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Trem experimental para Brasília cruzando a ponte ferroviária sobre o rio Paranaíba
« Trem sobre o rio Paranaíba, divisa Minas Gerais / Goiás, dirigindo-se a Brasília: 2 de setembro de 1958,
fotografia p/b, Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã, Rio de Janeiro » [cf. Brasil, Brasília e os brasileiros].
A ponte, juntamente com o trecho Patrocínio - Ouvidor, foi construída no primeiro período Vargas,
à época da Marcha para Oeste.

Dasp: 1958-1959
Os trens experimentais
Rio-Anápolis

Durante a construção da nova capital, o Departamento de Administração do Serviço Público (Dasp) organizou [pelo menos] 4 trens experimentais de passageiros entre o Rio de Janeiro e a cidade de Anápolis (GO), ponta dos trilhos da EF Goiás, como preparativo para a transferência da parcela do pessoal que deveria se instalar no planalto um pouco antes e logo após o 21 de abril de 1960 — a data fixada em lei para a mudança da capital.

De Anápolis, a viagem se completaria pela rodovia de 130 km, construída e asfaltada rapidamente pela Novacap para ligar a futura capital à ponta dos trilhos da EF Goiás.

Inaugurada a rodovia a 30 de junho de 1958, em menos de três semanas partia da estação Alfredo Maia, no Rio de Janeiro, o 1º Trem Experimental do Dasp, aos 30 minutos da madrugada de um domingo, 20 de julho, com a previsão de percorrer 1.524 km em 74 horas, à velocidade média de 20,5 km/h.

Fosse por excesso de cautela na previsão, fosse pelo especial interesse do governo, o 1º trem experimental desenvolveu uma velocidade média de 22 km/h, chegando a Anápolis em 67h 25min, às 19h50 da terça-feira, 22.

Infelizmente o Diário de Brasília não especifica o trajeto. Essa distância de 1.524 km, contudo, sugere o trajeto pela bitola métrica, partindo da estação Alfredo Maia pela Linha Auxiliar da Central do Brasil até Governador Portela; daí pelo Ramal de Vassouras (também da EFCB) até Barão de Vassouras; um pequeno trecho de bitola mista da Linha do Centro até Barão de Juparanã; e em seguida pelo Ramal de Santa Rita de Jacutinga (EFCB) até a conexão com a Rede Mineira de Viação. Pela Linha de Barra do Piraí da RMV teria seguido até Rútilo [ou Arantina?], prosseguindo então na Linha Tronco da RMV até Goiandira (GO); e finalmente pela EF Goiás até Leopoldo Bulhões e Anápolis.

Do 2º Trem Experimental, o Diário de Brasíia cita apenas o retorno, com chegada ao Rio de Janeiro no dia 2 de setembro de 1958. Nesse dia, portanto, não poderia encontrar-se na ponte sobre o rio Paranaíba, e muito menos "dirigindo-se a Brasília" (legenda da foto, no alto).

Dessa vez, o trajeto foi de 1.736 km, percorridos em 62h na ida (média de 28 km/h), e em 56h na volta (31 km/h). A nova distância, assim como o incremento na velocidade média global, são compatíveis com um trajeto misto: bitola larga pela Central do Brasil até São Paulo, capital; daí pela EF Santos a Jundiaí e pela Cia. Paulista até Campinas, com baldeação para a bitola métrica da Cia. Mogiana até Araguari; e daí pela EF Goiás até Anápolis.

O 3º Trem Experimental organizado pelo Dasp / RFFSA partiu do Rio de Janeiro às 22h40 de um domingo, 23 de novembro de 1958. Eram apenas 2 carros engatados ao trem Santa Cruz (Rio - São Paulo), levando "autoridades" não-especificadas, que na estação Roosevelt (São Paulo) baldeariam para carros da administração da Central do Brasil, seguindo para Campinas, onde haveria uma segunda baldeação "para uma composição especial que atravessará as estradas de ferro Santos-Jundiaí, Paulista, Mogiana e Goiás" — informação aparentemente incorreta, pois as duas primeiras ferrovias já teriam sido atravessadas para chegar a Campinas. A única informação adicional da viagem é de que os participantes chegaram a Brasília às 9h da quarta-feira, 26 de novembro, procedentes de Anápolis.

O 4º Trem Experimental chegou a Anápolis cinco meses mais tarde, numa quinta-feira, 16 de abril de 1959, transportando 40 pessoas, que dali seguiram de ônibus para Brasília. Também dessa vez o Diário de Brasília não indica trajeto, duração, participantes.

Conforme o nome, foram viagens de avaliação do grupo de trabalho do Dasp — conhecido como Grupo de Trabalho de Brasília, ou GTB [criado 24 fev. 1958] — e delas resultaram algumas decisões, anunciadas no dia 4 de novembro de 1959, quando já ganhavam ritmo as providências para transferir o primeiro núcleo de funcionários para a nova capital.

