de mandar emissário, de qualquer modo, à parada precedente,
para não atrasar indefinidamente o trem. Os trolleys ou automóveis
de linha eram raros. Ia-se a pé ou a cavalo entregar o bastão
(licença) para prosseguimento da viagem. Um belo dia, entre
Pires do Rio e Roncador Velho, a comunicação foi interrompida.
Ao telegrafista de 15 anos competia resolver o problema. Recorreu
a um compadre de seu pai para obter por empréstimo uma égua
e tocou-se, caminho a fora, para a estação em que
o trem resfolegava, à espera. No trajeto, entretanto, esqueceu-se
momentaneamente da missão face ao inusitado do que lhe surgiu
pela frente: uma cascavel engolindo um sapo, espetáculo nunca
visto antes, ao mesmo tempo belo e terrificante. E o garoto Waldomiro
deixou-se quedar por ali, bem uns vinte minutos, entre atônito
e interessado. Até que a voz do dever o despertou e o fez
chibatear o animal, que passou a galopar, na ânsia de recuperar
o atraso. De mais vinte minutos, apenas. Mas que para o hoje responsável
chefe da estação provisória de Brasília
ainda soam como vinte horas.
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