Pimentel, 1910
Via Cruls
Antônio Martins de Azevedo Pimentel
Histórico da mudança da capital federal para um sítio
do interior do Brasil
in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
1910, tomo LXXXIII, parte I, p. 279-291 [cf.
AH2:86-89]
1ª Missão Cruls
(...) e em cumprimento da resolução do Congresso Nacional,
o Ministro da Indústria e Viação nomeou,
em 17 de maio de 1892, uma numerosa
comissão para explorar o planalto central, fazer a conseqüente
demarcação da futura capital, etc.
Este trabalho foi recebido com gerais aplausos, não obstante o
espírito público não ter sido francamente despertado
por tão momentosa questão (...).
Em sessão de 19 de
agosto de 1893 os deputados Fleury Curado e Bernardino de Mendonça
justificaram um longo e pouco prático projeto de 12 artigos, que
não teve tempo de ser discutido; e a falta de verba importaria
em a interrupção dos trabalhos, iniciados apenas.
Por esse motivo, o deputado Lauro Müller apresentou e obteve aprovação
na seguinte emenda aditiva
do projeto de fixação de despesas do Ministério da
Indústria e Viação.
"É o governo autorizado a mandar proceder
na zona demarcada no planalto central aos estudos necessários à
fixação do local em que deve ser, na forma da Constituição,
construída a futura capital da República, fazendo proceder
ao levantamento topográfico da zona respectiva e ao reconhecimento
de uma via-férrea que mais diretamente possa ligar aquela região
a esta cidade, para que poderá abrir os necessários créditos
até a quantia máxima de 350:000$000.
S. S., em 22 de agosto de 1893. — Lauro Müller."
(...) mas antes que fosse organizada nova comissão, rebentou a
revolta de 6 de setembro de 1893, que tudo paralisou neste país.
2ª Missão Cruls
Sufocada a revolta em 13 de março de 1894, pouco depois foram
nomeados quase todos os [mesmos]
membros da primeira comissão, e alguns
a mais.
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Referências
Segundo (???), a monografia de Pimentel seria
uma transcrição de seu relatório na (1ª?
2ª?) Missão Cruls, com acréscimos.
Na parte histórica, o texto de Pimentel
é mais amplo que a resenha apresentada por Cruls
em 1894, porém falha em diferentes pontos — como a atribuição
do Correio Braziliense (editado em Londres) à fundação
da imprensa régia no Rio de Janeiro, p.ex.
Os trechos incluídos nesta página
traçam um panorama das duas missões Cruls e das dificuldades
que teve de enfrentar.
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Antes de tomar o seu destino, o chefe distribuiu o pessoal em cinco turmas,
quatro das quais, seguindo caminhos indicados em instruções
especiais, deviam juntar-se com a sua em fixada época, na zona
demarcada.
A primeira turma foi por mar até Bahia, daí por estrada
de ferro até Juazeiro, de onde começou a subir o rio São
Francisco até São Romão, ponto em que iniciou viagem
a cavalo, cujo termo foi a cidade da Formosa.
A segunda partiu de Sabará e terminou a viagem também em
Formosa.
A terceira foi de Itapecirica a Santa Luzia de Goiás.
A quarta começou a viajar no Paredão,
margem esquerda do rio São Francisco, e foi também ter à
cidade goiana de Santa Luzia.
Ao passo que estas turmas seguiam seus caminhos, a quinta, a do chefe,
de que fazia parte o autor desta narração, saiu de Uberaba,
passou por Morrinhos, em busca de Pirenópolis, onde as demais turmas,
por ulterior determinação, deviam com ela se juntar.
Reunida, finalmente, a Comissão nessa cidade, foram dadas novas
instruções, e novos estudos tiveram começo, não
sem delonga e perda de tempo.
(...)
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A verba da Comissão acabava em setembro de 1895, e os estudos prosseguiam
lentamente no tocante à mudança da capital, segundo o espírito
das instruções de 1 de junho
de 1894.
Todavia, convindo não interromper o serviço, o ministro da Indústria
e Viação cedeu à Comissão uma verba de cem contos,
de alguns anos existente na secretaria, e destinada à exploração
da ferrovia de Catalão a Cuiabá, passando pela cidade de Goiás,
verba que prolongou os estudos até dezembro.
Mas, fazendo essa cessão, o ministro confiou, por instruções
de 2 de outubro de 1895 (...), as explorações preliminares dessa
estrada de ferro, cujo ponto de partida, Catalão, distava mais de duzentos
e cinqüenta quilômetros do centro das operações da
Comissão.
Este fato marca o início da era dos desastres da Comissão de
Estudos da Nova Capital da União.
Na segunda década do mês de setembro, havia eu terminado os meus
trabalhos estatísticos, na vila de Corumbá, e devia logo depois
seguir para Pirenópolis.
Vendo, porém, a Comissão desviada completamente de seus intuitos
fundamentais, dela me desliguei, em 24 de setembro de 1895.
A confusão não se deu só na Comissão, diga-se a
verdade.
No Congresso Nacional, onde nunca houve unidade de vistas nem sérios
estudos referentes a este grande e benéfico tentâmen, o patriotismo
e a lógica nem sempre foram a nota suprema das discussões neste
particular.
É assim que a Comissão de Orçamento, em agosto de 1894,
deu parecer contrário sobre a emenda que concedia verba para a continuação
de tais estudos, ao mesmo tempo que várias outras emendas autorizavam
o governo a abrir créditos extraordinários de quantias muito diversas
para a continuação desses trabalhos e das explorações
da estrada de Catalão a Cuiabá, por uma só e mesma Comissão.
Observavam-se essas incoerências na ocasião precisa em que se
iam manifestando, com antecipação, os funestos efeitos dos discordes
projetos de lei ao Congresso, fora de tempo apresentados.
Um, de caráter militar, criava oficialmente o Distrito Federal, no planalto,
com a administração provisória puramente técnica,
e dava providências sobre as atribuições da dita administração
sem estar ainda escolhido e aceito o local da futura cidade.
Outro mandava abrir concorrência, com prazo fatal marcado, para a construção
da nova cidade e serviços correlativos, etc.
Finalmente, um outro, ainda mais decisivo, propunha mudar a capital do Brasil
para a do Estado de Minas, para
Belo Horizonte, que nem está terminada nem tem capacidade nem propriedade
para a Capital Federal.
(...) e a não ser o fruto da primeira comissão, a Comissão
Exploradora do Planalto Central do Brasil, pouco mais de nada tem se conseguido
neste assunto (...).