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Livro: Brasil, Brasília e os brasileiros
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Extratos de uma entrevista concedida aos coordenadores deste livro, julho de 2002
p. 196
Eliezer Batista foi presidente da Companhia Vale do Rio Doce de 1961 a 1964, e de 1979 a 1986, ministro das Minas e Energia em 1962-1963, e ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos em 1992, além de fundador do Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentado.
... O desenvolvimento na década de 1950 estava quase todo confinado à costa e, infelizmente ainda está, em grande parte, a 200 km da costa, onde se concentra a atividade econômica. O grande desenvolvimento da agricultura moderna e as migrações internas vieram mostrar a importância do interior, especialmente porque não havia logística adequada, no sentido de noção de custo. Podia-se produzir qualquer coisa no interior, mas não se podia trazer para a costa. Nesse meio tempo, foram desenvolvidas novas vias de transporte.
A CVRD é um exemplo disso, tanto em Carajás quanto em Minas Gerais. Hoje, o desenvolvimento da logística, sobretudo de transporte interno e portuária, em paralelo com a logística marítima, valorizou-se significativamente, mostrando a clarividência da idéia de levar o desenvolvimento para o interior. Com a sede do governo num centro brasileiro — não sei se é o centro geodésico, mas não deve estar muito longe de sê-lo — criou-se uma fonte nova de irradiação de poder e, portanto, de desenvolvimento conjugado ao poder. Sem dúvida, o tempo vai mostrar cada vez mais a importância dessa decisão [de interiorizar a capital] porque as zonas do interior do Brasil (o cerrado e seu desenvolvimento) têm uma importância enorme. Vê-se o esforço da Embrapa em abordar cientificamente os [?], de modo a propiciar resultados econômicos satisfatórios. Sem a base científica e tecnológica não se chega à economia. Com a logística de transporte terrestre e portuária, o interior do Brasil passou a ter outra dimensão...
Essas questões, vistas a partir de Brasília, têm uma significação muito maior. Não tenho dúvida de que o tempo confirma a decisão [de construir Brasília] tomada àquela época, justificando-a cada vez mais. Por ter sido uma decisão geopolítica, geoeconômica extremamente importante, permitiu o aproveitamento do Brasil. A engenharia espacial do Brasil tomou uma outra dimensão na qual o fator tempo tem um papel decisivo. A construção de Brasília correspondeu, portanto, a uma visão correta.
Por que o Planalto Central? Porque talvez seja mais próximo do centro geodésico do país. Se a questão era a distribuiçao geográfica, então o Triângulo Mineiro era mais ligado ao Sul do Brasil. Talvez na escolha do Planalto Central, ligado ao Centro e à Amazônia, tenha prevalecido uma noção de equilíbrio de massas. No entanto, é quase certo que o Triângulo Mineiro tinha condições locais melhores, mas não sob essa perspectiva. Já existia também alguma infra-estrutura em Uberaba, Uberlândia. No Planalto Central havia um vazio. Pelo lado econômico (...) o Triângulo Mineiro teria essa vantagem. Podia-se chegar lá e, a partir de lá, teria um stepping stone para a conquista do interior. Economicamente nas condições da época, eu optaria pelo Triângulo Mineiro.
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Mas tinha algumas vantagens, não é? O clima não é ruim. Tem precipitação elevada e concentrada em seis meses por ano. Acho que Brasília chove quase o dobro do Rio. Isso é um fator importantíssimo. Água é o grande problema deste século. O Brasil tem disponibilidade de água, um dos grandes pontos de atração. E ssse imenso território não seria desenvolvível se não tivesse água em abundância. Rios enormes, energia hídrica que pode ser sacada dos rios. E um clima — o Planalto tem Mato Grosso, o Mato Grosso do Norte agora, aquelas chapadas dos Parecis — tudo são terras altas com bom clima. A natureza não é tão hostil como a hiléia amazônica, por exemplo. O desenvolvimento da Europa, segundo analistas, deve-se às condições pouco hostis à vida humana; o contrário não atrairia o desenvolvimento humano. Esse foi um fator importante na escolha de Brasília.
Brasília "irradiou" estradas e progresso, a exemplo de Tocantins, Roraima e Acre — estes últimos com acesso pela Venezuela e Peru. Na decisão sobre Brasília, prevaleceu uma noção dinâmica que, por razões lógicas, se chegaria ao equilíbrio das massas. Não só evoluiu a cidade mas a massa cultural. Eles estavam certos! Israel era visionário, tinha noção do que ia acontecer, mas os custos não eram quantificados. A convicção de Israel era intuitiva pois não se tinham os instrumentos atuais para os cálculos da lógica.
Era um homem extremamente inteligente e criativo, com um pensamento voltado para proposições a prazo longo, o que não é comum entre nós. Tinha uma fantasia (no sentido grego de imaginação), controlada pela sua formação de engenheiro e, por isso, possuía visão quantificada das coisas. Sua percepção era muito mais clara da realidade do que as pessoas que não tinham essa formação.
Israel teve, sem dúvida nenhuma, grande influência sobre Juscelino Kubitschek, médico de formação. A Israel coube influir na questão do desenvolvimento. O presidente conhecia a questão do desenvolvimento, talvez pelo contato, por exemplo, no caso da Mannesmann e outros, onde ele começou a entender o processo de industrialização. Além disso, ele era cercado por pessoas como Lucas Lopes e outros que tinham uma formação de engenharia. Mas esse papel coube sobretudo a Israel Pinheiro.
Ele tinha aquela maneira de falar uma coisa importantíssima com uma simplicidade tão grande que a pessoa que estava ouvindo não se dava conta da relevância. Hoje é muito comum o contrário disso. Fala-se de uma coisa minúscula e faz-se parecer ciência, quando são temas de menor significação. Israel era justamente o contrário. Ele tinha essa vantagem de ser engenheiro. Não é que engenheiro seja uma coisa sobrenatural, é um homem como outro qualquer, mas tem uma iniciação ao processo de quantificação.
A maneira que eu vejo Israel com relação à Vale do Rio Doce vai muito além de uma empresa de mineração. Ele pensava sobretudo em termos do Brasil. A CVRD, sob a ótica da logística, permitiria o aproveitamento de uma nova via de acesso à costa (Estrada de Ferro Vitória a Minas) para exportar um produto excedente e que podia ser uma fonte de riqueza para o Brasil. Foi, aliás, o que aconteceu, porque o projeto original da Vale era um projeto relativamente pequeno, para atender a questão de suprimento de minério de ferro, abundante em Itabira.
O grande mérito de Israel não foi pelo lado empresarial, apenas — também o foi — mas sobretudo pelo lado macro, da visão que ele já tinha do desenvolvimento num país como o Brasil, de dimensões continentais, que requer uma logística muito definida.
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