Segundo o registro oficial:

« dois itinerários — um para cargas e outro para passageiros — passaram a ser feitos regularmente para Brasília.

O transporte de cargas é efetuado via Barra Mansa e EF Goiás, enquanto

o transporte de passageiros utiliza as linhas da Central, da Santos a Jundiaí, Companhia Paulista, Mogiana e EF Goiás, com baldeações em Campinas e Araguari, tendo essa viagem, até Anápolis, a duração de 51 horas. » [grifos do site]

A "regularidade" desses "itinerários" — assim como o grau de sua efetiva utilização — são itens a conferir. No momento da transferência, estradas de rodagem já permitiam viagem bem mais rápida que a do trem entre o Rio de Janeiro e Brasília; e em muitos casos a ajuda-de-custo possibilitava a viagem aérea.

Por carga, no enfoque do GTB, devem-se entender especificamente as mudanças (mobílias) dos funcionários públicos, estimadas naquele momento em 12.000 m³ — item igualmente sujeito a conferir até que ponto de fato se teria realizado por via férrea, baldeando de / para caminhões nas duas pontas.

Com a ultimação das providências para a mudança, novos atores entram em evidência, e várias notícias começam a perder consistência — como a do almirante Amaral Peixoto [a 25 jun. 1957 era embaixador, Ernani], pousando da embaixada em Washington sobre o Ministério da Viação e apresentando (a 4 meses da mudança) um plano da RFFSA para "alargamento do leito da via férrea", supostamente visando o transporte das mobílias. Delírio puro.

A melhoria das linhas — introdução de locomotivas diesel-elétricas, substituição de trilhos e dormentes, pátios e postos telegráficos adicionais ao longo do percurso — já vinha sendo feita (e noticiada), em ritmo realista (ainda que inédito), praticamente desde o início da construção da nova capital. Em grande parte, integrava o programa ferroviário do Plano de Metas do governo JK, de abrangência nacional.

Escaparam ao Diário da Novacap as melhorias na linha da Cia. Mogiana — a salvo da supervisão direta da Presidência da República.

Do Nordeste a Brasília... via São Paulo

À falta da ligação Pirapora-Brasília, os candangos vindos do Nordeste para a construção de Brasília — pelo menos, os que se tenham utilizarado dos caminhos oficiais, usufruindo do convênio entre a Cia. Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) — precisaram dar a volta por São Paulo:

« O percurso que os nordestinos fizeram de trem até Brasília foi o seguinte: Recife até Colégio, em Alagoas, atravessando o rio São Francisco até Propriá. Novamente de trem chegaram a Aracaju, seguindo para Caculé, na Bahia. Daí chegaram a Monte Azul, já no estado de Minas Gerais e logo depois em Belo Horizonte. De Belo Horizonte a São Paulo, rumando para Anápolis. De Anápolis foram de caminhão para Brasília. Viagem de 22 dias, comendo rapadura, farinha e carne seca. » [Jornal do Brasil, 12-2-1960, cf. Hermes Aquino Teixeira. Brasília: O outro lado da utopia (1956-1960) - Dissertação para obtenção de grau de Mestre em História. Universidade de Brasília. Datilografado. 1982. Verificar: No tempo da GEB (1956-1960): Trabalho e violência na construção de Brasília. Thesaurus, 1996]

Também neste caso, uma participação relevante do transporte ferroviário parece duvidosa. Salvo pelo estímulo da propaganda, o governo parece ter tido muito pouco a ver com o deslocamento da maior parte dos trabalhadores que chegaram ao canteiro de obras da futura capital. A livre iniciativa era muito mais ágil, ubíqua e flexível do que o projeto ferreo-burocrático.

O Diário de Brasília não faz referência ao transporte — ferroviário ou não —, pelo Inic, de nordestinos para o trabalho na construção da nova capital. O foco restringe-se ao encaminhamento dos que iam chegando; além do assentamento de alguns colonos japoneses, importação de alguns técnicos selecionados pela comissão de migração da Comunidade Européia, implantação de granjas-modelo (Torto, Ipê, Riacho Fundo, Águas Claras, que na prática não foram além de residências para os diretores da Novacap), aperfeiçoamentos agropecuários, projeto de uma sofisticada colônia modelo, etc.

As idéias de colonização, assentamentos etc. — sugeridos pela Comissão Polli Coelho, pela Comissão Pessoa, pelo sermão de D. Carmelo Motta —, se de fato chegaram a ser considerados, não ultrapassaram a teoria, ou ficaram para depois. Não havia tempo útil, no prazo de 1.000 dias; e é possível até que despertassem suspeitas, a julgar por algumas intervenções militares um tanto abruptas.

  

 

 

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